5 de novembro de 2025

UMA VIDA OU MUITAS?

1. O CONCEITO DE KARMA E SUAS IMPLICAÇÕES: A lei do karma, associada à reencarnação, é frequentemente mal interpretada no Ocidente, onde adquiriu um sentido misterioso e esotérico. Em sânscrito, karma deriva de kar (mão) e significa, simplesmente, “ação” ou seu resultado. O karma engloba todas as ações de vidas passadas, cuja somatória positiva ou negativa define nossa sorte na encarnação atual. Portanto, karma significa “sina” ou “destino” não como uma força cega, mas como o caminho inevitável que cada pessoa forja para o presente com suas ações passadas. O sofrimento atual é o preço de desvios e excessos anteriores; o sucesso, o prêmio da boa conduta em vidas passadas.

O princípio de retribuição – receber prêmio por virtudes e castigo por desvios, como na máxima de São Paulo: “O homem semeia, ele o colherá” (Gl 6,7) – é a base de toda moral universal. A doutrina hindu, contudo, estende o karma no tempo (abrangendo sucessivos nascimentos) e no espaço (conferindo-lhe um alcance cósmico). A lei do karma estabelece que tudo que se faz, diz ou pensa reflete-se no equilíbrio do universo, criando uma reação que, de forma inexorável, retorna à pessoa, produzindo dor ou gozo. Essa reação é comparável ao “efeito borboleta” e confere ao karma um aspecto mecânico, quase uma lei da natureza. Uma vez posto em marcha, seu curso é inevitável.

A grande controvérsia na Índia é: Deus pode mudar o karma? Ou, em termos cristãos: Deus pode perdoar meus pecados e evitar o sofrimento consequente? As opiniões se dividem:

A ESCOLA BHAKTIMARGA (Caminho da Devoção) afirma que sim. O amor a Deus e a fé têm o poder de limpar o karma e suas consequências, levando diretamente a Deus.

O JAINISMO nega a existência de Deus. Essa religião apresenta um dilema: se Deus pode mudar o karma, por que não o faz diante do sofrimento no mundo (questionando Sua bondade)? Se não pode, não é onipotente. Desacreditado, o Jainista proclama-se ateu, e o karma reina implacável e absoluto, determinando o destino.

2. JUSTIÇA DIVINA: O nascimento de uma menina em uma família, inicialmente motivo de alegria, logo se transforma em tristeza: ela é cega. O médico confirma: a cegueira é um defeito congênito e permanente. A criança está condenada ao mundo das trevas, sem culpa alguma, cercada de pessoas que veem o que ela não pode. Diante da pergunta “Por que isso aconteceu comigo?”, as reações são de irritação ou esquiva, mas a insistência leva a três respostas fundamentais:

PRIMEIRA RESPOSTA: O sofrimento é um mistério que deve ser aceito em silêncio. Há limites para o entendimento humano, e a única atitude sensata é sofrer com quem sofre.

SEGUNDA RESPOSTA: A doença é um evento natural. Deus criou o mundo com suas leis e permite que a natureza siga seu curso, não interferindo arbitrariamente. A cegueira seria apenas resultado de características orgânicas hereditárias.

TERCEIRA RESPOSTA: “Muitos dizem que não sabemos o que mais nos convém de fato, que Deus tira o bem do mal e que uma pessoa com um defeito físico pode ser mais feliz que outra com um corpo perfeito”.

Entre todos os argumentos, o ético — a necessidade de salvar a justiça de Deus diante das desigualdades nos nascimentos — sempre nos impressionou. Contudo, surge uma objeção decisiva. Se o que sofremos ou gozamos nesta vida decorre de culpas ou méritos anteriores, e não de nossas ações presentes, salvar-se-ia o equilíbrio da justiça divina. Mas isso exige memória. A memória é o substrato da pessoa. Sem ela, não há biografia nem reconhecimento de si. Receber prêmio ou castigo só faz sentido se lembramos ser a mesma pessoa que agiu no passado.

