27 de outubro de 2025

O SENTIDO DA VIDA

Por que estamos aqui? Quem ou o que fez o mundo? De onde viemos e para onde vamos? Por que existe algo e não o nada? Desde sempre, a humanidade busca respostas para essas perguntas. Ciência, filosofia, arte e religião tentaram explicá-las — algumas iluminaram caminhos, outras apenas ampliaram o mistério.

Hoje sabemos que o Universo, finito, surgiu há cerca de 15 bilhões de anos, formado por energia e matéria distribuídas em bilhões de galáxias. Em uma delas, a Via Láctea, orbita o Sol — e, em torno dele, a Terra, lar de milhões de espécies. Entre todas, o ser humano é o único que tem consciência de sua própria finitude. Vivemos num planeta entre incontáveis mundos e talvez sejamos a única espécie que sabe que vai morrer — daí nossa angústia diante do efêmero.

Kierkegaard escreveu: “O homem formado pela angústia é formado pela possibilidade.” É essa consciência que nos impulsiona a buscar sentido. Durante séculos, a religião ofereceu respostas baseadas na fé. Hoje, ciência e filosofia nos propõem explicações mais sólidas.

Darwin revelou que somos produto de um longo processo de seleção natural — máquinas de sobrevivência moldadas pelo “relojoeiro cego”. Nosso propósito biológico é preservar a vida e transmiti-la, mas o mesmo cérebro que emergiu da evolução nos libertou parcialmente de nossos genes egoístas: somos capazes de criar, escolher, sonhar e transformar o mundo.

Ainda assim, projetamos sentido em tudo, como se houvesse um criador para cada coisa. Talvez essa seja uma ilusão herdada de uma mente feita para buscar significados, mesmo onde eles não existem. E se a pergunta “qual é o sentido da vida?” não tiver resposta? Talvez o verdadeiro desafio seja aceitar o vazio e, a partir dele, criar o próprio significado.

Afinal, nossas mentes não foram moldadas para compreender o sentido da existência, mas para garantir a sobrevivência dos genes. Se filosofamos, é “por nossa conta e risco”. Por isso tantas explicações — religiosas, poéticas, morais, biológicas — e todas inevitavelmente subjetivas. Ao tentar explicar a vida, quase sempre descrevemos o que sentimos, não o que vemos. Criamos mundos idealizados e chamamos de “realidade verdadeira” aquilo que projetamos, relegando a matéria a mera aparência.

Mas não precisamos recorrer ao absurdo ou a uma divindade para justificar nossa presença. Não há necessidade de falsificar a realidade para alimentar a vaidade antropocêntrica. Saber que não significamos nada especial pode ser libertador. Essa honestidade nos torna independentes para compreender a vida como ela é: finita, passageira, sem privilégios cósmicos. Como diz o Gênesis, “Tu és pó, e ao pó voltarás.”

A ciência propõe uma resposta simples: o sentido biológico da vida é reproduzir-se. A imortalidade pertence aos genes, não à alma. No entanto, a vida humana ultrapassa a biologia. Não pode haver sentido senão aquele que criamos. O que faz a vida valer é acreditar que o que fazemos tem importância. Somos criaturas que buscam sentido num universo indiferente, e precisamos idealizar um projeto que sustente nossa existência — seja o amor, a arte, a solidariedade ou a busca do conhecimento.

Alguns encontram sentido na fé, outros na criação, na amizade, na superação ou na entrega a uma causa. Viver plenamente é reconhecer que somos frágeis e transitórios, e que o valor da vida está em construir o presente com consciência e amor. O homem é projeto, escolha, possibilidade — e só ele confere sentido às coisas, pois as coisas, por si, não o têm.

Talvez o sentido da vida não esteja em descobri-lo, mas em criá-lo — em amar, compreender e existir com plenitude. Como aconselha Monty Python, com fina ironia: “Procure amar uns aos outros, viva em paz com todos, leia um livro, faça exercícios e não coma muita gordura.”

JC COUTINHO

INCONSCIENTE COLETIVO

O inconsciente coletivo, conceito criado por Carl Gustav Jung, designa uma camada profunda da mente humana comum a toda a espécie. Diferente do inconsciente pessoal — formado por experiências e memórias individuais —, ele contém arquétipos, imagens e símbolos universais herdados da experiência ancestral da humanidade.

Esses arquétipos se expressam em mitos, sonhos, religiões e obras de arte, representando temas essenciais da existência: o herói, a mãe, o velho sábio, a sombra, entre outros. O inconsciente coletivo constitui, assim, o patrimônio psíquico da humanidade, base simbólica que molda nossa percepção, emoção e interpretação do mundo.

Enquanto o inconsciente pessoal reúne conteúdos que um dia foram conscientes — lembranças, afetos e experiências relegados ao esquecimento ou à repressão —, os do inconsciente coletivo jamais o foram na vida individual. Ele funciona como um reservatório de imagens primordiais herdadas de nossos antepassados.

Medos universais, como o das serpentes, do fogo ou da escuridão, não precisam ser aprendidos: estão gravados em nós como resquícios de antigas experiências da espécie. Esses impulsos atávicos foram, durante incontáveis gerações, mecanismos de sobrevivência — reações automáticas que aumentavam as chances de perpetuação da vida. Assim, cada indivíduo nasce já predisposto por esse patrimônio psíquico coletivo, que orienta não apenas o comportamento, mas também a imaginação, os sonhos, os mitos e a criação simbólica das culturas.

O mesmo ocorre com os animais, que reconhecem seus predadores ou sabem instintivamente cuidar de suas crias, fruto dessa memória arcaica inscrita na própria natureza. Em todos os seres vivos, há um saber que antecede a consciência: uma inteligência silenciosa que orienta gestos, escolhas e temores, como se a vida, em seu percurso milenar, tivesse aprendido a lembrar sem precisar pensar.

Quando emergem respostas que não se explicam por experiências pessoais, não é necessário recorrer a ideias de “vidas passadas”. Podem ser manifestações de arquétipos transmitidos por herança genética — embora essa hipótese permaneça no campo das suposições.

Jung mostrou que as experiências da humanidade inteira estão presentes em nós e podem vir à tona em estados alterados de consciência, revelando imagens e comportamentos que remetem a épocas tribais ou arcaicas.

Em nosso interior habitam múltiplas facetas ou personagens. Quando há desequilíbrio entre esses “eus”, surgem conflitos psíquicos. Em certos estados mentais, a parte problemática manifesta-se como outra pessoa, reforçando a ideia de multiplicidade interna — expressão das experiências universais do inconsciente coletivo.

Apesar das mudanças culturais, os sentimentos humanos fundamentais permanecem os mesmos, reconhecíveis em qualquer povo ou época. Guerras, rituais de iniciação e traumas coletivos deixam marcas profundas. A Segunda Guerra Mundial, por exemplo, gravou no inconsciente coletivo, temores como o de explosões ou confinamentos.

Esses traços sobrevivem como fragmentos da memória da espécie, e cada um de nós carrega, em alguma medida, uma porção dessa história a ser elaborada na vida atual.

JC COUTINHO

21 de outubro de 2025

A LÓGICA DO PUPPETEER

A lógica do puppeteer explora como as noções de moralidade e valor pessoal podem ser vistas como comportamentos que transmitem nossos genes, citando a ideia do “gene egoísta” de Richard Dawkins. A aplicação da teoria de Darwin à política no século XIX (Darwinismo Social) foi controversa, e a publicação de “Sociobiologia: A Nova Síntese” (1975), de E. O. Wilson, que estendeu o paradigma darwiniano, foi vista com desconfiança, inclusive como endosso ao fascismo.

