30 de dezembro de 2025

O HOMEM RETRAÍDO

HOMENS SOB PRESSÃO: A passividade (ou mansidão) masculina contemporânea não é uma escolha de personalidade, mas um mecanismo de defesa diante de um novo cenário social e jurídico. O medo de que uma abordagem seja interpretada como assédio ou importunação sexual criou um ambiente onde o homem prefere o silêncio e o celular à iniciativa, visando evitar denúncias que poderiam arruinar sua vida profissional e pessoal.

QUEIXA FEMININA: Algumas mulheres reclamam que os homens perderam a atitude e não tomam mais a iniciativa. Dizem que, em bares e festas, eles ficam focados no celular, não olham, não se aproximam e não agem.

CRÍTICA AO FEMINISMO: Os homens argumentam que o movimento feminista é a principal causa dessa mudança. Segundo eles, o feminismo “castrou” a atitude masculina através da criminalização de comportamentos que antes eram vistos como flerte.

MEDO DAS CONSEQUÊNCIAS LEGAIS: Citam diversas leis e conceitos (Lei Maria da Penha, misoginia, assédio, estupro presumido) que tornam qualquer aproximação arriscada, pois acreditam que “a palavra da mulher basta para a ruína de um homem”.

O feminismo castrou a atitude masculina ao criminalizar a própria natureza do homem de se aproximar, flertar e olhar. Hoje, qualquer olhar mais lúbrico é considerado assédio; qualquer palavra mais forte é considerada importunação sexual. Qualquer tentativa de um beijo que não seja precedido por um registro em cartório pode ser interpretada como estupro.

O feminismo criou uma legislação e uma cultura histérica que transformou o homem num criminoso em potencial. Consequentemente, o homem, que não é tolo e tem medo de perder o emprego por uma denúncia vazia, de ser cancelado ou de ser preso — visto que a palavra da mulher basta para a sua ruína —, se retrai. Ele se isola no celular ou recorre a aplicativos, onde sente uma segurança maior de que a outra parte realmente deseja algum contato.

A RESSIGNIFICAÇÃO DA MASCULINIDADE: Este é um movimento cultural e social que questiona os papéis, comportamentos e expectativas tradicionais associados ao ser homem. Refere-se ao processo de desconstruir modelos tradicionais e restritivos de masculinidade, como a “masculinidade tóxica” ou “hegemônica”, que privilegiariam a força, a racionalidade e a repressão de sentimentos.

JOGO DE PODER: Por trás dessas narrativas que buscam desconstruir os homens, gerando uma crise de identidade masculina, existe uma estratégia política. Sociedades com homens pacíficos e enfraquecidos são ideais para a instalação de regimes autoritários. Essa estratégia também visa fazer com que as mulheres se envergonhem de seu papel, “empoderando-as” para se oporem ao homem, retirar-lhe a liderança e enfraquecer as famílias. No caos social, o Estado aparece como salvador, tornando-se o provedor e substituindo o papel da família. Essa visão, sabemos, não é majoritária em meios acadêmicos e científicos, os quais, em sua grande maioria, não reconhecem isso como um jogo de poder.

EXPECTATIVAS IRREAIS: Muitas mulheres idealizam um padrão de homem (forte, alto, protetor, sensível, romântico) que é raro, e rejeitam aqueles que não se encaixam nesse estereótipo. Se o homem é “alfa”, provedor, forte e decidido, taxam-no de “macho tóxico”. Se o homem é sensível e romântico, chamam-no de “desconstruído”, consideram-no frouxo e não sentem atração por ele.

A VIOLÊNCIA DO CAOS: Nesse cenário, homens abrutalhados, insensíveis e revoltados com o que os apequena, reagem de forma destrutiva contra a perda de seu papel social e cometem feminicídios. Ao se sentirem acuados e despojados de sua dignidade masculina por uma cultura que os vilipendia, alguns indivíduos perdem o referencial de proteção e honra, descambando para a violência extrema. Essa revolta é o subproduto de uma ideologia que, ao tentar domesticar o instinto masculino através da humilhação, acaba por despertar o que há de mais primitivo e brutal.

É um paradoxo cruel: ao mesmo tempo em que se impõe uma cultura de repressão ao homem comum, os dados mostram que nunca tivemos tantos feminicídios no mundo. Isso prova que a criminalização do flerte e a “apequenação” do homem civilizado não impedem a barbárie; pelo contrário, apenas retiram o homem de bem do convívio, deixando as mulheres mais expostas àqueles que não respeitam lei alguma. A estratégia de enfraquecer o homem, portanto, não gera harmonia, mas um ambiente de hostilidade e revolta.

CONCLUSÃO: Se a “cultura feminista” não mudar, as mulheres continuarão sozinhas e os homens se afastarão cada vez mais por medo real de represálias legais.

O homem está com medo: medo de ser preso, de ser cancelado ou de perder o emprego por uma denúncia vazia de uma mulher que se sentiu ofendida por um “oi” de que não gostou. Isso ocorre por causa dessa ideologia nefasta que separou os sexos e colocou o homem como um inimigo. Se não houver uma reversão dessa cultura do cancelamento e dessa criminalização do flerte, a solidão feminina será o padrão do futuro.

Ou seja, criaram um paradoxo impossível de ser resolvido. Ao tentar proteger a mulher, tornaram a interação natural entre os sexos um “campo minado”. O resultado é este ciclo de solidão: homens retraídos por temor e mulheres sozinhas e amarguradas, reclamando que não existe mais homem no mercado. O homem existe, mas está com medo de ser acusado e parar na delegacia.

