8 de outubro de 2025

DEUS NÃO ANTEVIU

Genes são as palavras que escrevem as instruções para a construção dos organismos vivos. Esses replicadores buscam apenas sua própria perpetuação, sendo egoístas e indiferentes aos interesses humanos. Suas estratégias engenhosas levam-nos, inclusive, a formar máquinas que garantam sua sobrevivência: os seres vivos.

A PERIGOSA IDEIA DE DARWIN: Até cerca de 150 anos atrás, era difícil ser ateu convicto, pois a pergunta fundamental – como surgiram a vida e organismos tão sofisticados? – permanecia sem resposta científica. 
A complexidade do olho, do cérebro, ou da cauda do pavão, por exemplo, sugeria a existência de um Projetista perfeito. 

Foi Charles Darwin quem resolveu o problema, propondo um princípio que explicava a complexidade organizada dos seres vivos sem a necessidade de intervenção não natural. Após coletar vasta informação, ele identificou um princípio unificador: a evolução, dirigida pela seleção natural.

SELEÇÃO NATURAL: A seleção natural é o mecanismo que atua priorizando organismos mais aptos a sobreviver e se reproduzir. Isso produz seres cada vez mais bem-adaptados ao meio, sendo “mais bem-adaptado” apenas mais competente na arte de se reproduzir. Os não tão bem-adaptados foram eliminados. A batalha pela existência exige aptidão (fitness), a competência em crescer e se multiplicar.

A ideia central de Darwin é: variações herdadas úteis à reprodução se disseminam e transformam a espécie. Essa é a explicação para a cauda do pavão, o olho humano, e todos os designs do mundo vivo. O cérebro humano, por exemplo, é um produto da seleção natural, um processo formal, automático, sem inteligência nem intenção, que atua sobre o que o acaso oferece. O relojoeiro da natureza é cego.

DO BIG BANG AO GENE: Nosso universo surgiu há cerca de 15 bilhões de anos. O Big Bang gerou radiação e partículas elementares. A energia se transformou em matéria (E=mc2). Com o resfriamento, prótons e elétrons formaram os primeiros átomos de hidrogênio, a substância da qual toda a matéria conhecida veio. Bilhões de anos após, ocorreu o surgimento de supermoléculas com a notável propriedade de se autor replicar. O embaralhamento do baralho cósmico produziu uma estrutura capaz de processar informação e assumir a dinâmica fundamental da vida. A permanência é a ambição suprema.

O DNA, o replicador fundamental, surgiu por meio das leis da Física e da Química na “sopa primordial”. É ele quem legisla em causa própria, alterando seus textos para garantir a sobrevivência nas gerações futuras. O DNA é a realidade do verbo que busca o “Crescei e multiplicai-vos”.

A HIPÓTESE DO GENE EGOÍSTA: O biólogo Richard Dawkins propõe a hipótese do gene egoísta: a seleção natural atua sobre a molécula do DNA, ou mais precisamente, sobre os genes. Assim, são os genes que “desejam” sobreviver. Genes são segmentos do DNA, e a vida é um processo de informação, onde o DNA escreve os textos para a construção da vida. Neste ponto de vista, seres vivos são máquinas de sobrevivência construídas pelos genes para facilitar sua própria replicação.

A dinâmica fundamental é que a evolução seleciona os genes mais aptos a continuar existindo. Eles seguem adiante através de cópias em seus corpos veículos, que morrem, mas os genes são potencialmente imortais. Seu único objetivo é construir corpos que se reproduzam. O altruísmo de formigas ou abelhas, por exemplo, é explicado pelo egoísmo dos genes: as que morrem garantem a replicação dos genes presentes em seus parentes.

MÁQUINAS DE SOBREVIVÊNCIA: Desde o início, nos mares primitivos, a competição se instalou entre os replicadores. Erros de cópia (mutações) trouxeram a variedade essencial para o processo evolutivo. Todos os seres vivos compartilham a mesma molécula ancestral de DNA.

Replicadores mais competentes desenvolveram truques para a sobrevivência. Dawkins explica: os replicadores que sobreviveram foram os que construíram máquinas, ou veículos, para sua própria proteção e existência. A concorrência levou ao desenvolvimento de máquinas de sobrevivência cada vez maiores e mais elaboradas.

Quatro bilhões de anos depois, os replicadores ancestrais estão aglomerados em colônias, protegidos dentro de robôs gigantescos e desajeitados. Eles são os genes, e nós somos suas máquinas de sobrevivência. Sua preservação é a razão última da nossa existência.

A CEGUEIRA DA SELEÇÃO NATURAL: As máquinas de sobrevivência foram criadas pelo processo cego da seleção natural, sem projeto ou projetista. Esse processo é totalmente indiferente à dor ou a qualquer valor humano. Ele não tem propósito ou objetiva gerar a espécie humana. A seleção natural permite apenas a sobrevivência dos genes aptos a gerar veículos capazes de perpetuá-los.

O olho é resultado da ação desse relojoeiro cego ao longo de um tempo astronomicamente grande. Genes para olhos cada vez mais especializados foram sendo escolhidos. Assim surgiram os complexos mecanismos da nossa visão: um belíssimo design sem designer. Enxergar confere uma tremenda vantagem competitiva. O físico Fred Hoyle comparou aceitar Darwin a crer que um tufão montaria um Boeing 747 em um depósito de peças. Hoyle, contudo, estava errado.