Apesar das cautelas iniciais, o pensamento darwiniano, especialmente o Neodarwinismo, tem sido cada vez mais aplicado a diversas disciplinas (sociologia, psicologia, antropologia), impulsionado pela simplicidade e evidência da seleção natural.

O livro “O Animal Moral” de Robert Wright, foca na “Psicologia Evolucionária” e como as teorias neodarwinianas se manifestam no comportamento humano, como no namoro, amor e sociedade. Wright argumenta que nossa generosidade e afeto têm um propósito subjacente limitado, servindo para beneficiar a transmissão dos nossos genes (família, parceiros) ou obter favores recíprocos. Ele sugere que afeto pode ser uma “ferramenta de hostilidade” para aprofundar divisões.

A Psicologia Evolucionária, segundo Wright, embaralha as tradicionais noções políticas de Esquerda e Direita, mostrando que os comportamentos, até os liberais, podem ter vantagens genéticas. O livro usa a biografia de Darwin para humanizar essas noções cínicas. Estudos comportamentais, como o de David Buss sobre ciúme (homens se perturbam mais com infidelidade sexual, mulheres com infidelidade emocional) e o aumento de adornos em mulheres perto da ovulação, ilustram os argumentos.

A perspectiva neodarwiniana reorganiza conceitos de psicologia e filosofia. Por exemplo, o conflito entre pais e filhos, em vez de sexual (Complexo de Édipo de Freud), é visto como um conflito de interesse genético. O id seria as inclinações da seleção natural. A desarticulação entre o ambiente em que nosso cérebro evoluiu (pequenas sociedades caçadoras coletoras) e a vida moderna é apontada como causa de sofrimento.

A lógica evolutiva sugere que a auto ilusão pode ter vantagens genéticas, levando-nos a acreditar na possibilidade de felicidade. Wright prescreve uma ética utilitária como o caminho mais lógico para se afastar do cinismo total, reconhecendo que somos “um grupo de organismos aceitavelmente considerado” dada a crueldade da lógica evolutiva.

Conclui que a comunicação é uma forma econômica de um organismo afetar o comportamento de outro. Entender a natureza do controle genético é o primeiro passo para “decifrar a lógica do puppeteer (fantoche)” e buscar a liberação.

O ensaio base original está disponível em:
www.thing.net/~lilyvac/wright.html.

TRANSCENDENTALIDADE DO SER

Será que temos direito a uma alma ou a eternidade que muitos homens afirmam possuir ao deixarem o corpo físico? Sempre que ouço um crédulo dizendo que sua existência não pode simplesmente apagar-se como um eletrodoméstico queimado, me pergunto o porquê de tal pensamento. Ao serem interrogados, tais indivíduos dizem apenas que “todos nós fomos criados a imagem e semelhança de um deus todo poderoso e tais criaturas superiores não poderiam simplesmente desaparecer”. As palavras podem não ser exatamente essas mas eles dizem sempre algo com o mesmo significado.

Se alguém me perguntar o que acho disso, digo que é fantasia. Não passa de história da carochinha!! Estas ideias de vida eterna, reencarnação ou qualquer coisa ligada a transcendência resultam, na minha opinião, do inconformismo e da pretensão humana. Digo inconformismo porque o pobre crédulo não pode aceitar a ideia de que uma vez morto, tudo acaba e ele não vai migrar para outro plano ou jamais terá uma chance de voltar para este na forma humana ou de qualquer outro ser vivo.

Desse modo os crédulos são levados a acreditar em algo místico ou sobrenatural para que isto sirva de combustível para sua existência. Seria muito mais produtivo para estas pessoas se elas se conscientizassem de que só as ideias ficam e que gerar conhecimento é a única forma de contribuir para as gerações subsequentes. Isto sim seria uma forma de transcendentalidade – deixar nossas ideias para que possam servir para alguém no futuro.

Quando falo em pretensão quero dizer que o ser humano se acha tão superior em relação aos outros seres vivos que seu fim soa como algo absurdo, um despautério. Esta é apenas mais uma condição de alto afirmação do Homo sapiens que se estabeleceu e dominou maior parte da Terra. Um ser destes não pode simplesmente sumir!!! É um absurdo! Se todos os seres vivos foram criados por um deus todo poderoso, por que somente os homens teriam direito a céu ou inferno? Será que as formiguinhas em suas galerias e câmaras subterrâneas também oram com medo do inferno como fazem os homens?

Será que as planárias acreditam em deus ou têm alma?? Estes pobres seres inferiores não tem alma porque não conhecem a “glória do senhor” e por isso vão cair no esquecimento. Só porque seus sistemas nervosos são reduzidos a redes de gânglios extremamente primitivos e eles não conseguem pensar ou possuir comportamentos mais complexos como os homens, sendo assim, as planárias e seus companheiros inferiores estão condenados ao nada.

Se alguém me disser que mesmo as formas de vida ditas inferiores têm direito a um paraíso, ficarei extremamente triste por não ser uma planária. Elas não precisam orar, pagar penitência, comungar, dar passes ou fazer qualquer forma de ritual de adoração a um suposto ser criador e mesmo assim todas elas vão migrar para outro plano. Eu quero ser uma planária! Mas e um golfinho que comprovadamente possui uma inteligência fora do comum? 

Será que esse tem alma, alguma coisa que transcende a morte? E assim não deveria ser também com os primatas? Será que os cães também vivem com a constante incerteza daquilo que existe após a morte e vivem rezando com medo do que os espera? Talvez o problema esteja justamente no fato de o homem pensar em demasia e um espertalhão num passado distante teve a brilhante ideia de obter maior controle sobre seus companheiros de tribo com a crença em alguma espécie de castigo após a morte. E assim começou toda a desgraça.

Imaginem a situação de caos na qual estaria o além (ou sei lá do que os crédulos chamam o local para onde vão suas almas) se todas as pessoas ou “seres superiores” que já nasceram e morreram desde a existência do mundo até hoje tivessem ido para esses “abrigos de espíritos”. Com certeza estaria um inferno (risos) porque estariam sempre chegando mais e mais almas e assim sucessivamente até gerar um colapso total ou um congestionamento no além. Mas alguns podem dizer que existe um equilíbrio entre a quantidade de almas que sai e vai para o “outro plano”. Se isto fosse verdade, como se daria o aumento populacional? Como surgiriam novas almas?

Na minha opinião esta ideia é inconcebível e a meu ver a consciência humana desaparece no momento da morte. O que os crédulos chamam de alma eu chamo de consciência e esta é produzida por impulsos elétricos gerados em nossos neurônios. Quando o organismo morre, não há mais neurônios para produzir tais impulsos e toda fonte de emoção ou razão desaparece. Não estou querendo dizer que devemos cruzar os braços e esperar pelo fim inevitável, pelo contrário, defendo a ideia de que devemos produzir conhecimento que é a única coisa que ficará viva, não conosco mas com aqueles que nos sucedem. Então esta seria a única forma de transcendência que consigo vislumbrar na minha parca visão de mundo.

Talvez a ideia do apego ao sobrenatural seja realmente esta: servir de razão para a existência daqueles egoístas que só pensam em si próprios e não admitem a fragilidade humana. E é contra ideias retrógradas como estas que devemos lutar para promover o progresso da humanidade que ainda vive atrelada ao dogmatismo que se contradizem a todo momento e servem apenas para manobrar as massas pela velha política do medo e desestímulo ao questionamento. Por que não admitir a ideia de que somos efêmeros e tentar fazer algo de produtivo enquanto ainda estamos vivos?