JC COUTINHO

12 de dezembro de 2025

MUNDIAL DE CLUBES

Atualmente, existem dois torneios principais organizados pela FIFA que definem o melhor clube do mundo:
1) COPA INTERCONTINENTAL DA FIFA (Torneio Anual): Este torneio é considerado o sucessor do antigo Mundial de Clubes anual (que existiu de 2000 a 2023) e da Copa Intercontinental original (a antiga “Copa Toyota”).
2) MUNDIAL DE CLUBES FIFA (Torneio Quadrienal): Começou em 2025, disputada a cada quatro anos (de forma similar à Copa do Mundo de Seleções). Reúne 32 equipes de todos os continentes, com vagas distribuídas por confederações (títulos continentais e ranking de clubes).
A FIFA, desde 2017, reconhece oficialmente todos os vencedores da Copa Intercontinental (1960-2004) como Campeões Mundiais de Clubes.
Até hoje, seis clubes brasileiros são reconhecidos pela FIFA como Campeões Mundiais:
São Paulo (1992, 1993, 2005),
Santos (1962, 1963),
Corinthians (2000, 2012),
Flamengo (1981),
Grêmio (1983) e
Internacional (2006).

AQUECIMENTO GLOBAL

Segundo o meteorologista Luiz Carlos Molion, o climatologista Ricardo Felício e muitos outros cientistas pelo mundo afora, O HOMEM NÃO INTERFERE NO CLIMA GLOBAL (somente no clima local). O aquecimento global antropogênico (causado pelo homem) é considerado uma “farsa” e não é real.
INFLUÊNCIAS NATURAIS DOMINANTES: O clima global é controlado principalmente por fatores naturais, como:
1) O Sol (variações em seus ciclos).
2) Os Oceanos (que cobrem 71% da superfície e são grandes reservatórios de calor), sendo o Oceano Pacífico um grande “comandante do clima global”.
3) Ciclos Naturais de Mudança: A Terra passa por ciclos naturais de aquecimento e resfriamento ao longo da história, e o que é observado atualmente faz parte dessa variabilidade natural.
O PAPEL DO CO₂: O Gás Carbônico CO2 não é um vilão, não controla o clima, e não é tóxico. É, na verdade, o “gás da vida”, sendo um produto/resposta do aquecimento e não a sua causa. Ele argumenta que períodos de resfriamento já ocorreram mesmo com o aumento das emissões de CO2 (ex: pós-Segunda Guerra Mundial até 1976).
RESFRIAMENTO GLOBAL: Luiz Carlos Molion sugere que o planeta pode estar entrando ou já entrou em um período de resfriamento global, e não aquecimento.
INTERESSES ECONÔMICOS: Argumenta que por trás do discurso do “aquecimento global” existem interesses econômicos e políticos dos países desenvolvidos.
A AMAZÔNIA E O CLIMA GLOBAL: Em outras apresentações, Molion argumenta que a Amazônia não interfere no clima do planeta em um ponto de vista global, mas sim em nível local.
AQUECIMENTO DO PLANETA: Segundo o climatologista Ricardo Felício o aquecimento do planeta não é causado pelo ser humano, mas sim por ciclos naturais e históricos de elevação e queda de temperatura da Terra, argumentando que a influência humana não tem a magnitude necessária para manipular o clima em escala global.
AÇÃO HUMANA: Felício argumenta que a ação humana é de uma magnitude muito pequena e absurda para manipular ou afetar o clima global do planeta, que é controlado por forças gigantescas (como o Sol, a atividade vulcânica, e ciclos naturais). Ele chega a afirmar que “o homem não tem condições de afetar o clima global”.
CRÍTICA À “TEMPERATURA MÉDIA GLOBAL”: Felício argumenta que a ideia de uma “temperatura média” do planeta é uma abstração sem representação física real. Calcular uma temperatura média para uma área tão vasta e geograficamente diversa quanto a superfície da Terra (510 milhões de km²) é uma abstração total e não tem significado prático ou científico. As temperaturas variam de extremos negativos a positivos, tornando a média, em sua visão, inútil.
VISÃO GEOPOLÍTICA: O climatologista costuma afirmar que o alarme sobre o aquecimento global é "100% geopolítica" e que a agenda climática (como o conceito de “desenvolvimento sustentável”) visa conter o desenvolvimento de países pobres, como o Brasil.
TEMPERATURAS ELEVADAS SÃO BENÉFICAS: Felício defende que historicamente, períodos com temperaturas mais elevadas coincidem com a abundância na natureza, e que o resfriamento do planeta (eras glaciais) é que traz o empobrecimento, como o aprisionamento de água nas geleiras.
NEGACIONISMO: É importante destacar que os posicionamentos de Luiz Carlos Molion, assim como o de Ricardo Felício, são considerados de maneira pejorativa, como “negacionistas”, como na ciência não pudesse haver questionamentos e refutações. A palavra negacionista é considerada depreciativa porque implica que a pessoa nega a realidade por razões ideológicas, motivações alheias à ciência ou teorias da conspiração, e não por ceticismo ou dúvida genuína, que são saudáveis no meio científico. 
É usada frequentemente para criticar ou insultar adversários políticos, rotulando-os como indivíduos que promovem discursos de ódio e rejeitam a ciência. Chamar alguém de “negacionista” serve muitas vezes para silenciar o oponente e estigmatizá-lo, sendo uma tática que pode superficializar o debate político.
Utilizar uma palavra de ataque, que outrora teve significado e que hoje em dia é apenas uma ofensa barata para descaracterizar qualquer opositor político, não só é desonestidade intelectual, como é incapacidade de debate de ideias.
JC COUTINHO

CASAMENTOS DURADOUROS

O estudo de 85 anos da Harvard revelou que casamentos duradouros não se sustentam em sentimentos cinematográficos, mas na capacidade de conviver com as particularidades do outro. Casais que permaneceram juntos por décadas não tentavam “reeducar” um ao outro. Uma mulher disse: “Ele ronca há 40 anos e eu parei de brigar com isso.” A base era a aceitação, não flores ou serenatas.

