1. O CONCEITO DE KARMA E SUAS
IMPLICAÇÕES: A lei do karma, associada à reencarnação, é
frequentemente mal interpretada no Ocidente, onde adquiriu um sentido
misterioso e esotérico. Em sânscrito, karma deriva de kar (mão) e
significa, simplesmente, “ação” ou seu resultado. O karma
engloba todas as ações de vidas passadas, cuja somatória positiva
ou negativa define nossa sorte na encarnação atual. Portanto, karma
significa “sina” ou “destino” não como uma força cega, mas
como o caminho inevitável que cada pessoa forja para o presente com
suas ações passadas. O sofrimento atual é o preço de desvios e
excessos anteriores; o sucesso, o prêmio da boa conduta em vidas
passadas.
O
princípio de retribuição – receber prêmio por virtudes e
castigo por desvios, como na máxima de São Paulo: “O homem
semeia, ele o colherá” (Gl 6,7) – é a base de toda moral
universal. A doutrina hindu, contudo, estende o karma no tempo
(abrangendo sucessivos nascimentos) e no espaço (conferindo-lhe um
alcance cósmico). A lei do karma estabelece que tudo que se faz, diz
ou pensa reflete-se no equilíbrio do universo, criando uma reação
que, de forma inexorável, retorna à pessoa, produzindo dor ou gozo.
Essa reação é comparável ao “efeito borboleta” e confere ao
karma um aspecto mecânico, quase uma lei da natureza. Uma vez posto
em marcha, seu curso é inevitável.
A
grande controvérsia na Índia é: Deus pode mudar o karma? Ou, em
termos cristãos: Deus pode perdoar meus pecados e evitar o
sofrimento consequente? As opiniões se dividem:
A
ESCOLA BHAKTIMARGA (Caminho da Devoção) afirma que sim. O amor a
Deus e a fé têm o poder de limpar o karma e suas consequências,
levando diretamente a Deus.
O
JAINISMO nega a existência de Deus. Essa religião apresenta um
dilema: se Deus pode mudar o karma, por que não o faz diante do
sofrimento no mundo (questionando Sua bondade)? Se não pode, não é
onipotente. Desacreditado, o Jainista proclama-se ateu, e o karma
reina implacável e absoluto, determinando o destino.
2.
JUSTIÇA DIVINA: O nascimento de uma menina em uma família,
inicialmente motivo de alegria, logo se transforma em tristeza: ela é
cega. O médico confirma: a cegueira é um defeito congênito e
permanente. A criança está condenada ao mundo das trevas, sem culpa
alguma, cercada de pessoas que veem o que ela não pode. Diante da
pergunta “Por que isso aconteceu comigo?”, as reações são de
irritação ou esquiva, mas a insistência leva a três respostas
fundamentais:
PRIMEIRA
RESPOSTA: O sofrimento é um mistério que deve ser aceito em
silêncio. Há limites para o entendimento humano, e a única atitude
sensata é sofrer com quem sofre.
SEGUNDA
RESPOSTA: A doença é um evento natural. Deus criou o mundo com suas
leis e permite que a natureza siga seu curso, não interferindo
arbitrariamente. A cegueira seria apenas resultado de características
orgânicas hereditárias.
TERCEIRA
RESPOSTA: “Muitos dizem que não sabemos o que mais nos convém de
fato, que Deus tira o bem do mal e que uma pessoa com um defeito
físico pode ser mais feliz que outra com um corpo perfeito”.
Entre
todos os argumentos, o ético — a necessidade de salvar a justiça
de Deus diante das desigualdades nos nascimentos — sempre nos
impressionou. Contudo, surge uma objeção decisiva. Se o que
sofremos ou gozamos nesta vida decorre de culpas ou méritos
anteriores, e não de nossas ações presentes, salvar-se-ia o
equilíbrio da justiça divina. Mas isso exige memória. A memória é
o substrato da pessoa. Sem ela, não há biografia nem reconhecimento
de si. Receber prêmio ou castigo só faz sentido se lembramos ser a
mesma pessoa que agiu no passado.
Annie
Besant afirma que a memória vincula as etapas da experiência
consciente e sustenta a individualidade. Sem ela, embora o corpo
continue, a consciência que avalia ontem e hoje desaparece; perde-se
história, personalidade e, na prática, deixamos de ser nós mesmos.