Por Fabiano Gumier Costa
http://incredulos.tripod.com/page_13.htm

EXPRESSÕES BRASILEIRAS

"CAIU NA REDE É PEIXE": Quando algo dá certo ou se concretiza.
EM RIO QUE TEM PIRANHA, JACARÉ NADA DE COSTAS”: Para avisar que, em um ambiente perigoso, é preciso ter cuidado redobrado com tudo e todos.
DE GRÃO EM GRÃO, A GALINHA ENCHE O PAPO”: Significa que aos poucos, com persistência e constância, é possível alcançar um objetivo.
“NÃO ADIANTA CHORAR SOBRE O LEITE DERRAMADO”: Indica que não há o que fazer após um erro ou imprevisto; o melhor é seguir em frente.
POR FORA, BELA VIOLA. POR DENTRO, PÃO BOLORENTO”: usado para descrever alguém ou algo que parece bonito por fora, mas na verdade não é.
CHUTAR O BALDE”: Significa desistir de algo ou perder a paciência completamente.
PAGAR O PATO”: Indica ser o prejudicado ou o culpado em uma situação em que você não teve culpa.
FICAR A VER NAVIOS”: Significa esperar por algo que não aconteceu ou que nunca vai acontecer.
FAZER UMA VAQUINHA”: Refere-se ao ato de juntar dinheiro com outras pessoas para comprar algo em conjunto.
LAVAR A ÉGUA”: Significa dar uma grande oportunidade, aproveitar ao máximo uma situação, ou se dar bem.
FIQUEI TRANCADO PARA O LADO DE FORA”: Indica que a pessoa foi impedida de entrar ou foi expulsa de algum lugar.
VOU ESPERAR O SOL ESFRIAR”: Significa que a pessoa vai esperar que as coisas se acalmem ou que uma situação inconveniente termine.
NÃO VI NEM O CHEIRO”: Usada quando alguém não percebeu ou não viu algo, como se não houvesse nem um rastro para ser sentido.
A LUZ DORMIU ACESA”: Usada para dizer que se esqueceu a luz acesa.
O CASTIGO VEIO A CAVALO”: Ditado que significa que as consequências por um erro chegaram de forma rápida e inevitável.
ESCUTA SÓ PRA VER”: Uma forma de pedir a atenção de alguém, para que escute atentamente.
NEM AQUI NEM NA CHINA”: Usada para enfatizar a provável inexistência de algo que está sendo procurado.
NEM QUE A VACA TUSSA”: Significa que algo não vai acontecer de jeito nenhum.
A SITUAÇÃO AGORA FOI PARA O BREJO”: Expressão usada quando uma situação se tornou crítica ou está perdida.
NÃO CONHEÇO, MAS SEI QUEM É”: Refere-se ao conhecimento da reputação ou história de alguém, mesmo sem ter tido contato direto.
ACABOU DE COMEÇAR”: É usada para indicar que o evento ainda não começou, ou que está prestes a começar.
TÔ DURO”: Significa que não tem dinheiro.
VOU DAR UMA CHEGADINHA”: Usado para ir a algum lugar por um curto período de tempo.
QUE FRIO DOS INFERNOS”: Uma expressão para descrever um frio extremo.
ESSA RUA VAI PARA ONDE?”: Significa que a pessoa não faz ideia do destino da rua, e talvez nem saiba o trajeto em geral.
NÃO VI NEM O CHEIRO”: Significa que algo acabou completamente, sem deixar vestígios.
TEM, MAS ACABOU”: Uma forma de dizer que algo não está mais disponível, mesmo que um dia tenha existido.
AGORA, SÓ AMANHÔ: Indica que não há mais tempo ou que algo não será feito no momento presente.
A COBRA VAI FUMAR”: Originou-se durante a Segunda Guerra Mundial, quando se dizia que seria mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil entrar na guerra.
CAIR A FICHA”: Significa entender algo. A expressão vem da época dos “orelhões” (telefones públicos que funcionavam com fichas).
ESQUECI DE LEMBRAR”: Esqueceu de algo que deveria ter lembrado. Uma falha de memória.
NEM TE CONTO”: É uma forma de introduzir uma história ou fofoca, despertando o interesse do interlocutor.
SIM, POIS NÃO”: Pois não é uma forma de concordar ou se mostrar disponível para ajudar.

A MÚSICA DE MINHA VIDA

Ouvir concentradamente a Partita II de Bach (BWV1004),coroada pelo monumental quinto movimento (Ciaccona),constitui, a experiência religiosa por excelência: o restabelecimento do vínculo sagrado com a totalidade do universo e o retorno a uma síntese primeira, anterior à cisão da autoconsciência e à dor de formas repartidas.

O que pode qualquer metafísica ou religião instituída, calcada no miasma de uma doutrina, diante da verdade infinita – a espiritualidade em estado puro – que emana da música de Bach? A dádiva, muitas vezes, reside apenas em lembrai que esse espaço-tempo do sagrado existe, ou seja, que ele está lá, ao nosso alcance, como um elixir que nos permite escapar do circuito profano das miudezas do mundo – a cidade em que vozes e buzinas se confundem – para ingressar por inteiro no universo paralelo da espiritualidade atemporal de Bach.

A vida oprime, o som liberta. Como é possível que um único instrumento apenas – possa deflagrar uma arquitetura polifônica de tamanha beleza e complexidade? Que misterioso dom de transporte esse, capaz de nos conduzir a um mundo psicoacústico de formas puras e perfeitas – um mundo sem máculas e arestas e diante do qual aquele em que nos é dado existir não passa de arremedo e exílio?

A música permite um grau de absorção e imersão a quem a ela se entrega que nenhuma outra arte é capaz de proporcionar. Nela apenas se pode abstrair de tudo o que existe e mergulhar no universo paralelo da completa transcendência.

A alma embalada pelo som quando sonha, desligada do corpo e dos demais sentidos, refaz o mundo a seu modo – é criadora e criação de si mesma. Para onde vai o tempo enquanto estamos mergulhados, em estado de absorta concentração, na música das esferas de Bach?

Os pouco mais de 25 minutos da Partita II bastam para escancarar o que há de errado com a ideia de se medir e domesticar o tempo, submetendo-o à contagem uniforme e mecânica dos relógios – o intervalo finito demarcado por suas notas de abertura e encerramento contém em si a eternidade.

EDUARDO GIANNETTI é sociólogo e economista formado pela USP e PhD, em economia pela Universidade de Cambridge. Revista Diapason – nr. 1/ 2006

https://www.youtube.com/watch?v=lWvlv3W8jo

https://www.youtube.com/watch?v=ai8NiHI1-eo

https://www.youtube.com/watch?v=ixGv5CQky8s

https://www.youtube.com/watch?v=JNEnzNHTkd8

16 de outubro de 2025

REFLEXÕES CONTEMPORÂNEAS

Meus amigos, a perspectiva sociológica da reflexão sobre deus é auspiciosa e interessantíssima. Mas essa aula tem que chegar ao seu fim. Eu gostaria de trazer aqui duas reflexões estritamente contemporâneas. Em outras palavras, do século 21, para que não tenhamos ideia de que a reflexão sobre deus é uma coisa de gente velha.

A primeira, pós-moderna, é do sociólogo Michel Maffesoli, que discute a tolerância da sociedade pós-moderna com os desejos individuais. Ele contrasta essa era com a modernidade, onde identidades rígidas e a busca pelo “risco zero” oprimiam o indivíduo, reprimindo seus apetites e desejos.

Maffesoli argumenta que essa rigidez da modernidade foi responsável por grandes catástrofes, como o nazismo. A sociedade pós-moderna, por outro lado, permite subversões periódicas, como o carnaval, que funcionam como uma válvula de escape para o que foi reprimido. Ele descreve o Brasil como um exemplo de sociedade pós-moderna e equilibrada, que aceita a "parte do diabo" - a necessidade humana de transgredir ocasionalmente. Para Maffesoli, no lugar de um deus com valores absolutos, surgem sociedades que garantem essa parte do diabo, autorizando a subversão.