1. O segundo padrão é saber deixar os conflitos passarem, em vez de se aprofundar em cada detalhe. Casais que discutiam sobre tudo e brigavam para provar quem estava certo se separavam com mais frequência. Aqueles que permitiam que algumas coisas ficassem sem serem ditas duravam mais. Um marido confessou: “Aprendi a ficar quieto quando ela está chateada, e no dia seguinte já estamos rindo novamente.” Não era amor que o mantinha, mas o entendimento de que a paz valia mais que vencer.

2. Outro fator oculto era a rapidez para se reconciliar após as brigas. Psicólogos da Harvard identificaram que, em casamentos sólidos, sempre havia um parceiro que fazia as pazes primeiro, mesmo se acreditasse estar certo. Era como “sacrificar o ego pela tranquilidade”. Como resultado, essas pessoas apresentavam melhor saúde, memória mais clara e maior satisfação com a vida. Não se tratava de romance, mas de um mecanismo funcional.
3. O verdadeiro elo era a mentalidade de “nós contra o mundo”. Casamentos com mais de 30 anos frequentemente resistiram à pobreza, dívidas, pressões familiares ou gerir um negócio juntos. As pessoas disseram: “Conseguimos porque permanecemos unidos contra tudo”. Não foram os filhos ou a paixão, mas as batalhas compartilhadas que os tornaram inabaláveis, criando um vínculo mais forte que promessas.
4. E uma última surpresa: a capacidade de suportar crises. Todo casamento tem momentos críticos, mas aqueles que não tomaram decisões precipitadas frequentemente observaram que, depois de seis meses, a tempestade passava. “Decidi não agir, e tudo passou” foi a resposta mais comum. Harvard concluiu: casamentos duradouros sobrevivem pela paciência em momentos que tudo parece perdido.
Fonte do Texto: O texto original é baseado nas conclusões do Estudo de Desenvolvimento Adulto de Harvard (Harvard Study of Adult Development), um dos estudos longitudinais mais longos da história.

11 de novembro de 2025

COP30 E OS CRÉDITOS DE CARBONO

A reportagem da ProPublica, de 22 de maio de 2019, investiga o mercado de créditos de carbono e conclui que, apesar do entusiasmo (inclusive no Brasil, um dos maiores receptores de recursos), o sistema não tem gerado ou não garantirá o benefício climático desejado, podendo ser “pior do que não fazer nada” contra o desmatamento.

📉 FALHAS DO SISTEMA: O crédito de carbono permite que entidades poluentes (como companhias aéreas) paguem a outros (em tese, para investir em energias renováveis e evitar o desmatamento), o que muitas vezes é uma alternativa mais barata do que reduzir de fato o uso de combustíveis fósseis.

A análise da ProPublica, baseada em projetos de duas décadas, estudos, e análise de satélite, mostra que os créditos não compensaram a poluição esperada ou os ganhos foram revertidos/não comprovados. Em um projeto, quatro anos após a venda de créditos, a floresta persistia em apenas metade da área. A conclusão é que “os poluidores receberam um passe livre para continuar emitindo CO2 sem culpa, mas a preservação da floresta não chegou a acontecer, ou não durou.”

❌ HISTÓRICO DE FRACASOS: Grandes programas globais, como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (Protocolo de Kyoto, 1997) e a Implementação Conjunta, falharam. Um relatório de 2016 indicou que 85% das compensações do MDL tinham “baixa probabilidade” de gerar impactos reais.

Um estudo de 2015 concluiu que 75% dos créditos da Implementação Conjunta não representavam reduções significativas. Se os países tivessem apenas cortado a poluição, as emissões globais teriam sido 600 milhões de toneladas mais baixas. 
Quase todos os projetos não atendem ao padrão de “adicionalidade”, que exige que o ganho ambiental só seja efetivo se as ações (como usinas solares) jamais pudessem ter sido realizadas sem os créditos. 

A ONU promoveu o modelo de crédito florestal (REDD), mas falta uma autoridade central de avaliação. Um estudo mostrou que 37% dos projetos foram implementados em áreas já protegidas.

O Brasil é um dos maiores beneficiários, mas o sistema de contabilidade para a base de cálculo de desmatamento evitado é suscetível a manipulação.

🌳 O DILEMA DA PRESERVAÇÃO E O CASO DO ACRE: O problema é agravado pela questão do “vazamento” (proteger uma área leva ao desmatamento em outra) e pelo fato de que o CO2 permanece por cerca de 100 anos na atmosfera, exigindo que as florestas fiquem intactas por um século.

Em caso notório, os créditos comprados pela FIFA para um projeto com a tribo Paiter-Suruí em Rondônia foram suspensos após madeireiros destruírem mais árvores do que todos os créditos vendidos. No Acre, referência no tema, a jornalista observou pasto onde havia seringueiras e viu o desmatamento aumentar, apesar de funcionários priorizarem a busca por recursos externos.

O mercado não consegue oferecer alternativas viáveis para os moradores rurais, que cortam árvores para combustível/agricultura. A borracha da Reserva Extrativista Chico Mendes, por exemplo, é vendida por um valor muito baixo comparado ao gado.

Cientistas ouvidos concordam com os problemas, mas alguns defendem que o modelo não teve recursos suficientes para funcionar plenamente. Outros, como Barbara Haya (Universidade da Califórnia em Berkeley), opinam que é ilusão quantificar e compensar com precisão a poluição, e o melhor a se esperar é uma ajuda incomensurável ao clima.

