O melhor de Freud é sua
percepção do paradoxo de sermos animais extremamente sociáveis:
sermos no cerne libidinosos, gananciosos e de um modo geral egoístas
e, no entanto, termos que viver educadamente com outros seres humanos
– termos que alcançar nossas metas animais por meio de uma
tortuosa via de cooperação, conciliação e contenção, sendo a
mente um lugar de conflito entre os impulsos animais e a realidade
social.
A gratidão é a mais agradável das virtudes; não é, no entanto, a mais fácil. No caso da gratidão, todavia, a satisfação surpreende menos que a dificuldade. Quem não prefere receber um presente a um tapa? Agradecer a perdoar? A gratidão é um mistério, não pelo prazer que temos com ela, mas pelo obstáculo que com ela vencemos. É a mais agradável das virtudes, e o mais virtuoso dos prazeres. A gratidão não nos tira nada, ela é dom em troca, mas sem perda e quase sem objeto. A gratidão nada tem a dar, além do prazer de ter recebido.
Agradecer é dar; ser grato é dividir. Esse prazer que devo a você não é apenas para mim. Essa alegria é nossa. Essa felicidade é nossa. Se a gratidão nos falta com tanta frequência não é por incapacidade de receber ou por insensibilidade e sim por incapacidade de dar e por egoísmo.
A ingratidão não é incapacidade de receber, mas incapacidade de retribuir – sob forma de alegria, sob forma de amor – um pouco de alegria recebida ou sentida. É por isso que a ingratidão é tão frequente. Há humildade na gratidão, e a humildade é difícil. O que a gratidão ensina, porém, é que existe também uma humildade alegre, ou uma alegria humilde.
A gratidão é alegria, a gratidão é amor. É por isso que ela se aproxima da caridade, que seria como “uma gratidão incoativa, uma gratidão sem causa, uma gratidão incondicional, assim como a gratidão é uma caridade segunda ou hipotética”.
Alegria somada a alegria: amor somado a amor. A gratidão é nisso o segredo da amizade, não pelo sentimento de uma dívida, pois nada se deve aos amigos, mas por superabundância de alegria comum, de alegria recíproca, de alegria partilhada. “A amizade conduz sua dança ao redor do mundo”. Obrigado por existir, dizem um ao outro, e ao mundo, e ao universo. Essa gratidão é de fato uma virtude, pois é a felicidade de amar, e a única.
PSICOLOGIA EVOLUCIONISTA: Darwin, durante a evolução humana, afirmou que “a medida que a capacidade de raciocínio e previsão se aperfeiçoam, os homens não tardariam a aprender por experiência que se ajudassem seus iguais, normalmente receberiam ajuda em retribuição. Por esse motivo mesquinho o homem talvez tivesse adquirido o hábito de ajudar seus iguais; e o hábito de praticar boas ações certamente fortalece o sentimento de solidariedade, que dá o primeiro impulso às boas ações”.
A Gratidão faz as pessoas pagarem os favores sem pensar muito que é isto que estão fazendo. E se sentimos mais compaixão por determinadas pessoas – pessoas, por exemplo, a que somos gratos - isto pode nos levar, de novo quase inconscientemente, a retribuir o ato de bondade.
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