Contudo,
ninguém recorda vidas passadas. Se não há vínculo de memória
entre quem age e quem sofre as consequências, na prática uma pessoa
comete o ato e outra recebe prêmio ou castigo. Assim, destrói-se a
justiça divina que se pretendia salvar: um crime é cometido por
alguém, e outro paga.
Somos
exortados a ser virtuosos e até austeros para colher o prêmio na
próxima encarnação. Porém, se eu jejuo agora, passo fome, e quem
será recompensado depois será outro, que nada lembrará de mim. Ao
contrário, poderia viver bem, mesmo infringindo normas, e deixar que
“outro” arque com as consequências. A doutrina que pretende
fortalecer a moral acaba por enfraquecê-la.
No
caso da menina cega, os pais podem ser consolados com a ideia de
karma de outras vidas. Mas questionariam: “Que culpa? Somos punidos
por algo que não lembramos?”. Castigar alguém sem memória do ato
carece de sentido ético e pedagógico; sem lembrança, não há
arrependimento nem correção. A dor permanece.
3.
ARGUMENTO ESCATOLÓGICO: A liberdade de escolha implica o risco de se
comportar mal, levando ao inferno. No cenário de uma única vida
seguida pela eternidade, esse destino se torna trágico e urgente. A
reencarnação surge para suavizar esse choque, oferecendo inúmeras
oportunidades para correções e para que o indivíduo alcance o céu
quando decidir se comportar bem.
Contudo,
e se o indivíduo teimar em descer e não se purificar? Ele é livre
para escolher esse caminho em uma ou em milhões de vidas. A
diferença reside apenas no tempo; mas se a liberdade é mantida,
ninguém poderá levá-lo ao céu à força, mesmo através de
múltiplas reencarnações. O dilema persiste:
1.
Ou somos livres e podemos terminar no inferno eterno (em uma ou
muitas vidas).
2.
Ou somos forçados (direta ou indiretamente) a nos comportar bem para
ir ao céu.
O
sofrimento do dilema é o mesmo nas duas hipóteses (com ou sem
reencarnação). Embora as reencarnações sejam muitas, elas têm um
fim. O que acontece se, ao final do longo prazo, o indivíduo
continuar a tomar uma decisão negativa?
Ou
ele é livre para persistir no erro, ou ele não é livre, e então
as diversas reencarnações funcionam como uma pressão semelhante à
predestinação de uma única existência.
Portanto,
além da diferença no tempo, as duas hipóteses – reencarnação e não reencarnação – são fundamentalmente iguais. A reencarnação
consegue apenas retardar a crise, mas não modifica o resultado nem
soluciona o dilema. É um mero adiamento.
4.
LEMBRANÇA DE VIDAS PASSADAS: Para aceitar a reencarnação, seria
mais fácil se ninguém se lembrasse de vidas passadas. A insistência
de alguns em afirmar que lembram é contraproducente e prejudica a
causa da teoria, pois sugere uma parcialidade da natureza: ou todos
lembram, ou ninguém. Annie Besant é a única autora consultada que
trata amplamente dessa séria objeção. Sua resposta distingue:
HOMEM-PENSADOR
(mente pura), que reencarna.
HOMEM-ANIMAL
(corpo-cérebro-paixões), que não reencarna.
Ela
argumenta que a memória está no cérebro, parte do Homem animal.
Como o corpo material e os neurônios se desintegram, os arquivos da
memória se perdem, e ela não é herdada de uma encarnação para
outra. Esta explicação, coerente com a neurologia moderna,
apresenta, contudo, duas dificuldades:
1.
Dificuldade I: Se a memória depende exclusivamente do Homem animal,
o Homem Pensador fica sem memória. Assim, não se sustenta a
afirmação de Besant de que o Homem Pensador acumula experiências e
se aprimora através das vidas.
2.
Dificuldade II: Segundo essa explicação, nunca ninguém deveria se
lembrar de vidas passadas, pois sem o corpo anterior, não há
memória anterior. O fato de a própria Besant afirmar não ser
possível a memória, mas também alegar ter lembranças, sugere uma
inconsistência.
As
memórias de vidas passadas não foram confirmadas com rigor
científico. Uma possível explicação para as reminiscências é
que a memória genética, ao incluir genes e, indiretamente,
histórias dos ancestrais, pode explicar a lembrança de fatos
passados.
5.