Annie Besant afirma que a memória vincula as etapas da experiência consciente e sustenta a individualidade. Sem ela, embora o corpo continue, a consciência que avalia ontem e hoje desaparece; perde-se história, personalidade e, na prática, deixamos de ser nós mesmos.
Contudo, ninguém recorda vidas passadas. Se não há vínculo de memória entre quem age e quem sofre as consequências, na prática uma pessoa comete o ato e outra recebe prêmio ou castigo. Assim, destrói-se a justiça divina que se pretendia salvar: um crime é cometido por alguém, e outro paga.

Somos exortados a ser virtuosos e até austeros para colher o prêmio na próxima encarnação. Porém, se eu jejuo agora, passo fome, e quem será recompensado depois será outro, que nada lembrará de mim. Ao contrário, poderia viver bem, mesmo infringindo normas, e deixar que “outro” arque com as consequências. A doutrina que pretende fortalecer a moral acaba por enfraquecê-la.

No caso da menina cega, os pais podem ser consolados com a ideia de karma de outras vidas. Mas questionariam: “Que culpa? Somos punidos por algo que não lembramos?”. Castigar alguém sem memória do ato carece de sentido ético e pedagógico; sem lembrança, não há arrependimento nem correção. A dor permanece.

3. ARGUMENTO ESCATOLÓGICO: A liberdade de escolha implica o risco de se comportar mal, levando ao inferno. No cenário de uma única vida seguida pela eternidade, esse destino se torna trágico e urgente. A reencarnação surge para suavizar esse choque, oferecendo inúmeras oportunidades para correções e para que o indivíduo alcance o céu quando decidir se comportar bem.

Contudo, e se o indivíduo teimar em descer e não se purificar? Ele é livre para escolher esse caminho em uma ou em milhões de vidas. A diferença reside apenas no tempo; mas se a liberdade é mantida, ninguém poderá levá-lo ao céu à força, mesmo através de múltiplas reencarnações. O dilema persiste:

1. Ou somos livres e podemos terminar no inferno eterno (em uma ou muitas vidas).

2. Ou somos forçados (direta ou indiretamente) a nos comportar bem para ir ao céu.

O sofrimento do dilema é o mesmo nas duas hipóteses (com ou sem reencarnação). Embora as reencarnações sejam muitas, elas têm um fim. 
O que acontece se, ao final do longo prazo, o indivíduo continuar a tomar uma decisão negativa?

Ou ele é livre para persistir no erro, ou ele não é livre, e então as diversas reencarnações funcionam como uma pressão semelhante à predestinação de uma única existência.

Portanto, além da diferença no tempo, as duas hipóteses – reencarnação e não reencarnação – são fundamentalmente iguais. A reencarnação consegue apenas retardar a crise, mas não modifica o resultado nem soluciona o dilema. É um mero adiamento.

4. LEMBRANÇA DE VIDAS PASSADAS: Para aceitar a reencarnação, seria mais fácil se ninguém se lembrasse de vidas passadas. A insistência de alguns em afirmar que lembram é contraproducente e prejudica a causa da teoria, pois sugere uma parcialidade da natureza: ou todos lembram, ou ninguém. Annie Besant é a única autora consultada que trata amplamente dessa séria objeção. Sua resposta distingue:

HOMEM-PENSADOR (mente pura), que reencarna.

HOMEM-ANIMAL (corpo-cérebro-paixões), que não reencarna.

Ela argumenta que a memória está no cérebro, parte do Homem animal. Como o corpo material e os neurônios se desintegram, os arquivos da memória se perdem, e ela não é herdada de uma encarnação para outra. Esta explicação, coerente com a neurologia moderna, apresenta, contudo, duas dificuldades:

1. Dificuldade I: Se a memória depende exclusivamente do Homem animal, o Homem Pensador fica sem memória. Assim, não se sustenta a afirmação de Besant de que o Homem Pensador acumula experiências e se aprimora através das vidas.

2. Dificuldade II: Segundo essa explicação, nunca ninguém deveria se lembrar de vidas passadas, pois sem o corpo anterior, não há memória anterior. O fato de a própria Besant afirmar não ser possível a memória, mas também alegar ter lembranças, sugere uma inconsistência.

As memórias de vidas passadas não foram confirmadas com rigor científico. Uma possível explicação para as reminiscências é que a memória genética, ao incluir genes e, indiretamente, histórias dos ancestrais, pode explicar a lembrança de fatos passados.