⚠️ PERSISTÊCIA DE DESAFIOS: Apesar da evolução e da regulamentação, os desafios antigos, como os mencionados na reportagem da ProPublica, ainda persistem:

Irregularidades: Em 2025, houve notícias sobre grandes empresas comprando créditos de carbono de áreas na Amazônia com registros de desmatamento, degradação e irregularidades no manejo madeireiro, demonstrando que a questão da integridade e do monitoramento (“vazamento”) ainda é um problema real.

Necessidade de Governança: O sucesso do novo mercado regulado brasileiro dependerá de uma governança robusta e de metodologias que comprovem a real redução de emissões e a “adicionalidade” dos projetos.

5 de novembro de 2025

UMA VIDA OU MUITAS?

1. O CONCEITO DE KARMA E SUAS IMPLICAÇÕES: A lei do karma, associada à reencarnação, é frequentemente mal interpretada no Ocidente, onde adquiriu um sentido misterioso e esotérico. Em sânscrito, karma deriva de kar (mão) e significa, simplesmente, “ação” ou seu resultado. O karma engloba todas as ações de vidas passadas, cuja somatória positiva ou negativa define nossa sorte na encarnação atual. Portanto, karma significa “sina” ou “destino” não como uma força cega, mas como o caminho inevitável que cada pessoa forja para o presente com suas ações passadas. O sofrimento atual é o preço de desvios e excessos anteriores; o sucesso, o prêmio da boa conduta em vidas passadas.

O princípio de retribuição – receber prêmio por virtudes e castigo por desvios, como na máxima de São Paulo: “O homem semeia, ele o colherá” (Gl 6,7) – é a base de toda moral universal. A doutrina hindu, contudo, estende o karma no tempo (abrangendo sucessivos nascimentos) e no espaço (conferindo-lhe um alcance cósmico). A lei do karma estabelece que tudo que se faz, diz ou pensa reflete-se no equilíbrio do universo, criando uma reação que, de forma inexorável, retorna à pessoa, produzindo dor ou gozo. Essa reação é comparável ao “efeito borboleta” e confere ao karma um aspecto mecânico, quase uma lei da natureza. Uma vez posto em marcha, seu curso é inevitável.

A grande controvérsia na Índia é: Deus pode mudar o karma? Ou, em termos cristãos: Deus pode perdoar meus pecados e evitar o sofrimento consequente? As opiniões se dividem:

A ESCOLA BHAKTIMARGA (Caminho da Devoção) afirma que sim. O amor a Deus e a fé têm o poder de limpar o karma e suas consequências, levando diretamente a Deus.

O JAINISMO nega a existência de Deus. Essa religião apresenta um dilema: se Deus pode mudar o karma, por que não o faz diante do sofrimento no mundo (questionando Sua bondade)? Se não pode, não é onipotente. Desacreditado, o Jainista proclama-se ateu, e o karma reina implacável e absoluto, determinando o destino.

2. JUSTIÇA DIVINA: O nascimento de uma menina em uma família, inicialmente motivo de alegria, logo se transforma em tristeza: ela é cega. O médico confirma: a cegueira é um defeito congênito e permanente. A criança está condenada ao mundo das trevas, sem culpa alguma, cercada de pessoas que veem o que ela não pode. Diante da pergunta “Por que isso aconteceu comigo?”, as reações são de irritação ou esquiva, mas a insistência leva a três respostas fundamentais:

PRIMEIRA RESPOSTA: O sofrimento é um mistério que deve ser aceito em silêncio. Há limites para o entendimento humano, e a única atitude sensata é sofrer com quem sofre.

SEGUNDA RESPOSTA: A doença é um evento natural. Deus criou o mundo com suas leis e permite que a natureza siga seu curso, não interferindo arbitrariamente. A cegueira seria apenas resultado de características orgânicas hereditárias.

TERCEIRA RESPOSTA: “Muitos dizem que não sabemos o que mais nos convém de fato, que Deus tira o bem do mal e que uma pessoa com um defeito físico pode ser mais feliz que outra com um corpo perfeito”.

Entre todos os argumentos, o ético — a necessidade de salvar a justiça de Deus diante das desigualdades nos nascimentos — sempre nos impressionou. Contudo, surge uma objeção decisiva. Se o que sofremos ou gozamos nesta vida decorre de culpas ou méritos anteriores, e não de nossas ações presentes, salvar-se-ia o equilíbrio da justiça divina. Mas isso exige memória. A memória é o substrato da pessoa. Sem ela, não há biografia nem reconhecimento de si. Receber prêmio ou castigo só faz sentido se lembramos ser a mesma pessoa que agiu no passado.

Annie Besant afirma que a memória vincula as etapas da experiência consciente e sustenta a individualidade. Sem ela, embora o corpo continue, a consciência que avalia ontem e hoje desaparece; perde-se história, personalidade e, na prática, deixamos de ser nós mesmos.
Contudo, ninguém recorda vidas passadas. Se não há vínculo de memória entre quem age e quem sofre as consequências, na prática uma pessoa comete o ato e outra recebe prêmio ou castigo. Assim, destrói-se a justiça divina que se pretendia salvar: um crime é cometido por alguém, e outro paga.

Somos exortados a ser virtuosos e até austeros para colher o prêmio na próxima encarnação. Porém, se eu jejuo agora, passo fome, e quem será recompensado depois será outro, que nada lembrará de mim. Ao contrário, poderia viver bem, mesmo infringindo normas, e deixar que “outro” arque com as consequências. A doutrina que pretende fortalecer a moral acaba por enfraquecê-la.

No caso da menina cega, os pais podem ser consolados com a ideia de karma de outras vidas. Mas questionariam: “Que culpa? Somos punidos por algo que não lembramos?”. Castigar alguém sem memória do ato carece de sentido ético e pedagógico; sem lembrança, não há arrependimento nem correção. A dor permanece.