A segunda perspectiva é de Gilles Lipovetsky, outro pensador pós-moderno. Ele também contrasta o homem moderno, “engessado”, com o pós-moderno, que pode construir sua vida "à la carte", alternando entre atividades e crenças. Lipovetsky vê o pertencimento religioso como uma questão individual e privada, não mais pública. A religião e a noção de deus, portanto, fragmentam-se em função das necessidades metafísicas de cada um, tornando-se uma questão de consciência privada, e não de cultos institucionais.

A reflexão final aponta para o livro “O Espírito do Ateísmo”, do filósofo André Comte-Sponville, meu professor. A ideia central da obra é a distinção entre o espírito e a fé, que tem grandes consequências em nossa vida. Sponville explica essa proposta com duas histórias.

Primeiro, ele relata a reação de um padre após uma palestra em que professou seu ateísmo. Para sua surpresa, o padre o aplaudiu e concordou com tudo o que ele havia dito, argumentando que a crença em Deus, no fim das contas, tinha pouca importância. A segunda história é sobre dois judeus que, após concluírem que Deus não existia, foram surpreendidos no dia seguinte. Um deles viu o outro fazendo suas rezas matinais e perguntou o porquê. O outro respondeu: “E que é que Deus tem a ver com isso?”.

Essas duas histórias ilustram a proposta de Sponville, com a qual eu concordo: acreditar ou não em Deus é complexo, mas todos compartilhamos valores essenciais. Pertencemos a uma comunidade e temos uma intuição do que é certo e errado. Educamos nossos filhos para não roubar, matar ou violar, e esses valores, enraizados na civilização judaico-cristã, não exigem a crença em um ser transcendente. É possível ser admirador dos ensinamentos de Cristo e ser ateu, ou ser fiel aos valores judaico-cristãos sem acreditar na existência de um Deus criador.

A filosofia não voltará a buscar provas da existência de Deus, como faziam pensadores como Anselmo, Descartes ou São Tomás de Aquino. No entanto, ela continuará a falar de valores, mostrando que são aprendidos, historicamente construídos e que, mesmo sem valores absolutos, precisamos de critérios para viver. Essa fidelidade à nossa comunidade e cultura é o que nos guia.

A história da ideia de Deus continuará, pois o homem continuará a falar sobre isso. Seja Deus transcendente, imanente ou o próprio homem, a questão da sua existência ou da sua intervenção no mundo é algo que sempre nos ocupará. Deus importa muito, pois ele continuará a ser uma enorme fonte de critérios para que o homem possa viver. Dostoiévski resumiu essa ideia: “Já que Deus não existe, tudo é permitido. E já que tudo é permitido, a vida não tem sentido. E já que a vida não tem sentido, torna-se impossível viver.”

Transcrição de textos e vídeos do professor Clóvis de Barros Filho, filósofo e docente de Ética na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA/USP).

O SAGRADO E O PROFANO

Muito bem. A terceira perspectiva sobre o deus criado pelo homem vem de Émile Durkheim, um dos pais da sociologia. Para ele, a religião é um fato social que deve ser estudado cientificamente. Em sua obra "As Formas Elementares da Vida Religiosa", Durkheim explica que a religião é um trabalho social de classificação do mundo em sagrado e profano. Deus é uma das várias coisas que uma sociedade considera sagrada.

Segundo Durkheim, o sagrado é aquilo que a sociedade define como sagrado. A definição de sagrado e profano é mútua, como norte e sul: um só existe em relação ao outro. Essa classificação é uma necessidade social para a organização da sociedade, não apenas uma necessidade psicológica individual. A religião, assim, funciona como um elemento que legitima a estrutura social e a organização. A presença de divindades e governantes na história ilustra essa ligação. O culto religioso, por sua vez, é uma forma de reprodução de uma crença coletiva no sagrado.

Pierre Bourdieu, um discípulo de Durkheim, complementa essa visão. Ele concorda que o sagrado e o profano são construções sociais, mas argumenta que nem todos participam dessa definição com a mesma eficácia. A definição do sagrado é obra de especialistas, que muitas vezes lutam entre si para estabelecer a sua legitimidade.

Bourdieu propõe o conceito de “campo religioso”. Um campo social é um espaço de posições e relações, onde agentes competem por troféus e capital específicos daquele campo. No campo religioso, os agentes legitimados lutam pelo monopólio da definição do sagrado, buscando prestígio e glória. Essa disputa, no entanto, é frequentemente apresentada como respeito às divindades, escondendo as lutas internas. Assim, o sagrado é o que os agentes socialmente autorizados definem como tal.

A sociologia das religiões, graças a esses autores, floresceu no século XX, mostrando que a definição de deus é um processo social, no qual diferentes agentes, como a Folha Universal mencionada no texto, lutam para impor sua visão do divino.

Transcrição de textos e vídeos do professor Clóvis de Barros Filho, filósofo e docente de Ética na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA/USP).

O DEUS DE SPINOZA

Ora meus amigos, até aqui, perceba, que essas demonstrações da existência de deus sempre fazem alusão a um deus transcendente e criador. Uma segunda perspectiva de deus, ainda transcendente ao homem, é o deus de Espinosa.

O deus de Espinosa é o todo, o deus de Espinosa é tudo o que é. Desta maneira, deus de Espinosa não está no meio de nós, o deus de Espinosa é nós. O deus de Espinosa são todos os entes em relação. O deus de Espinosa é mundo. Você dirá é parecido com os estoicos, parecido, mas só parecido, por quê? Por que para os estoicos o divino é a relação do corpo com a sua finalidade e a maravilha do corpo frente a sua finalidade. Para Espinosa a finalidade é uma ilusão. Ele já sabia que o todo universal não é cósmico, e, portanto, o deus de Espinosa é o real como ele é, caótico, torto, injusto, asqueroso, feio e medonho. O deus de Espinosa é o mundo nas suas relações.

Você poderia perguntar me perguntar: por que chamar de deus o que não é deus como nós conhecemos? E Espinosa responde: porque o meu deus tem as mesmas características, mesmos atributos do seu deus. Como assim? O deus cristão não é onipotente? O meu também é, ele é toda a potência. O deus cristão não é onisciente? O meu também é, ele é toda a ciência. O deus cristão não é onipresente? O meu também é, ele é tudo o que é. O deus cristão não é eterno? O meu também é.

Você olharia para mim e perguntaria, mas como o real é eterno? É, e aqui vem, o fabuloso, o real não morre, o mundo não morre, o universo não morre, deus não morre, o todo não morre, quem morre são as partes que o constituem. Porque morremos de nos encontrar, morremos de nos relacionar, morremos porque nos afetamos uns aos outros, morremos de tristeza, morremos de perder potência, morremos porque nos relacionamos entre nós, mas o todo, porque é todo, não se relaciona com nada, portanto, não morre, não se entristece. Nós morremos em nome de deus diz Espinosa, jamais o contrário.

É mais ou menos como no seu corpo, as células vão morrendo e você continua vivo. Só que você além de ser constituído por partes, é parte do todo, por isso morre também, você que célula de deus, deus que é o todo. Perceba a diferença: para o cristão deus está no meio de nós, para Espinosa é nós. É totalmente diferente, para os cristãos deus é criador e nós criaturas, para Espinosa deus é criador e criatura ao mesmo tempo.

Dou-vos um exemplo definitivo. Estudando lá com os jesuítas, fui a uma confissão e o padre me perguntou: e ai, como vai a masturbação. Eu me surpreendi com a pergunta e respondi: vai bem. O padre disse: cuidado mocinho porque deus vê tudo, ele está em todas as partes. Aquilo produziu sobre mim um efeito devastador. Aquelas idas rápidas ao banheiro do colégio foram acompanhadas de deus. O padre Dutra tinha garantido que deus vê tudo, com olhos que atravessam tudo.