5. PREGUIÇA INTELECTUAL: Dattátreya Bálakrishna Kálelkar, braço direito de Gandhi em questões de educação, aborda amplamente os temas de reencarnação e karma em seu livro de 1954, “Nossa melhor companheira: a morte”.

Kálelkar propôs que, desde o início da independência da Índia, fosse promulgada uma lei severa proibindo o ensino e a pregação da reencarnação. Seu argumento principal era que a crença no karma fomenta a preguiça intelectual. A lei do karma oferece uma explicação universal e simplista para tudo: “Alguém se machucou? Era seu karma.

Morreu? Era o seu karma...”. Para Kálelkar, isto significa que, na prática, nada se explica. Em vez de trabalhar, pesquisar e remediar, as pessoas dão de ombros e aceitam.

Kálelkar afirma que os crentes não se dão ao trabalho de investigar as causas dos fenômenos, mas em cada caso, simplesmente, recorrem à reencarnação como resposta. Por exemplo, em vez de procurar um psicólogo para um comportamento estranho, dizem que é uma “encarnação anterior”.

Essa resposta é definida como pura preguiça intelectual, negação do espírito científico e estupidez, e não fé religiosa. Para Kálelkar, o princípio da reencarnação tem agido como um anestésico na sociedade, impedindo o progresso e as reformas. Quando se tem indigestão, culpam o pecado de uma vida anterior; quando reprovam em um teste, procuram um destino fatal, em vez de reconhecer a falta de preparo.

A fantasia da reencarnação favorece a crueldade, a injustiça e a opressão social. Kálelkar compara a reencarnação à vara usada por professores primários: assim como a vara garante disciplina sem que o professor precise preparar melhores aulas, a reencarnação se encarrega de explicar tudo, dispensando a investigação.

O valor do testemunho de Kálelkar reside em sua advertência para que o tema não seja aceito apressadamente.

6. A IMPIEDADE DA REENCARNAÇÃO: A reencarnação, ao prometer a solução de problemas em um futuro longínquo e impreciso (milhões de renascimentos), é vista como uma tremenda maldade. Cada novo renascimento traz sofrimento, doença e morte.

O próprio Buda reconheceu essa dor: “Dor é renascer uma vez após outra.” A maldade reside em sofrer e pagar por erros de encarnações anteriores sem saber quais foram. Uma canção popular indiana resume: “Quantos nascimentos já passaram, não posso contar... Mas sei somente isto e o sei muito bem: / Que a dor e a tristeza amargam todo o caminho.”

7. DOUTRINA SEM SENTIDO ÉTICO E PEDAGÓGICO: O castigo aplicado a alguém que não se lembra do que fez não tem sentido nem ético nem pedagógico.

Sentido Pedagógico: Quem não tem memória não pode ter a intenção de emendar-se.

Sentido Ético: Não há continuidade de responsabilidade quando a memória, ligada ao cérebro e à personalidade, é anulada na reencarnação.

Já Epicuro contestou a doutrina, afirmando que, se a alma não guarda lembrança nem identidade pessoal consciente, as consequências recaem “virtualmente sobre outro ser que não conhece a causa do castigo e, portanto, não se torna nem melhor nem mais sábio.”

8. CONSIDERAÇÕES FINAIS: A crença ou não na reencarnação é uma escolha pessoal, e com argumentos tão fortes a favor e contra, cada um deve sentir-se livre e responsável. É, contudo, intolerável a ligeireza com que o assunto é tratado por muitos. A atitude dos sábios deve ser o modelo:

Buda, ao ser questionado sobre a existência de Deus, deu respostas variadas (Não, Sim, Silêncio) conforme a mente do interlocutor (ateu convicto, crente fervoroso, buscador), respeitando suas convicções ou incentivando a busca.

O mestre Zen, questionado sobre o que há após a morte, respondeu: “Não sei… mas não sou um mestre Zen Morto.”

Minha atitude é de respeito por quem afirma ou nega a reencarnação. O que considero indigno e denuncio é a leviandade e a superficialidade de quem adere a uma nova crença após ler um único livro, pretendendo que ela explique todos os problemas (desigualdade, injustiça, destino). Na realidade, o mistério continua, e explicações fáceis não existem.

Baseado no Livro UMA VIDA OU MUITAS? (Carlos G. Vallés)

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