3. ARGUMENTO ESCATOLÓGICO: A liberdade de escolha implica o risco de se comportar mal, levando ao inferno. No cenário de uma única vida seguida pela eternidade, esse destino se torna trágico e urgente. A reencarnação surge para suavizar esse choque, oferecendo inúmeras oportunidades para correções e para que o indivíduo alcance o céu quando decidir se comportar bem.

Contudo, e se o indivíduo teimar em descer e não se purificar? Ele é livre para escolher esse caminho em uma ou em milhões de vidas. A diferença reside apenas no tempo; mas se a liberdade é mantida, ninguém poderá levá-lo ao céu à força, mesmo através de múltiplas reencarnações. O dilema persiste:

1. Ou somos livres e podemos terminar no inferno eterno (em uma ou muitas vidas).

2. Ou somos forçados (direta ou indiretamente) a nos comportar bem para ir ao céu.

O sofrimento do dilema é o mesmo nas duas hipóteses (com ou sem reencarnação). Embora as reencarnações sejam muitas, elas têm um fim. 
O que acontece se, ao final do longo prazo, o indivíduo continuar a tomar uma decisão negativa?

Ou ele é livre para persistir no erro, ou ele não é livre, e então as diversas reencarnações funcionam como uma pressão semelhante à predestinação de uma única existência.

Portanto, além da diferença no tempo, as duas hipóteses – reencarnação e não reencarnação – são fundamentalmente iguais. A reencarnação consegue apenas retardar a crise, mas não modifica o resultado nem soluciona o dilema. É um mero adiamento.

4. LEMBRANÇA DE VIDAS PASSADAS: Para aceitar a reencarnação, seria mais fácil se ninguém se lembrasse de vidas passadas. A insistência de alguns em afirmar que lembram é contraproducente e prejudica a causa da teoria, pois sugere uma parcialidade da natureza: ou todos lembram, ou ninguém. Annie Besant é a única autora consultada que trata amplamente dessa séria objeção. Sua resposta distingue:

HOMEM-PENSADOR (mente pura), que reencarna.

HOMEM-ANIMAL (corpo-cérebro-paixões), que não reencarna.

Ela argumenta que a memória está no cérebro, parte do Homem animal. Como o corpo material e os neurônios se desintegram, os arquivos da memória se perdem, e ela não é herdada de uma encarnação para outra. Esta explicação, coerente com a neurologia moderna, apresenta, contudo, duas dificuldades:

1. Dificuldade I: Se a memória depende exclusivamente do Homem animal, o Homem Pensador fica sem memória. Assim, não se sustenta a afirmação de Besant de que o Homem Pensador acumula experiências e se aprimora através das vidas.

2. Dificuldade II: Segundo essa explicação, nunca ninguém deveria se lembrar de vidas passadas, pois sem o corpo anterior, não há memória anterior. O fato de a própria Besant afirmar não ser possível a memória, mas também alegar ter lembranças, sugere uma inconsistência.

As memórias de vidas passadas não foram confirmadas com rigor científico. Uma possível explicação para as reminiscências é que a memória genética, ao incluir genes e, indiretamente, histórias dos ancestrais, pode explicar a lembrança de fatos passados.

5. PREGUIÇA INTELECTUAL: Dattátreya Bálakrishna Kálelkar, braço direito de Gandhi em questões de educação, aborda amplamente os temas de reencarnação e karma em seu livro de 1954, “Nossa melhor companheira: a morte”.

Kálelkar propôs que, desde o início da independência da Índia, fosse promulgada uma lei severa proibindo o ensino e a pregação da reencarnação. Seu argumento principal era que a crença no karma fomenta a preguiça intelectual. A lei do karma oferece uma explicação universal e simplista para tudo: “Alguém se machucou? Era seu karma.

Morreu? Era o seu karma...”. Para Kálelkar, isto significa que, na prática, nada se explica. Em vez de trabalhar, pesquisar e remediar, as pessoas dão de ombros e aceitam.

Kálelkar afirma que os crentes não se dão ao trabalho de investigar as causas dos fenômenos, mas em cada caso, simplesmente, recorrem à reencarnação como resposta. Por exemplo, em vez de procurar um psicólogo para um comportamento estranho, dizem que é uma “encarnação anterior”.

Essa resposta é definida como pura preguiça intelectual, negação do espírito científico e estupidez, e não fé religiosa. Para Kálelkar, o princípio da reencarnação tem agido como um anestésico na sociedade, impedindo o progresso e as reformas. Quando se tem indigestão, culpam o pecado de uma vida anterior; quando reprovam em um teste, procuram um destino fatal, em vez de reconhecer a falta de preparo.

A fantasia da reencarnação favorece a crueldade, a injustiça e a opressão social. Kálelkar compara a reencarnação à vara usada por professores primários: assim como a vara garante disciplina sem que o professor precise preparar melhores aulas, a reencarnação se encarrega de explicar tudo, dispensando a investigação.

O valor do testemunho de Kálelkar reside em sua advertência para que o tema não seja aceito apressadamente.

6. A IMPIEDADE DA REENCARNAÇÃO: A reencarnação, ao prometer a solução de problemas em um futuro longínquo e impreciso (milhões de renascimentos), é vista como uma tremenda maldade. Cada novo renascimento traz sofrimento, doença e morte.

O próprio Buda reconheceu essa dor: “Dor é renascer uma vez após outra.” A maldade reside em sofrer e pagar por erros de encarnações anteriores sem saber quais foram. Uma canção popular indiana resume: “Quantos nascimentos já passaram, não posso contar... Mas sei somente isto e o sei muito bem: / Que a dor e a tristeza amargam todo o caminho.”