PREGUIÇA INTELECTUAL: Dattátreya Bálakrishna Kálelkar, braço
direito de Gandhi em questões de educação, aborda amplamente os
temas de reencarnação e karma em seu livro de 1954, “Nossa melhor
companheira: a morte”.
Kálelkar
propôs que, desde o início da independência da Índia, fosse
promulgada uma lei severa proibindo o ensino e a pregação da
reencarnação. Seu argumento principal era que a crença no karma
fomenta a preguiça intelectual. A lei do karma oferece uma
explicação universal e simplista para tudo: “Alguém se machucou?
Era seu karma.
Morreu? Era o seu karma...”. Para Kálelkar, isto
significa que, na prática, nada se explica. Em vez de trabalhar,
pesquisar e remediar, as pessoas dão de ombros e aceitam.
Kálelkar
afirma que os crentes não se dão ao trabalho de investigar as
causas dos fenômenos, mas em cada caso, simplesmente, recorrem à
reencarnação como resposta. Por exemplo, em vez de procurar um
psicólogo para um comportamento estranho, dizem que é uma
“encarnação anterior”.
Essa
resposta é definida como pura preguiça intelectual, negação do
espírito científico e estupidez, e não fé religiosa. Para
Kálelkar, o princípio da reencarnação tem agido como um
anestésico na sociedade, impedindo o progresso e as reformas. Quando
se tem indigestão, culpam o pecado de uma vida anterior; quando
reprovam em um teste, procuram um destino fatal, em vez de reconhecer
a falta de preparo.
A
fantasia da reencarnação favorece a crueldade, a injustiça e a
opressão social. Kálelkar compara a reencarnação à vara usada
por professores primários: assim como a vara garante disciplina sem
que o professor precise preparar melhores aulas, a reencarnação se
encarrega de explicar tudo, dispensando a investigação.
O
valor do testemunho de Kálelkar reside em sua advertência para que
o tema não seja aceito apressadamente.
6.
A IMPIEDADE DA REENCARNAÇÃO: A reencarnação, ao prometer a
solução de problemas em um futuro longínquo e impreciso (milhões
de renascimentos), é vista como uma tremenda maldade. Cada novo
renascimento traz sofrimento, doença e morte.
O
próprio Buda reconheceu essa dor: “Dor é renascer uma vez após
outra.” A maldade reside em sofrer e pagar por erros de encarnações
anteriores sem saber quais foram. Uma canção popular indiana
resume: “Quantos nascimentos já passaram, não posso contar... Mas
sei somente isto e o sei muito bem: / Que a dor e a tristeza amargam
todo o caminho.”
7.
DOUTRINA SEM SENTIDO ÉTICO E PEDAGÓGICO: O castigo aplicado a
alguém que não se lembra do que fez não tem sentido nem ético nem
pedagógico.
Sentido
Pedagógico: Quem não tem memória não pode ter a intenção de
emendar-se.
Sentido
Ético: Não há continuidade de responsabilidade quando a memória,
ligada ao cérebro e à personalidade, é anulada na reencarnação.
Já
Epicuro contestou a doutrina, afirmando que, se a alma não guarda
lembrança nem identidade pessoal consciente, as consequências
recaem “virtualmente sobre outro ser que não conhece a causa do
castigo e, portanto, não se torna nem melhor nem mais sábio.”
8.
CONSIDERAÇÕES FINAIS: A crença ou não na reencarnação é uma
escolha pessoal, e com argumentos tão fortes a favor e contra, cada
um deve sentir-se livre e responsável. É, contudo, intolerável a
ligeireza com que o assunto é tratado por muitos. A atitude dos
sábios deve ser o modelo:
Buda,
ao ser questionado sobre a existência de Deus, deu respostas
variadas (Não, Sim, Silêncio) conforme a mente do interlocutor
(ateu convicto, crente fervoroso, buscador), respeitando suas
convicções ou incentivando a busca.
O
mestre Zen, questionado sobre o que há após a morte, respondeu:
“Não sei… mas não sou um mestre Zen Morto.”
Minha
atitude é de respeito por quem afirma ou nega a reencarnação. O
que considero indigno e denuncio é a leviandade e a superficialidade
de quem adere a uma nova crença após ler um único livro,
pretendendo que ela explique todos os problemas (desigualdade,
injustiça, destino). Na realidade, o mistério continua, e
explicações fáceis não existem.
Baseado
no Livro UMA VIDA OU MUITAS? (Carlos G. Vallés)