A reportagem da ProPublica, de 22
de maio de 2019, investiga o mercado de créditos de carbono e
conclui que, apesar do entusiasmo (inclusive no Brasil, um dos
maiores receptores de recursos), o sistema não tem gerado ou não
garantirá o benefício climático desejado, podendo ser “pior do
que não fazer nada” contra o desmatamento.
📉 FALHAS DO SISTEMA: O crédito de carbono permite que entidades poluentes (como companhias aéreas) paguem a outros (em tese, para investir em energias renováveis e evitar o desmatamento), o que muitas vezes é uma alternativa mais barata do que reduzir de fato o uso de combustíveis fósseis.
A análise da ProPublica, baseada em projetos de duas décadas, estudos, e análise de satélite, mostra que os créditos não compensaram a poluição esperada ou os ganhos foram revertidos/não comprovados. Em um projeto, quatro anos após a venda de créditos, a floresta persistia em apenas metade da área. A conclusão é que “os poluidores receberam um passe livre para continuar emitindo CO2 sem culpa, mas a preservação da floresta não chegou a acontecer, ou não durou.”
❌ HISTÓRICO DE FRACASOS: Grandes programas globais, como o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (Protocolo de Kyoto, 1997) e a Implementação Conjunta, falharam. Um relatório de 2016 indicou que 85% das compensações do MDL tinham “baixa probabilidade” de gerar impactos reais.
Um estudo de 2015 concluiu que 75% dos créditos da Implementação Conjunta não representavam reduções significativas. Se os países tivessem apenas cortado a poluição, as emissões globais teriam sido 600 milhões de toneladas mais baixas. Quase todos os projetos não atendem ao padrão de “adicionalidade”, que exige que o ganho ambiental só seja efetivo se as ações (como usinas solares) jamais pudessem ter sido realizadas sem os créditos.
A ONU promoveu
o modelo de crédito florestal (REDD), mas falta uma autoridade
central de avaliação. Um estudo mostrou que 37% dos projetos foram
implementados em áreas já protegidas.
O Brasil é um dos maiores beneficiários, mas o sistema de contabilidade para a base de cálculo de desmatamento evitado é suscetível a manipulação.
🌳 O DILEMA DA PRESERVAÇÃO E O CASO DO ACRE: O problema é agravado pela questão do “vazamento” (proteger uma área leva ao desmatamento em outra) e pelo fato de que o CO2 permanece por cerca de 100 anos na atmosfera, exigindo que as florestas fiquem intactas por um século.
Em
caso notório, os créditos comprados pela FIFA para um projeto com a
tribo Paiter-Suruí em Rondônia foram suspensos após madeireiros
destruírem mais árvores do que todos os créditos vendidos. No
Acre, referência no tema, a jornalista observou pasto onde havia
seringueiras e viu o desmatamento aumentar, apesar de funcionários
priorizarem a busca por recursos externos.
O mercado não consegue oferecer alternativas viáveis para os moradores rurais, que cortam árvores para combustível/agricultura. A borracha da Reserva Extrativista Chico Mendes, por exemplo, é vendida por um valor muito baixo comparado ao gado.
Cientistas ouvidos concordam com os problemas, mas alguns defendem que o modelo não teve recursos suficientes para funcionar plenamente. Outros, como Barbara Haya (Universidade da Califórnia em Berkeley), opinam que é ilusão quantificar e compensar com precisão a poluição, e o melhor a se esperar é uma ajuda incomensurável ao clima.
⚠️ PERSISTÊCIA DE DESAFIOS: Apesar da evolução e da regulamentação, os desafios antigos, como os mencionados na reportagem da ProPublica, ainda persistem:
Irregularidades: Em 2025, houve notícias sobre grandes empresas comprando créditos de carbono de áreas na Amazônia com registros de desmatamento, degradação e irregularidades no manejo madeireiro, demonstrando que a questão da integridade e do monitoramento (“vazamento”) ainda é um problema real.
Necessidade de Governança: O sucesso do novo mercado regulado brasileiro dependerá de uma governança robusta e de metodologias que comprovem a real redução de emissões e a “adicionalidade” dos projetos.
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