Portanto perceba que na perspectiva cristã, quando eu ia para o banheiro do colégio com a revista, entravamos eu, a revista e deus. O deus de Espinosa entra também, só que em mim. O deus de Espinosa é o ato, o deus de Espinosa é o movimento onanista, o deus de Espinosa é o orgasmo, o deus de Espinosa é a depressão pós orgásmica. O deus de Espinosa é o que é.

E daí, e daí que o deus de Espinosa sendo o que é, ele não julga, porque ele não é terceiro em relação à conduta, ele é o agente. O deus de Espinosa sendo o que é, ele não condena, ele é o que é, o estupro do recém nascido. O deus de Espinosa é o que é, o real como ele é. O real sendo o que é, ele não carrega com ele nenhuma ideia de justiça, porque a perspectiva uma justiça equilibrada, equidistante e compensatória, é só um delírio humano.

Transcrição de textos e vídeos do professor Clóvis de Barros Filho, filósofo e docente de Ética na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA/USP).

ESPIRITUALIDADE

A espiritualidade é o exercício que nos leva a ir além do estritamente experimentado no mundo para o absoluto. É uma costura entre duas dimensões que nos é completamente necessária. Nenhum humano se contenta em viver no estrito particular, porque, senão, teria se convertido num animal. É por isso que a espiritualidade com ou sem Deus sempre fez parte da minha vida.

A vida é uma sequência de encontros inéditos, por isso não se deixa ser traduzida por fórmula de nenhuma espécie. Tudo o que eu percebo no mundo, percebo em mim. Isto nada mais é do que o meu corpo afetado pelo mundo. O que há de mais essencial em nós é nossa energia vital, tanto é assim que, quando ela acaba, é porque a vida acabou também. Tal como uma estrela, que brilha enquanto tem energia. Você também é assim, uma estrela. Não vira estrela depois que morre, é estrela agora, em vida.

Filósofo é alguém que passa todo o seu tempo refletindo sobre questões do seu mundo e sobre questões concretas da vida, procurando para além das certezas compartilhadas por todos, buscar reflexões que possam problematizar essas certezas e com isso alcançar certezas mais contributivas para nossa convivência e para a vida de cada um de nós.

Transcrição de textos e vídeos do professor Clóvis de Barros Filho, filósofo e docente de Ética na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA/USP).

ETERNO RETORNO DE NIETZSCHE

O eterno retorno é um teste ético. Pode ser tanto uma bênção, para quem ama a vida, quanto uma maldição para quem espera uma recompensa em um pós-vida. Ao deixar de lado religiões e metafísicas, essa filosofia coloca o indivíduo no centro, tornando-o criador de seus próprios valores. A doutrina do eterno retorno é um processo seletivo: uma análise dos momentos da vida que valem a pena ser vividos. Não se trata de uma teorização de fatos naturais, mas de uma proposta de sabedoria para uma vida boa. Nietzsche defende que essa seleção não deve ser feita com base em valores que transcendem a vida, como os de religiões ou outras filosofias que se aplicam a todos.

A pergunta central é: “Você agiria da mesma forma se tivesse que viver este instante infinitas vezes?” Essa questão se torna o eixo de gravidade de sua vida. Viver de tal maneira que você deseje reviver cada momento é o dever. O eterno retorno não tem inferno ou ameaças. Aqueles que não acreditam simplesmente terão uma vida fugaz, sem intensidade.

O eterno retorno não significa viver a mesma coisa para sempre, mas sim desejar que um instante não acabe nunca. Se o seu desejo mudar amanhã, o que importa é o que você sente naquele momento. Para Nietzsche, um compromisso para "sempre" o prenderia a um fardo institucional, afastando-o do seu próprio desejo. A doutrina não tem pretensão de universalidade ao mencionar os opostos de esforço e repouso.

O que os une é a alegria, que Spinoza define como o amor. Para aplicar o eterno retorno, é preciso não apenas sentir, mas ter consciência do que se sente, para assim discernir a vida que vale a pena da que não vale. Essa filosofia se opõe ao utilitarismo, que busca a felicidade da maioria, e ao pragmatismo, que coloca a razão de agir em um resultado futuro. Para Nietzsche, quatro anos de vida em uma faculdade não podem ser avaliados pelo quinto, pois isso é avaliar a vida fora da vida. Cada segundo deve valer por si mesmo.

O eterno retorno é um sintoma do seu corpo, não uma verdade universal. Ele diz respeito a um presente que não vira passado, que permanece. A fugacidade de uma vida sem o eterno retorno significa entregar-se ao niilismo. Ouse tudo! Não tente adequar sua vida a modelos nem seja um modelo para ninguém. Viva o que você é, não por princípios, mas pelo fogo da vida que queima dentro de você.

Transcrição de textos e vídeos do professor Clóvis de Barros Filho, filósofo e docente de Ética na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA/USP).

OS INIMIGOS DA VIDA

Duas coisas atrapalham a vida: o divertimento e o tédio.

1. O divertimento. O divertimento seria o seguinte: Você deseja o que você não tem e de repente você consegue o que você tem ai você não deseja mais e ai você passa a desejar outra coisa. O divertimento seria trifásico: querer o que não se tem, conseguir o que se desejava antes e buscar outra coisa que agora se deseja. O divertimento é marcado por um pêndulo. Ou você deseja e não tem ou você tem e não deseja mais e depois volta a desejar o que não tem. Seria como beber água. É a lógica da saciedade impossível.

2. O tédio. E ele seria caracterizado por uma rede de utilidade. O útil sempre foi entendido como uma coisa boa e a inútil como uma coisa ruim. No entanto perceba, que quando uma coisa é útil o seu valor esta fora dela. Assim o veículo é bom porque permite o deslocamento para um lugar onde você não está. O valor do primeiro está no ginásio, o valor do ginásio está no colegial, o do colegial na faculdade, o da faculdade no emprego, do emprego... Portanto se um dia você te chamarem de inútil não fique tão triste assim. Quanto mais na nossa vida encontrarmos coisas que tem valor em si mesmas e, portanto sejam inúteis as chances de vivermos melhor aumenta muito.

O divertimento é um ciclo de insatisfação: desejar o que não se tem, conseguir, e em seguida, buscar outra coisa. É uma busca incessante pela saciedade, que nunca é alcançada. O tédio, por outro lado, surge de uma rede de utilidade, onde o valor das coisas está sempre fora delas mesmas. O valor de um carro está no destino que ele leva você. O valor de uma faculdade está no emprego que ela pode proporcionar.

Assim, o valor de algo útil é sempre externo a ele. Por isso, o autor sugere que não devemos ficar tristes se nos chamarem de inúteis, pois quanto mais coisas em nossa vida tiverem valor em si mesmas, maiores serão as chances de vivermos melhor.

A perspectiva de vida de Nietzsche exige uma avaliação que parte de si mesmo, sem fatores transcendentes. O valor das coisas não é inerente a elas, mas é determinado pelo desejo e pela vontade de cada indivíduo. O conceito do eterno retorno, através de uma famosa citação de Nietzsche. A ideia é: você gostaria de viver sua vida, com cada momento de dor e alegria, inúmeras vezes? A resposta a essa pergunta é o que determina se a sua vida é boa. O eterno retorno não é uma rotina, mas um desejo de que um instante se eternize, o que é o sintoma de uma vida bem vivida.

Nietzsche, como um filósofo vitalista, acreditava que toda transcendência são “muletas metafísicas” para quem não consegue suportar a vida como ela é. A invenção de conceitos como justiça ou matemática é uma forma de compensar o desespero da finitude. O super-homem de Nietzsche é aquele que vive sem essas muletas, abraçando o “amor-fati” (amor ao destino). O real é o que é; o erro não está no mundo, mas na nossa avaliação sobre ele.

