27 de outubro de 2025

O SENTIDO DA VIDA

Por que estamos aqui? Quem ou o que fez o mundo? De onde viemos e para onde vamos? Por que existe algo e não o nada? Desde sempre, a humanidade busca respostas para essas perguntas. Ciência, filosofia, arte e religião tentaram explicá-las — algumas iluminaram caminhos, outras apenas ampliaram o mistério.

Hoje sabemos que o Universo, finito, surgiu há cerca de 15 bilhões de anos, formado por energia e matéria distribuídas em bilhões de galáxias. Em uma delas, a Via Láctea, orbita o Sol — e, em torno dele, a Terra, lar de milhões de espécies. Entre todas, o ser humano é o único que tem consciência de sua própria finitude. Vivemos num planeta entre incontáveis mundos e talvez sejamos a única espécie que sabe que vai morrer — daí nossa angústia diante do efêmero.

Kierkegaard escreveu: “O homem formado pela angústia é formado pela possibilidade.” É essa consciência que nos impulsiona a buscar sentido. Durante séculos, a religião ofereceu respostas baseadas na fé. Hoje, ciência e filosofia nos propõem explicações mais sólidas.

Darwin revelou que somos produto de um longo processo de seleção natural — máquinas de sobrevivência moldadas pelo “relojoeiro cego”. Nosso propósito biológico é preservar a vida e transmiti-la, mas o mesmo cérebro que emergiu da evolução nos libertou parcialmente de nossos genes egoístas: somos capazes de criar, escolher, sonhar e transformar o mundo.

Ainda assim, projetamos sentido em tudo, como se houvesse um criador para cada coisa. Talvez essa seja uma ilusão herdada de uma mente feita para buscar significados, mesmo onde eles não existem. E se a pergunta “qual é o sentido da vida?” não tiver resposta? Talvez o verdadeiro desafio seja aceitar o vazio e, a partir dele, criar o próprio significado.

Afinal, nossas mentes não foram moldadas para compreender o sentido da existência, mas para garantir a sobrevivência dos genes. Se filosofamos, é “por nossa conta e risco”. Por isso tantas explicações — religiosas, poéticas, morais, biológicas — e todas inevitavelmente subjetivas. Ao tentar explicar a vida, quase sempre descrevemos o que sentimos, não o que vemos. Criamos mundos idealizados e chamamos de “realidade verdadeira” aquilo que projetamos, relegando a matéria a mera aparência.

Mas não precisamos recorrer ao absurdo ou a uma divindade para justificar nossa presença. Não há necessidade de falsificar a realidade para alimentar a vaidade antropocêntrica. Saber que não significamos nada especial pode ser libertador. Essa honestidade nos torna independentes para compreender a vida como ela é: finita, passageira, sem privilégios cósmicos. Como diz o Gênesis, “Tu és pó, e ao pó voltarás.”

A ciência propõe uma resposta simples: o sentido biológico da vida é reproduzir-se. A imortalidade pertence aos genes, não à alma. No entanto, a vida humana ultrapassa a biologia. Não pode haver sentido senão aquele que criamos. O que faz a vida valer é acreditar que o que fazemos tem importância. Somos criaturas que buscam sentido num universo indiferente, e precisamos idealizar um projeto que sustente nossa existência — seja o amor, a arte, a solidariedade ou a busca do conhecimento.

Alguns encontram sentido na fé, outros na criação, na amizade, na superação ou na entrega a uma causa. Viver plenamente é reconhecer que somos frágeis e transitórios, e que o valor da vida está em construir o presente com consciência e amor. O homem é projeto, escolha, possibilidade — e só ele confere sentido às coisas, pois as coisas, por si, não o têm.

Talvez o sentido da vida não esteja em descobri-lo, mas em criá-lo — em amar, compreender e existir com plenitude. Como aconselha Monty Python, com fina ironia: “Procure amar uns aos outros, viva em paz com todos, leia um livro, faça exercícios e não coma muita gordura.”

JC COUTINHO

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