7. DOUTRINA SEM SENTIDO ÉTICO E PEDAGÓGICO: O castigo aplicado a alguém que não se lembra do que fez não tem sentido nem ético nem pedagógico.

Sentido Pedagógico: Quem não tem memória não pode ter a intenção de emendar-se.

Sentido Ético: Não há continuidade de responsabilidade quando a memória, ligada ao cérebro e à personalidade, é anulada na reencarnação.

Já Epicuro contestou a doutrina, afirmando que, se a alma não guarda lembrança nem identidade pessoal consciente, as consequências recaem “virtualmente sobre outro ser que não conhece a causa do castigo e, portanto, não se torna nem melhor nem mais sábio.”

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A crença ou não na reencarnação é uma escolha pessoal, e com argumentos tão fortes a favor e contra, cada um deve sentir-se livre e responsável. É, contudo, intolerável a ligeireza com que o assunto é tratado por muitos. A atitude dos sábios deve ser o modelo:

Buda, ao ser questionado sobre a existência de Deus, deu respostas variadas (Não, Sim, Silêncio) conforme a mente do interlocutor (ateu convicto, crente fervoroso, buscador), respeitando suas convicções ou incentivando a busca.

O mestre Zen, questionado sobre o que há após a morte, respondeu: “Não sei… mas não sou um mestre Zen Morto.”

Minha atitude é de respeito por quem afirma ou nega a reencarnação. O que considero indigno e denuncio é a leviandade e a superficialidade de quem adere a uma nova crença após ler um único livro, pretendendo que ela explique todos os problemas (desigualdade, injustiça, destino). Na realidade, o mistério continua, e explicações fáceis não existem.

Baseado no Livro UMA VIDA OU MUITAS? (Carlos G. Vallés)

27 de outubro de 2025

O SENTIDO DA VIDA

Por que estamos aqui? Quem ou o que fez o mundo? De onde viemos e para onde vamos? Por que existe algo e não o nada? Desde sempre, a humanidade busca respostas para essas perguntas. Ciência, filosofia, arte e religião tentaram explicá-las — algumas iluminaram caminhos, outras apenas ampliaram o mistério.

Hoje sabemos que o Universo, finito, surgiu há cerca de 15 bilhões de anos, formado por energia e matéria distribuídas em bilhões de galáxias. Em uma delas, a Via Láctea, orbita o Sol — e, em torno dele, a Terra, lar de milhões de espécies. Entre todas, o ser humano é o único que tem consciência de sua própria finitude. Vivemos num planeta entre incontáveis mundos e talvez sejamos a única espécie que sabe que vai morrer — daí nossa angústia diante do efêmero.

Kierkegaard escreveu: “O homem formado pela angústia é formado pela possibilidade.” É essa consciência que nos impulsiona a buscar sentido. Durante séculos, a religião ofereceu respostas baseadas na fé. Hoje, ciência e filosofia nos propõem explicações mais sólidas.

Darwin revelou que somos produto de um longo processo de seleção natural — máquinas de sobrevivência moldadas pelo “relojoeiro cego”. Nosso propósito biológico é preservar a vida e transmiti-la, mas o mesmo cérebro que emergiu da evolução nos libertou parcialmente de nossos genes egoístas: somos capazes de criar, escolher, sonhar e transformar o mundo.

Ainda assim, projetamos sentido em tudo, como se houvesse um criador para cada coisa. Talvez essa seja uma ilusão herdada de uma mente feita para buscar significados, mesmo onde eles não existem. E se a pergunta “qual é o sentido da vida?” não tiver resposta? Talvez o verdadeiro desafio seja aceitar o vazio e, a partir dele, criar o próprio significado.

Afinal, nossas mentes não foram moldadas para compreender o sentido da existência, mas para garantir a sobrevivência dos genes. Se filosofamos, é “por nossa conta e risco”. Por isso tantas explicações — religiosas, poéticas, morais, biológicas — e todas inevitavelmente subjetivas. Ao tentar explicar a vida, quase sempre descrevemos o que sentimos, não o que vemos. Criamos mundos idealizados e chamamos de “realidade verdadeira” aquilo que projetamos, relegando a matéria a mera aparência.

Mas não precisamos recorrer ao absurdo ou a uma divindade para justificar nossa presença. Não há necessidade de falsificar a realidade para alimentar a vaidade antropocêntrica. Saber que não significamos nada especial pode ser libertador. Essa honestidade nos torna independentes para compreender a vida como ela é: finita, passageira, sem privilégios cósmicos. Como diz o Gênesis, “Tu és pó, e ao pó voltarás.”

A ciência propõe uma resposta simples: o sentido biológico da vida é reproduzir-se. A imortalidade pertence aos genes, não à alma. No entanto, a vida humana ultrapassa a biologia. Não pode haver sentido senão aquele que criamos. O que faz a vida valer é acreditar que o que fazemos tem importância. Somos criaturas que buscam sentido num universo indiferente, e precisamos idealizar um projeto que sustente nossa existência — seja o amor, a arte, a solidariedade ou a busca do conhecimento.

Alguns encontram sentido na fé, outros na criação, na amizade, na superação ou na entrega a uma causa. Viver plenamente é reconhecer que somos frágeis e transitórios, e que o valor da vida está em construir o presente com consciência e amor. O homem é projeto, escolha, possibilidade — e só ele confere sentido às coisas, pois as coisas, por si, não o têm.

Talvez o sentido da vida não esteja em descobri-lo, mas em criá-lo — em amar, compreender e existir com plenitude. Como aconselha Monty Python, com fina ironia: “Procure amar uns aos outros, viva em paz com todos, leia um livro, faça exercícios e não coma muita gordura.”