Transcrição de textos e vídeos do professor Clóvis de Barros Filho, filósofo e docente de Ética na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA/USP).

A BUSCA PELA FELICIDADE

Como diria Pascal, buscamos a felicidade até mesmo no desespero. O amor é uma forma de felicidade, na qual a alegria do amado define a do amante. Nisso, temos duas alternativas: ou a alma transcendente, que impõe uma verdade ao corpo, ou uma perspectiva de amor pelo mundo, que é mais atraente. Nessa segunda visão, quanto mais o mundo se alegra e quanto mais nos percebemos como a causa dessa alegria, mais alegres ficamos conosco. Isso nos motiva a agir de forma a ajudar os outros a viverem melhor.

A a nossa razão muitas vezes serve para justificar o que sentimos, tentando tornar nossos afetos aceitáveis. A autoajuda, diferente da filosofia, promete soluções fáceis e garantias de felicidade. A filosofia, por sua vez, não tem um modelo ideal para uma vida bem-sucedida.

Ao longo da história, pensadores como Platão, Aristóteles e Tomás de Aquino buscaram gabaritos transcendentais para a felicidade. No mundo moderno, a busca por um modelo existencial sem Deus ganhou força. Karl Marx, por exemplo, propôs que a felicidade depende do equilíbrio social, buscando transformar a sociedade desigual em justa. Sua teoria, no entanto, não resolveu a questão.

Chegamos a uma sociedade com muitos “gabaritos” para alcançar o “paraíso”, incluindo a ideia de qualidade de vida. Mas não existe um modelo comum de felicidade. A razão é simples: somos todos diferentes e não há uma única resposta definitiva. Pensadores como Spinoza e Nietzsche trouxeram outras perspectivas, com Spinoza definindo a alegria como a passagem para um estado mais potente do ser, e Nietzsche falando sobre um mundo que só é bom quando nos alegra.

Transcrição de textos e vídeos do professor Clóvis de Barros Filho, filósofo e docente de Ética na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA/USP).

AMOR-FATI (AMOR AO DESTINO)

O conceito de Amor-fati nos convida a rejeitar os modelos mentais que nos escravizam, como os ideais superiores que negam a vida terrena e os prazeres do corpo. É uma crítica aos refúgios mentais como paraísos ou deuses, que funcionam como muletas para tornar a vida mais fácil. Para viver melhor, deveríamos nos libertar desses ideais. A proposta é amar o mundo como ele é, no presente. O passado e o futuro são vistos como fontes de ilusão ou esperança, que é considerada ignorante, impotente e sem gozo. O texto de Nietzsche, citado como inspiração, resume essa ideia: não apenas suportar o necessário, mas amá-lo.

Amor-fati não é resignação ou passividade. Não se trata de aceitar a vida de forma acovardada, mas de afirmar e amar o real. Nesse sentido, a única forma de estar no “amor real” é despir-se do idealismo, como a crença em verdades absolutas, e amar o mundo tal qual ele se apresenta. Em vez de dizer “eu te amo”, a sugestão é reconhecer que o amor é um afeto momentâneo. Dizer “eu te amo” como se fosse um estado permanente seria ignorar a natureza oscilante das emoções. O ideal seria valorizar mais a singularidade de cada encontro, substituindo a frase por algo como “você acaba de me afetar de amor”.

Questiona o altruísmo absoluto, preferindo a visão de Spinoza. Ele argumenta que o altruísmo, no fim das contas, busca a sua própria alegria. O autor tem dificuldade em acreditar que a alma seja superior ao corpo, e prefere uma perspectiva em que corpo e alma caminham juntos. Ele conclui que não se deve ir contra a própria alegria ou a própria potência de agir.

Transcrição de textos e vídeos do professor Clóvis de Barros Filho, filósofo e docente de Ética na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA/USP).

CAMINHOS E ESCOLHAS

O caminho que você escolher virá com suas próprias tristezas. A ideia de que outro caminho seria livre de problemas é uma ilusão. Você só experimenta as dificuldades da vida que vive, não da que poderia ter vivido. Por exemplo, um casamento tem suas tristezas, mas a vida de solteiro também tem as suas, como a solidão. A vida é, e sempre será, complicada.

A vida é mais marcada por decepções do que por alegrias. Sabendo disso, fica mais fácil encarar os desafios. Qualquer caminho será difícil; não existe vida fácil para ninguém. As dificuldades são diferentes para cada pessoa: uma namorada considerada “feia” apresenta um desafio, mas uma “linda” traz outros, como o ciúme. A vida é complexa, e as fórmulas para a felicidade são ineficazes, pois a maioria dos problemas é imprevisível.

Não sou pessimista, apenas repudio os “falsos profetas” que prometem a exclusão da tristeza se seguirmos certos protocolos. A tristeza é parte robusta da vida, é a sua matéria-prima. As alegrias são momentos pontuais que nos dão a esperança para continuar. Quanto menos você espera do mundo, mais chances têm de apreciar esses pequenos momentos. A esperança excessiva leva à frustração. A felicidade está em entender a vida em sua crueza e desfrutar dos pequenos instantes de alegria.

Transcrição de textos e vídeos do professor Clóvis de Barros Filho, filósofo e docente de Ética na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA/USP).

8 de outubro de 2025

DEUS NÃO ANTEVIU

Genes são as palavras que escrevem as instruções para a construção dos organismos vivos. Esses replicadores buscam apenas sua própria perpetuação, sendo egoístas e indiferentes aos interesses humanos. Suas estratégias engenhosas levam-nos, inclusive, a formar máquinas que garantam sua sobrevivência: os seres vivos.

A PERIGOSA IDEIA DE DARWIN: Até cerca de 150 anos atrás, era difícil ser ateu convicto, pois a pergunta fundamental – como surgiram a vida e organismos tão sofisticados? – permanecia sem resposta científica. 
A complexidade do olho, do cérebro, ou da cauda do pavão, por exemplo, sugeria a existência de um Projetista perfeito. 

Foi Charles Darwin quem resolveu o problema, propondo um princípio que explicava a complexidade organizada dos seres vivos sem a necessidade de intervenção não natural. Após coletar vasta informação, ele identificou um princípio unificador: a evolução, dirigida pela seleção natural.

SELEÇÃO NATURAL: A seleção natural é o mecanismo que atua priorizando organismos mais aptos a sobreviver e se reproduzir. Isso produz seres cada vez mais bem-adaptados ao meio, sendo “mais bem-adaptado” apenas mais competente na arte de se reproduzir. Os não tão bem-adaptados foram eliminados. A batalha pela existência exige aptidão (fitness), a competência em crescer e se multiplicar.

A ideia central de Darwin é: variações herdadas úteis à reprodução se disseminam e transformam a espécie. Essa é a explicação para a cauda do pavão, o olho humano, e todos os designs do mundo vivo. O cérebro humano, por exemplo, é um produto da seleção natural, um processo formal, automático, sem inteligência nem intenção, que atua sobre o que o acaso oferece. O relojoeiro da natureza é cego.

DO BIG BANG AO GENE: Nosso universo surgiu há cerca de 15 bilhões de anos. O Big Bang gerou radiação e partículas elementares. A energia se transformou em matéria (E=mc2). Com o resfriamento, prótons e elétrons formaram os primeiros átomos de hidrogênio, a substância da qual toda a matéria conhecida veio. Bilhões de anos após, ocorreu o surgimento de supermoléculas com a notável propriedade de se autor replicar. O embaralhamento do baralho cósmico produziu uma estrutura capaz de processar informação e assumir a dinâmica fundamental da vida. A permanência é a ambição suprema.

O DNA, o replicador fundamental, surgiu por meio das leis da Física e da Química na “sopa primordial”. É ele quem legisla em causa própria, alterando seus textos para garantir a sobrevivência nas gerações futuras. O DNA é a realidade do verbo que busca o “Crescei e multiplicai-vos”.

