Genes são as palavras que
escrevem as instruções para a construção dos organismos vivos.
Esses replicadores buscam apenas sua própria perpetuação, sendo
egoístas e indiferentes aos interesses humanos. Suas estratégias
engenhosas levam-nos, inclusive, a formar máquinas que garantam sua
sobrevivência: os seres vivos.
A
PERIGOSA IDEIA DE DARWIN: Até cerca de 150 anos atrás, era difícil
ser ateu convicto, pois a pergunta fundamental – como surgiram a
vida e organismos tão sofisticados? – permanecia sem resposta
científica. A complexidade do olho, do cérebro, ou da cauda do
pavão, por exemplo, sugeria a existência de um Projetista perfeito.
Foi Charles Darwin quem resolveu o problema, propondo um princípio
que explicava a complexidade organizada dos seres vivos sem a
necessidade de intervenção não natural. Após coletar vasta
informação, ele identificou um princípio unificador: a evolução,
dirigida pela seleção natural.
SELEÇÃO
NATURAL: A seleção natural é o mecanismo que atua priorizando
organismos mais aptos a sobreviver e se reproduzir. Isso produz seres
cada vez mais bem-adaptados ao meio, sendo “mais bem-adaptado”
apenas mais competente na arte de se reproduzir. Os não tão
bem-adaptados foram eliminados. A batalha pela existência exige
aptidão (fitness), a competência em crescer e se multiplicar.
A
ideia central de Darwin é: variações herdadas úteis à reprodução
se disseminam e transformam a espécie. Essa é a explicação para a
cauda do pavão, o olho humano, e todos os designs do mundo vivo. O
cérebro humano, por exemplo, é um produto da seleção natural, um
processo formal, automático, sem inteligência nem intenção, que
atua sobre o que o acaso oferece. O relojoeiro da natureza é cego.
DO
BIG BANG AO GENE: Nosso universo surgiu há cerca de 15 bilhões de
anos. O Big Bang gerou radiação e partículas elementares. A
energia se transformou em matéria (E=mc2). Com o resfriamento,
prótons e elétrons formaram os primeiros átomos de hidrogênio, a
substância da qual toda a matéria conhecida veio. Bilhões de anos
após, ocorreu o surgimento de supermoléculas com a notável
propriedade de se autor replicar. O embaralhamento do baralho cósmico
produziu uma estrutura capaz de processar informação e assumir a
dinâmica fundamental da vida. A permanência é a ambição suprema.
O
DNA, o replicador fundamental, surgiu por meio das leis da Física e
da Química na “sopa primordial”. É ele quem legisla em causa
própria, alterando seus textos para garantir a sobrevivência nas
gerações futuras. O DNA é a realidade do verbo que busca o
“Crescei e multiplicai-vos”.
A
HIPÓTESE DO GENE EGOÍSTA: O biólogo Richard Dawkins propõe a
hipótese do gene egoísta: a seleção natural atua sobre a molécula
do DNA, ou mais precisamente, sobre os genes. Assim, são os genes
que “desejam” sobreviver. Genes são segmentos do DNA, e a vida é
um processo de informação, onde o DNA escreve os textos para a
construção da vida. Neste ponto de vista, seres vivos são máquinas
de sobrevivência construídas pelos genes para facilitar sua própria
replicação.
A
dinâmica fundamental é que a evolução seleciona os genes mais
aptos a continuar existindo. Eles seguem adiante através de cópias
em seus corpos veículos, que morrem, mas os genes são
potencialmente imortais. Seu único objetivo é construir corpos que
se reproduzam. O altruísmo de formigas ou abelhas, por exemplo, é
explicado pelo egoísmo dos genes: as que morrem garantem a
replicação dos genes presentes em seus parentes.
MÁQUINAS
DE SOBREVIVÊNCIA: Desde o início, nos mares primitivos, a
competição se instalou entre os replicadores. Erros de cópia
(mutações) trouxeram a variedade essencial para o processo
evolutivo. Todos os seres vivos compartilham a mesma molécula
ancestral de DNA.
Replicadores
mais competentes desenvolveram truques para a sobrevivência. Dawkins
explica: os replicadores que sobreviveram foram os que construíram
máquinas, ou veículos, para sua própria proteção e existência.
A concorrência levou ao desenvolvimento de máquinas de
sobrevivência cada vez maiores e mais elaboradas.
Quatro
bilhões de anos depois, os replicadores ancestrais estão
aglomerados em colônias, protegidos dentro de robôs gigantescos e
desajeitados. Eles são os genes, e nós somos suas máquinas de
sobrevivência. Sua preservação é a razão última da nossa
existência.
A
CEGUEIRA DA SELEÇÃO NATURAL: As máquinas de sobrevivência foram
criadas pelo processo cego da seleção natural, sem projeto ou
projetista. Esse processo é totalmente indiferente à dor ou a
qualquer valor humano. Ele não tem propósito ou objetiva gerar a
espécie humana. A seleção natural permite apenas a sobrevivência
dos genes aptos a gerar veículos capazes de perpetuá-los.
O
olho é resultado da ação desse relojoeiro cego ao longo de um
tempo astronomicamente grande. Genes para olhos cada vez mais
especializados foram sendo escolhidos. Assim surgiram os complexos
mecanismos da nossa visão: um belíssimo design sem designer.
Enxergar confere uma tremenda vantagem competitiva. O físico Fred
Hoyle comparou aceitar Darwin a crer que um tufão montaria um Boeing
747 em um depósito de peças. Hoyle, contudo, estava errado.