JC COUTINHO

INCONSCIENTE COLETIVO

O inconsciente coletivo, conceito criado por Carl Gustav Jung, designa uma camada profunda da mente humana comum a toda a espécie. Diferente do inconsciente pessoal — formado por experiências e memórias individuais —, ele contém arquétipos, imagens e símbolos universais herdados da experiência ancestral da humanidade.

Esses arquétipos se expressam em mitos, sonhos, religiões e obras de arte, representando temas essenciais da existência: o herói, a mãe, o velho sábio, a sombra, entre outros. O inconsciente coletivo constitui, assim, o patrimônio psíquico da humanidade, base simbólica que molda nossa percepção, emoção e interpretação do mundo.

Enquanto o inconsciente pessoal reúne conteúdos que um dia foram conscientes — lembranças, afetos e experiências relegados ao esquecimento ou à repressão —, os do inconsciente coletivo jamais o foram na vida individual. Ele funciona como um reservatório de imagens primordiais herdadas de nossos antepassados.

Medos universais, como o das serpentes, do fogo ou da escuridão, não precisam ser aprendidos: estão gravados em nós como resquícios de antigas experiências da espécie. Esses impulsos atávicos foram, durante incontáveis gerações, mecanismos de sobrevivência — reações automáticas que aumentavam as chances de perpetuação da vida. Assim, cada indivíduo nasce já predisposto por esse patrimônio psíquico coletivo, que orienta não apenas o comportamento, mas também a imaginação, os sonhos, os mitos e a criação simbólica das culturas.

O mesmo ocorre com os animais, que reconhecem seus predadores ou sabem instintivamente cuidar de suas crias, fruto dessa memória arcaica inscrita na própria natureza. Em todos os seres vivos, há um saber que antecede a consciência: uma inteligência silenciosa que orienta gestos, escolhas e temores, como se a vida, em seu percurso milenar, tivesse aprendido a lembrar sem precisar pensar.

Quando emergem respostas que não se explicam por experiências pessoais, não é necessário recorrer a ideias de “vidas passadas”. Podem ser manifestações de arquétipos transmitidos por herança genética — embora essa hipótese permaneça no campo das suposições.

Jung mostrou que as experiências da humanidade inteira estão presentes em nós e podem vir à tona em estados alterados de consciência, revelando imagens e comportamentos que remetem a épocas tribais ou arcaicas.

Em nosso interior habitam múltiplas facetas ou personagens. Quando há desequilíbrio entre esses “eus”, surgem conflitos psíquicos. Em certos estados mentais, a parte problemática manifesta-se como outra pessoa, reforçando a ideia de multiplicidade interna — expressão das experiências universais do inconsciente coletivo.

Apesar das mudanças culturais, os sentimentos humanos fundamentais permanecem os mesmos, reconhecíveis em qualquer povo ou época. Guerras, rituais de iniciação e traumas coletivos deixam marcas profundas. A Segunda Guerra Mundial, por exemplo, gravou no inconsciente coletivo, temores como o de explosões ou confinamentos.

Esses traços sobrevivem como fragmentos da memória da espécie, e cada um de nós carrega, em alguma medida, uma porção dessa história a ser elaborada na vida atual.

JC COUTINHO

21 de outubro de 2025

A LÓGICA DO PUPPETEER

A lógica do puppeteer explora como as noções de moralidade e valor pessoal podem ser vistas como comportamentos que transmitem nossos genes, citando a ideia do “gene egoísta” de Richard Dawkins. A aplicação da teoria de Darwin à política no século XIX (Darwinismo Social) foi controversa, e a publicação de “Sociobiologia: A Nova Síntese” (1975), de E. O. Wilson, que estendeu o paradigma darwiniano, foi vista com desconfiança, inclusive como endosso ao fascismo.

Apesar das cautelas iniciais, o pensamento darwiniano, especialmente o Neodarwinismo, tem sido cada vez mais aplicado a diversas disciplinas (sociologia, psicologia, antropologia), impulsionado pela simplicidade e evidência da seleção natural.

O livro “O Animal Moral” de Robert Wright, foca na “Psicologia Evolucionária” e como as teorias neodarwinianas se manifestam no comportamento humano, como no namoro, amor e sociedade. Wright argumenta que nossa generosidade e afeto têm um propósito subjacente limitado, servindo para beneficiar a transmissão dos nossos genes (família, parceiros) ou obter favores recíprocos. Ele sugere que afeto pode ser uma “ferramenta de hostilidade” para aprofundar divisões.

A Psicologia Evolucionária, segundo Wright, embaralha as tradicionais noções políticas de Esquerda e Direita, mostrando que os comportamentos, até os liberais, podem ter vantagens genéticas. O livro usa a biografia de Darwin para humanizar essas noções cínicas. Estudos comportamentais, como o de David Buss sobre ciúme (homens se perturbam mais com infidelidade sexual, mulheres com infidelidade emocional) e o aumento de adornos em mulheres perto da ovulação, ilustram os argumentos.

A perspectiva neodarwiniana reorganiza conceitos de psicologia e filosofia. Por exemplo, o conflito entre pais e filhos, em vez de sexual (Complexo de Édipo de Freud), é visto como um conflito de interesse genético. O id seria as inclinações da seleção natural. A desarticulação entre o ambiente em que nosso cérebro evoluiu (pequenas sociedades caçadoras coletoras) e a vida moderna é apontada como causa de sofrimento.

A lógica evolutiva sugere que a auto ilusão pode ter vantagens genéticas, levando-nos a acreditar na possibilidade de felicidade. Wright prescreve uma ética utilitária como o caminho mais lógico para se afastar do cinismo total, reconhecendo que somos “um grupo de organismos aceitavelmente considerado” dada a crueldade da lógica evolutiva.