A HIPÓTESE DO GENE EGOÍSTA: O biólogo Richard Dawkins propõe a hipótese do gene egoísta: a seleção natural atua sobre a molécula do DNA, ou mais precisamente, sobre os genes. Assim, são os genes que “desejam” sobreviver. Genes são segmentos do DNA, e a vida é um processo de informação, onde o DNA escreve os textos para a construção da vida. Neste ponto de vista, seres vivos são máquinas de sobrevivência construídas pelos genes para facilitar sua própria replicação.

A dinâmica fundamental é que a evolução seleciona os genes mais aptos a continuar existindo. Eles seguem adiante através de cópias em seus corpos veículos, que morrem, mas os genes são potencialmente imortais. Seu único objetivo é construir corpos que se reproduzam. O altruísmo de formigas ou abelhas, por exemplo, é explicado pelo egoísmo dos genes: as que morrem garantem a replicação dos genes presentes em seus parentes.

MÁQUINAS DE SOBREVIVÊNCIA: Desde o início, nos mares primitivos, a competição se instalou entre os replicadores. Erros de cópia (mutações) trouxeram a variedade essencial para o processo evolutivo. Todos os seres vivos compartilham a mesma molécula ancestral de DNA.

Replicadores mais competentes desenvolveram truques para a sobrevivência. Dawkins explica: os replicadores que sobreviveram foram os que construíram máquinas, ou veículos, para sua própria proteção e existência. A concorrência levou ao desenvolvimento de máquinas de sobrevivência cada vez maiores e mais elaboradas.

Quatro bilhões de anos depois, os replicadores ancestrais estão aglomerados em colônias, protegidos dentro de robôs gigantescos e desajeitados. Eles são os genes, e nós somos suas máquinas de sobrevivência. Sua preservação é a razão última da nossa existência.

A CEGUEIRA DA SELEÇÃO NATURAL: As máquinas de sobrevivência foram criadas pelo processo cego da seleção natural, sem projeto ou projetista. Esse processo é totalmente indiferente à dor ou a qualquer valor humano. Ele não tem propósito ou objetiva gerar a espécie humana. A seleção natural permite apenas a sobrevivência dos genes aptos a gerar veículos capazes de perpetuá-los.

O olho é resultado da ação desse relojoeiro cego ao longo de um tempo astronomicamente grande. Genes para olhos cada vez mais especializados foram sendo escolhidos. Assim surgiram os complexos mecanismos da nossa visão: um belíssimo design sem designer. Enxergar confere uma tremenda vantagem competitiva. O físico Fred Hoyle comparou aceitar Darwin a crer que um tufão montaria um Boeing 747 em um depósito de peças. Hoyle, contudo, estava errado.

A seleção natural atua, de forma imediatista, sobre o que as leis da Física e da Química oferecem. É o passar de vastos espaços de tempo que permite o surgimento de estruturas como o olho. Ele é o melhor dos olhos porque conferiu a maior vantagem na competição por sobrevivência e reprodução em determinado momento. Nosso olho veio de um “não-olho”, através de uma sucessão de olhos progressivamente melhores. As mutações casuais eram selecionadas: quem enxergava melhor localizava presas, fugia de predadores, vivia mais e se reproduzia mais.

A genialidade de Darwin foi descobrir que mesmo o que tem um design sofisticadíssimo não tem designer. É o processo cego da seleção natural que é responsável pela nossa existência, de nossos cérebros e de nossas mentes.

SUCESSO E FRACASSO NA LEI NATURAL: A seleção natural é um processo não criativo, mas com resultado garantido: em cada momento, a melhor variante possível para o projeto. As alternativas falhas morreram sem deixar descendentes. Sucesso, segundo a natureza, é permanecer.

O neurofisiologista William Calvin ilustra a natureza da seleção natural com o exemplo das apostas em cavalos: ao enviar mil previsões diferentes, um grupo de cem pessoas se convence de que o emissor tem um conhecimento especial, devido à seleção a posteriori dos acertos, ignorando-se os inúmeros erros. Assim é a seleção natural: observamos os animais que sobreviveram, os órgãos que funcionaram.

COMPETIÇÃO E A ESTRATÉGIA DOS GENES: A dinâmica da evolução, inspirada em Thomas Malthus, prevê que nem toda a prole sobrevive. O ambiente natural seleciona os genes que melhor sobrevivem, o que explica o termo “seleção natural”. 
Se os genes programam os organismos para agirem em seus próprios interesses, a natureza se torna um espetáculo de egoísmo, trapaça e dissimulação, pois o único objetivo é a propagação dos genes. Olhando de perto, percebemos mães abandonando crias fracas e filhotes tentando enganar os pais, além de machos e fêmeas usando blefes na relação reprodutiva.

Esse processo é sempre mediado por uma análise de custo-benefício. Espermatozoides são baratos, enquanto óvulos são caros e exigem um investimento maior da fêmea. Por isso, fêmeas tendem a ser mais cuidadosas na escolha de parceiros.

A seleção natural provoca o surgimento de comportamentos de equilíbrio, estratégias que levam a um compromisso entre os interesses egoístas. O conflito sexual é inerente, devido à diferença essencial: espermatozoides são abundantes e baratos; óvulos são escassos e caros. Mães tentam investir por igual, aprendendo a detectar a fraude e a puni-la, pois a seleção natural “força” a convergência das estratégias de mães e crias para a máxima propagação dos genes de ambos. Os comportamentos que persistem são as estratégias evolucionariamente estáveis.

O egoísmo inerente ao jogo de replicação, paradoxalmente, força a colaboração. Na gravidez, o feto age como um sutil parasita para sugar mais nutrientes, gerando uma corrida armamentista até se atingir um equilíbrio: a colaboração por reciprocidade.

Outro exemplo: o altruísmo de fêmeas de pássaros que chocam ovos alheios. Uma fêmea trapaceira, que não choca os ovos e aproveita o tempo para pôr mais, teria vantagem. A trapaça, no entanto, não é evolucionariamente estável a longo prazo, pois a espécie sumiria. A fêmea “honesta” ganha se aprender a identificar e chocar apenas seus próprios ovos.

CUSTO/BENEFÍCIO E A REBELIÃO HUMANA: A guerra do gene egoísta toma formas extremas, como a cauda do pavão. Sua origem é o exibicionismo sexual: caudas extravagantes atraem fêmeas, mas podem atrair predadores ou exigir mais energia, podendo causar a morte do portador. O custo/benefício é que deve ser considerado: se o macho copulou o suficiente para garantir a passagem de seus genes, a morte da máquina de sobrevivência é “aceitável”. A preservação do gene é a utilidade nesse jogo.

A seleção natural não premia a esperteza isolada, mas sim a capacidade de preservar os genes. A monogamia, por exemplo, pode ter surgido do conflito entre machos e fêmeas: fêmeas recusam a cópula até que o macho prove que auxiliará no cuidado da prole.

Há casos em que filhotes de pássaros quebram os ovos dos irmãos para fora do ninho. Dawkins observa que a cria tentará usar toda arma psicológica (mentira, chantagem) para obter mais que sua parcela justa de alimento. O egoísmo desenfreado é sempre moderado pela relação instintiva de custo/benefício, no interesse dos genes.

O cérebro e o comportamento também são artefatos que a seleção natural inventou. O sistema nervoso das espécies foi desenvolvido sob influência dos genes, sendo, portanto, objeto de seleção. Características fundamentais para o ser humano, como a linguagem e a consciência, emergiram do cérebro, conferindo vantagens decisivas.