A
seleção natural atua, de forma imediatista, sobre o que as leis da
Física e da Química oferecem. É o passar de vastos espaços de
tempo que permite o surgimento de estruturas como o olho. Ele é o
melhor dos olhos porque conferiu a maior vantagem na competição por
sobrevivência e reprodução em determinado momento. Nosso olho veio
de um “não-olho”, através de uma sucessão de olhos
progressivamente melhores. As mutações casuais eram selecionadas:
quem enxergava melhor localizava presas, fugia de predadores, vivia
mais e se reproduzia mais.
A
genialidade de Darwin foi descobrir que mesmo o que tem um design
sofisticadíssimo não tem designer. É o processo cego da seleção
natural que é responsável pela nossa existência, de nossos
cérebros e de nossas mentes.
SUCESSO
E FRACASSO NA LEI NATURAL: A seleção natural é um processo não
criativo, mas com resultado garantido: em cada momento, a melhor
variante possível para o projeto. As alternativas falhas morreram
sem deixar descendentes. Sucesso, segundo a natureza, é permanecer.
O
neurofisiologista William Calvin ilustra a natureza da seleção
natural com o exemplo das apostas em cavalos: ao enviar mil previsões
diferentes, um grupo de cem pessoas se convence de que o emissor tem
um conhecimento especial, devido à seleção a posteriori dos
acertos, ignorando-se os inúmeros erros. Assim é a seleção
natural: observamos os animais que sobreviveram, os órgãos que
funcionaram.
COMPETIÇÃO
E A ESTRATÉGIA DOS GENES: A dinâmica da evolução, inspirada em
Thomas Malthus, prevê que nem toda a prole sobrevive. O ambiente
natural seleciona os genes que melhor sobrevivem, o que explica o
termo “seleção natural”. Se
os genes programam os organismos para agirem em seus próprios
interesses, a natureza se torna um espetáculo de egoísmo, trapaça
e dissimulação, pois o único objetivo é a propagação dos genes.
Olhando de perto, percebemos mães abandonando crias fracas e
filhotes tentando enganar os pais, além de machos e fêmeas usando
blefes na relação reprodutiva.
Esse
processo é sempre mediado por uma análise de custo-benefício.
Espermatozoides são baratos, enquanto óvulos são caros e exigem um
investimento maior da fêmea. Por isso, fêmeas tendem a ser mais
cuidadosas na escolha de parceiros.
A
seleção natural provoca o surgimento de comportamentos de
equilíbrio, estratégias que levam a um compromisso entre os
interesses egoístas. O conflito sexual é inerente, devido à
diferença essencial: espermatozoides são abundantes e baratos;
óvulos são escassos e caros. Mães tentam investir por igual,
aprendendo a detectar a fraude e a puni-la, pois a seleção natural
“força” a convergência das estratégias de mães e crias para a
máxima propagação dos genes de ambos. Os comportamentos que
persistem são as estratégias evolucionariamente estáveis.
O
egoísmo inerente ao jogo de replicação, paradoxalmente, força a
colaboração. Na gravidez, o feto age como um sutil parasita para
sugar mais nutrientes, gerando uma corrida armamentista até se
atingir um equilíbrio: a colaboração por reciprocidade.
Outro
exemplo: o altruísmo de fêmeas de pássaros que chocam ovos
alheios. Uma fêmea trapaceira, que não choca os ovos e aproveita o
tempo para pôr mais, teria vantagem. A trapaça, no entanto, não é
evolucionariamente estável a longo prazo, pois a espécie sumiria. A
fêmea “honesta” ganha se aprender a identificar e chocar apenas
seus próprios ovos.
CUSTO/BENEFÍCIO
E A REBELIÃO HUMANA: A guerra do gene egoísta toma formas extremas,
como a cauda do pavão. Sua origem é o exibicionismo sexual: caudas
extravagantes atraem fêmeas, mas podem atrair predadores ou exigir
mais energia, podendo causar a morte do portador. O custo/benefício
é que deve ser considerado: se o macho copulou o suficiente para
garantir a passagem de seus genes, a morte da máquina de
sobrevivência é “aceitável”. A preservação do gene é a
utilidade nesse jogo.
A
seleção natural não premia a esperteza isolada, mas sim a
capacidade de preservar os genes. A monogamia, por exemplo, pode ter
surgido do conflito entre machos e fêmeas: fêmeas recusam a cópula
até que o macho prove que auxiliará no cuidado da prole.
Há
casos em que filhotes de pássaros quebram os ovos dos irmãos para
fora do ninho. Dawkins observa que a cria tentará usar toda arma
psicológica (mentira, chantagem) para obter mais que sua parcela
justa de alimento. O egoísmo desenfreado é sempre moderado pela
relação instintiva de custo/benefício, no interesse dos genes.
O
cérebro e o comportamento também são artefatos que a seleção
natural inventou. O sistema nervoso das espécies foi desenvolvido
sob influência dos genes, sendo, portanto, objeto de seleção.
Características fundamentais para o ser humano, como a linguagem e a
consciência, emergiram do cérebro, conferindo vantagens decisivas.
Embora
o princípio de operação das "máquinas de sobrevivência"
possa soar cínico, a espécie humana é a única que pode se
"rebelar contra a ditadura" do gene. A consciência humana,
obra do relojoeiro cego, nos confere originalidade, permitindo-nos
buscar um sentido e superar a "frieza" da seleção
natural. Estamos em um jogo existencial, no qual os melhores
jogadores continuam. Por ironia, o relojoeiro cego, assim como o Deus
bíblico, acabou produzindo um efeito que não estava no programa:
Nós.
Extraído
do Livro “O Glorioso Acidente” de Clemente de Nobrega
(Físico
e Master in Science em Engenharia Nuclear).