Conclui que a comunicação é uma forma econômica de um organismo afetar o comportamento de outro. Entender a natureza do controle genético é o primeiro passo para “decifrar a lógica do puppeteer (fantoche)” e buscar a liberação.

O ensaio base original está disponível em:
www.thing.net/~lilyvac/wright.html.

TRANSCENDENTALIDADE DO SER

Será que temos direito a uma alma ou a eternidade que muitos homens afirmam possuir ao deixarem o corpo físico? Sempre que ouço um crédulo dizendo que sua existência não pode simplesmente apagar-se como um eletrodoméstico queimado, me pergunto o porquê de tal pensamento. Ao serem interrogados, tais indivíduos dizem apenas que “todos nós fomos criados a imagem e semelhança de um deus todo poderoso e tais criaturas superiores não poderiam simplesmente desaparecer”. As palavras podem não ser exatamente essas mas eles dizem sempre algo com o mesmo significado.

Se alguém me perguntar o que acho disso, digo que é fantasia. Não passa de história da carochinha!! Estas ideias de vida eterna, reencarnação ou qualquer coisa ligada a transcendência resultam, na minha opinião, do inconformismo e da pretensão humana. Digo inconformismo porque o pobre crédulo não pode aceitar a ideia de que uma vez morto, tudo acaba e ele não vai migrar para outro plano ou jamais terá uma chance de voltar para este na forma humana ou de qualquer outro ser vivo.

Desse modo os crédulos são levados a acreditar em algo místico ou sobrenatural para que isto sirva de combustível para sua existência. Seria muito mais produtivo para estas pessoas se elas se conscientizassem de que só as ideias ficam e que gerar conhecimento é a única forma de contribuir para as gerações subsequentes. Isto sim seria uma forma de transcendentalidade – deixar nossas ideias para que possam servir para alguém no futuro.

Quando falo em pretensão quero dizer que o ser humano se acha tão superior em relação aos outros seres vivos que seu fim soa como algo absurdo, um despautério. Esta é apenas mais uma condição de alto afirmação do Homo sapiens que se estabeleceu e dominou maior parte da Terra. Um ser destes não pode simplesmente sumir!!! É um absurdo! Se todos os seres vivos foram criados por um deus todo poderoso, por que somente os homens teriam direito a céu ou inferno? Será que as formiguinhas em suas galerias e câmaras subterrâneas também oram com medo do inferno como fazem os homens?

Será que as planárias acreditam em deus ou têm alma?? Estes pobres seres inferiores não tem alma porque não conhecem a “glória do senhor” e por isso vão cair no esquecimento. Só porque seus sistemas nervosos são reduzidos a redes de gânglios extremamente primitivos e eles não conseguem pensar ou possuir comportamentos mais complexos como os homens, sendo assim, as planárias e seus companheiros inferiores estão condenados ao nada.

Se alguém me disser que mesmo as formas de vida ditas inferiores têm direito a um paraíso, ficarei extremamente triste por não ser uma planária. Elas não precisam orar, pagar penitência, comungar, dar passes ou fazer qualquer forma de ritual de adoração a um suposto ser criador e mesmo assim todas elas vão migrar para outro plano. Eu quero ser uma planária! Mas e um golfinho que comprovadamente possui uma inteligência fora do comum? 

Será que esse tem alma, alguma coisa que transcende a morte? E assim não deveria ser também com os primatas? Será que os cães também vivem com a constante incerteza daquilo que existe após a morte e vivem rezando com medo do que os espera? Talvez o problema esteja justamente no fato de o homem pensar em demasia e um espertalhão num passado distante teve a brilhante ideia de obter maior controle sobre seus companheiros de tribo com a crença em alguma espécie de castigo após a morte. E assim começou toda a desgraça.

Imaginem a situação de caos na qual estaria o além (ou sei lá do que os crédulos chamam o local para onde vão suas almas) se todas as pessoas ou “seres superiores” que já nasceram e morreram desde a existência do mundo até hoje tivessem ido para esses “abrigos de espíritos”. Com certeza estaria um inferno (risos) porque estariam sempre chegando mais e mais almas e assim sucessivamente até gerar um colapso total ou um congestionamento no além. Mas alguns podem dizer que existe um equilíbrio entre a quantidade de almas que sai e vai para o “outro plano”. Se isto fosse verdade, como se daria o aumento populacional? Como surgiriam novas almas?

Na minha opinião esta ideia é inconcebível e a meu ver a consciência humana desaparece no momento da morte. O que os crédulos chamam de alma eu chamo de consciência e esta é produzida por impulsos elétricos gerados em nossos neurônios. Quando o organismo morre, não há mais neurônios para produzir tais impulsos e toda fonte de emoção ou razão desaparece. Não estou querendo dizer que devemos cruzar os braços e esperar pelo fim inevitável, pelo contrário, defendo a ideia de que devemos produzir conhecimento que é a única coisa que ficará viva, não conosco mas com aqueles que nos sucedem. Então esta seria a única forma de transcendência que consigo vislumbrar na minha parca visão de mundo.

Talvez a ideia do apego ao sobrenatural seja realmente esta: servir de razão para a existência daqueles egoístas que só pensam em si próprios e não admitem a fragilidade humana. E é contra ideias retrógradas como estas que devemos lutar para promover o progresso da humanidade que ainda vive atrelada ao dogmatismo que se contradizem a todo momento e servem apenas para manobrar as massas pela velha política do medo e desestímulo ao questionamento. Por que não admitir a ideia de que somos efêmeros e tentar fazer algo de produtivo enquanto ainda estamos vivos?

Por Fabiano Gumier Costa
http://incredulos.tripod.com/page_13.htm