A seleção natural atua, de forma imediatista, sobre o que as leis da Física e da Química oferecem. É o passar de vastos espaços de tempo que permite o surgimento de estruturas como o olho. Ele é o melhor dos olhos porque conferiu a maior vantagem na competição por sobrevivência e reprodução em determinado momento. Nosso olho veio de um “não-olho”, através de uma sucessão de olhos progressivamente melhores. As mutações casuais eram selecionadas: quem enxergava melhor localizava presas, fugia de predadores, vivia mais e se reproduzia mais.

A genialidade de Darwin foi descobrir que mesmo o que tem um design sofisticadíssimo não tem designer. É o processo cego da seleção natural que é responsável pela nossa existência, de nossos cérebros e de nossas mentes.

SUCESSO E FRACASSO NA LEI NATURAL: A seleção natural é um processo não criativo, mas com resultado garantido: em cada momento, a melhor variante possível para o projeto. As alternativas falhas morreram sem deixar descendentes. Sucesso, segundo a natureza, é permanecer.

O neurofisiologista William Calvin ilustra a natureza da seleção natural com o exemplo das apostas em cavalos: ao enviar mil previsões diferentes, um grupo de cem pessoas se convence de que o emissor tem um conhecimento especial, devido à seleção a posteriori dos acertos, ignorando-se os inúmeros erros. Assim é a seleção natural: observamos os animais que sobreviveram, os órgãos que funcionaram.

COMPETIÇÃO E A ESTRATÉGIA DOS GENES: A dinâmica da evolução, inspirada em Thomas Malthus, prevê que nem toda a prole sobrevive. O ambiente natural seleciona os genes que melhor sobrevivem, o que explica o termo “seleção natural”. 
Se os genes programam os organismos para agirem em seus próprios interesses, a natureza se torna um espetáculo de egoísmo, trapaça e dissimulação, pois o único objetivo é a propagação dos genes. Olhando de perto, percebemos mães abandonando crias fracas e filhotes tentando enganar os pais, além de machos e fêmeas usando blefes na relação reprodutiva.

Esse processo é sempre mediado por uma análise de custo-benefício. Espermatozoides são baratos, enquanto óvulos são caros e exigem um investimento maior da fêmea. Por isso, fêmeas tendem a ser mais cuidadosas na escolha de parceiros.

A seleção natural provoca o surgimento de comportamentos de equilíbrio, estratégias que levam a um compromisso entre os interesses egoístas. O conflito sexual é inerente, devido à diferença essencial: espermatozoides são abundantes e baratos; óvulos são escassos e caros. Mães tentam investir por igual, aprendendo a detectar a fraude e a puni-la, pois a seleção natural “força” a convergência das estratégias de mães e crias para a máxima propagação dos genes de ambos. Os comportamentos que persistem são as estratégias evolucionariamente estáveis.

O egoísmo inerente ao jogo de replicação, paradoxalmente, força a colaboração. Na gravidez, o feto age como um sutil parasita para sugar mais nutrientes, gerando uma corrida armamentista até se atingir um equilíbrio: a colaboração por reciprocidade.

Outro exemplo: o altruísmo de fêmeas de pássaros que chocam ovos alheios. Uma fêmea trapaceira, que não choca os ovos e aproveita o tempo para pôr mais, teria vantagem. A trapaça, no entanto, não é evolucionariamente estável a longo prazo, pois a espécie sumiria. A fêmea “honesta” ganha se aprender a identificar e chocar apenas seus próprios ovos.

CUSTO/BENEFÍCIO E A REBELIÃO HUMANA: A guerra do gene egoísta toma formas extremas, como a cauda do pavão. Sua origem é o exibicionismo sexual: caudas extravagantes atraem fêmeas, mas podem atrair predadores ou exigir mais energia, podendo causar a morte do portador. O custo/benefício é que deve ser considerado: se o macho copulou o suficiente para garantir a passagem de seus genes, a morte da máquina de sobrevivência é “aceitável”. A preservação do gene é a utilidade nesse jogo.

A seleção natural não premia a esperteza isolada, mas sim a capacidade de preservar os genes. A monogamia, por exemplo, pode ter surgido do conflito entre machos e fêmeas: fêmeas recusam a cópula até que o macho prove que auxiliará no cuidado da prole.

Há casos em que filhotes de pássaros quebram os ovos dos irmãos para fora do ninho. Dawkins observa que a cria tentará usar toda arma psicológica (mentira, chantagem) para obter mais que sua parcela justa de alimento. O egoísmo desenfreado é sempre moderado pela relação instintiva de custo/benefício, no interesse dos genes.

O cérebro e o comportamento também são artefatos que a seleção natural inventou. O sistema nervoso das espécies foi desenvolvido sob influência dos genes, sendo, portanto, objeto de seleção. Características fundamentais para o ser humano, como a linguagem e a consciência, emergiram do cérebro, conferindo vantagens decisivas.

Embora o princípio de operação das "máquinas de sobrevivência" possa soar cínico, a espécie humana é a única que pode se "rebelar contra a ditadura" do gene. A consciência humana, obra do relojoeiro cego, nos confere originalidade, permitindo-nos buscar um sentido e superar a "frieza" da seleção natural. Estamos em um jogo existencial, no qual os melhores jogadores continuam. Por ironia, o relojoeiro cego, assim como o Deus bíblico, acabou produzindo um efeito que não estava no programa: Nós.

Extraído do Livro “O Glorioso Acidente” de Clemente de Nobrega
(Físico e Master in Science em Engenharia Nuclear).

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