Embora o princípio de operação das "máquinas de sobrevivência" possa soar cínico, a espécie humana é a única que pode se "rebelar contra a ditadura" do gene. A consciência humana, obra do relojoeiro cego, nos confere originalidade, permitindo-nos buscar um sentido e superar a "frieza" da seleção natural. Estamos em um jogo existencial, no qual os melhores jogadores continuam. Por ironia, o relojoeiro cego, assim como o Deus bíblico, acabou produzindo um efeito que não estava no programa: Nós.

Extraído do Livro “O Glorioso Acidente” de Clemente de Nobrega
(Físico e Master in Science em Engenharia Nuclear).

7 de outubro de 2025

CISÃO DO MOVIMENTO LGB

A criação da LGB Internacional (LGBI) representa um movimento de separação de pautas. Essa organização se separou para focar apenas nas pautas de Lésbicas, Gays e Bissexuais (LGB) baseadas no sexo biológico. Já a sigla mais longa, LGBTI+, representa a visão de que todas essas identidades compartilham a luta contra a cis-heteronormatividade e a discriminação.

L (LÉSBICAS): Mulheres que sentem atração por outras mulheres.

G (GAYS): Homens que sentem atração por outros homens.

B (BISSEXUAIS): Pessoas que sentem atração por mais de um gênero (não se limita a apenas dois).

T (TRANSGÊNERO/TRANSSEXUAIS): Pessoas cuja identidade de gênero não corresponde ao sexo que lhes foi atribuído ao nascer (a pauta central que a LGBI busca excluir).

I (INTERSEXO): Pessoas que nascem com variações nas características sexuais (cromossomos, gônadas ou anatomia sexual) que não se encaixam nas definições binárias de masculino ou feminino.

+ (MAIS/OUTRAS IDENTIDADES): O símbolo de inclusão que abrange todas as outras identidades que não estão explicitamente na sigla, como: Queer (Q), Assexuais (A), Pansexuais, e outros.

A cisão ocorre porque o grupo LGBI entende que as pautas de orientação sexual (atração por um sexo) são diferentes e, em alguns casos, conflitantes com as pautas de identidade de gênero (como a pessoa se sente ou se identifica). Principais Diferenças e Posições da LGB Internacional:

FOCO DA PAUTA: Exclusivamente LGB (Lésbicas, Gays, Bissexuais).

BASE PARA DIREITOS: Sexo Biológico e Orientação Sexual. A atração é definida pelo sexo (macho/fêmea).

CONCEITO DE GÊNERO: Entende o sexo como uma “realidade material imutável” (macho/fêmea). Argumenta que a substituição de sexo por gênero apaga as definições de homem, mulher e orientação sexual.

TOM DE CAMPANHA: Contundente, com frases como “já estamos fartos de pronomes” e “os direitos dos gays não podem ser contrários aos direitos das mulheres”, indicando uma rejeição às novas linguagens e às políticas de inclusão trans.

O QUE VAI MUDAR NA PRÁTICA: A formalização da LGBI representa uma mudança no panorama ativista:

SEPARAÇÃO DE REPRESENTAÇÃO: Os ativistas da LGBI buscarão representação política e social focada apenas nas questões LGB, sem endossar ou lutar pelas pautas que envolvem identidade de gênero (como o reconhecimento legal de gênero, o uso de pronomes ou a inclusão de pessoas trans em espaços específicos de homens ou mulheres).

DISPUTA DE NARRATIVA: A LGBI passa a contestar abertamente a narrativa de que as pautas de orientação sexual e identidade de gênero são intrinsecamente ligadas, criando um debate polarizado dentro do movimento social.

FOCO EM SEXO BIOLÓGICO: Ao basear sua missão no sexo biológico, o grupo reforça a ideia de que a atração homossexual ou bissexual é necessariamente por alguém do mesmo sexo (macho atraído por macho, fêmea atraída por fêmea), em contraposição à ideia de atração por uma identidade de gênero.

Em resumo, a cisão é um reflexo de uma disputa conceitual sobre o papel do sexo biológico versus a identidade de gênero no ativismo e na definição de direitos. A LGBI busca delimitar seu foco e excluir a agenda trans de suas prioridades, argumentando que o sexo é dividido entre macho e fêmea e é uma realidade material imutável. Afirma que, ao substituir o sexo por gênero, como o movimento trans propõe, apaga-se a definição do que é mulher e homem e também a de orientação sexual.

1 de outubro de 2025

AS TRÊS CONCEPÇÕES DE AMOR

A seguir, as três concepções de amor oferecidas por grandes mestres espirituais: Eros (Platão), Phília (Aristóteles) e Ágape (Cristo).

AMOR EROS (PLATÃO): O primeiro, proposto por Platão, é o amor-desejo. O chamado “amor platônico”, ou Eros, baseia-se na falta: amamos enquanto desejamos o que não temos. Quando o desejo cessa, o amor também desaparece. Esse movimento pode ser visto no trabalho: o desempregado deseja emprego; quando o consegue, logo deseja férias.

É preciso renovar o desejo para manter o Eros vivo. O mundo corporativo, com jargões como “sangue nos olhos”, expressa bem essa lógica. Segundo Platão, “ama-se o que não se tem”. Mas uma vida guiada apenas pelo desejo não basta, e foi isso que levou Aristóteles a propor outra concepção.

AMOR PHÍLIA (ARISTÓTELES): Para Aristóteles, o amor é Phília, o vínculo com o que já se possui: os filhos, os amigos, o trabalho. É a alegria pela presença e não pela falta. Enquanto Eros deseja, a Phília se encanta com o que já é realidade. 
Esse amor é raro no mundo corporativo. O “happy hour” sugere que felicidade e trabalho não combinam, como se a alegria estivesse fora do ofício. O desafio é transformar o desejo (Eros) em alegria (Phília), encontrando prazer no que já se faz.

A alegria é a passagem para um estado mais potente do ser. Hobbes chamou de conatus, Spinoza de potência, Nietzsche de vontade, Bergson de elan vital. Eu a chamo de tesão pela vida. Essa energia cresce em pequenos rituais: acordar, tomar café, dar aula. Encantar-se com o que se faz é fundamental, pois passamos grande parte da vida no trabalho. Quem odeia sua atividade dificilmente será feliz.

Não existem fórmulas universais. Gurus vendem receitas fáceis, mas a vida é mais complexa. Cada um, precisa descobrir seu próprio caminho. Por isso, a melhor orientação continua sendo: “conhece-te a ti mesmo.”

Platão e Aristóteles não se excluem. É possível desejar o que falta (Eros) e alegrar-se com o que já se tem (Phília). Infelizmente, fomos treinados apenas para desejar, não para viver a alegria da presença.

AMOR ÁGAPE (CRISTO): O terceiro tipo é o Ágape, o amor de Cristo. Nele, o foco não é o desejo de quem ama (Eros), nem a alegria de quem possui (Phília), mas a alegria do amado. O centro do afeto não está em quem ama, mas naquele que é amado.

Exemplo: o amor dos pais pelos filhos ou a satisfação do professor ao ver o aluno aprender. O amante se afasta para que o amado avance. No Eros, o que importa é meu desejo; na Phília, minha alegria; no Ágape, a alegria do outro.

Não devemos, porém, escolher apenas um. É saudável desejar, alegrar-se e compartilhar essa alegria, diminuindo o sofrimento de quem está ao lado. Sem ter com quem comemorar, até a alegria pessoal se esvai.

Com esses três amores – desejar o que falta, alegrar-se com o que se tem e proporcionar alegria ao outro – a vida ganha mais equilíbrio. Ainda assim, o amor não resolve tudo: convivemos com muitos, mas amamos poucos.

Baseado em transcrição de textos e vídeos do professor Clóvis de Barros Filho, filósofo e docente de Ética na Escola de Comunicações e Artes da USP (ECA/USP).