12 de fevereiro de 2026

CONSCIÊNCIA VS ALIENAÇÃO

RESUMO: 90% da população não sabe o que está acontecendo no mundo e, destes, 90% sequer sabem que não sabem.

A ideia de que a vasta maioria da humanidade vive em um estado de desconexão da realidade ganha contornos dramáticos na era da informação, revelando que 90% da população não compreende as engrenagens que movem o mundo e, dentro desse grupo, a maioria sequer desconfia da própria cegueira.

CEGUEIRA COLETIVA E PÃO E CIRCO: Quando dizemos que 90% das pessoas não sabem o que ocorre no mundo e, destas, 90% sequer têm consciência da própria ignorância, estamos falando do Efeito Dunning-Kruger em escala global alimentado pela estratégia milenar do “Panem et Circenses”.

O primeiro nível: Pessoas que consomem apenas o superficial (manchetes, redes sociais) e acreditam estar informadas, ignorando a alta carga tributária embutida em cada consumo. O segundo nível: É o estado de “alienação plena”. Aqui, as pessoas não sentem falta do conhecimento porque sua bolha de realidade é autossuficiente. Se o problema não afeta o preço do pão ou o sinal do Wi-Fi hoje, ele simplesmente não existe. É a manutenção da ordem através da satisfação das necessidades básicas e da distração das massas.

Esse estado de “não saber que não sabe” é o que Zygmunt Bauman descreveria como o ápice do mundo líquido: uma sociedade onde os laços, as certezas e o próprio conhecimento se tornaram fluidos e voláteis, impedindo que o indivíduo crie raízes em uma verdade sólida. Na modernidade líquida, a alienação é facilitada pelo excesso de estímulos superficiais que nos mantêm em uma busca incessante por consumo e gratificação imediata, validando a eficácia do pão e circo ao nos distrair da complexidade estrutural e tributária que realmente governa nossas vidas.

DICOTOMIA (SABER VS NÃO SABER): Nesse cenário, surge uma dicotomia cruel entre a consciência e o bem-estar. De um lado, o conhecimento profundo traz o peso da impotência; de outro, a ignorância oferece uma felicidade baseada na superfície. Mas existe um preço invisível para a lucidez. Ao entender as engrenagens geopolíticas, as crises climáticas ou as manipulações algorítmicas, o indivíduo perde a capacidade de relaxar.

Saber e sofrer: O conhecimento traz a paralisia do observador. Você enxerga o iceberg, mas não está no leme do navio. Isso gera uma ansiedade existencial que muitos chamam de “fadiga da compaixão” ou “eco-ansiedade”, ao perceber que o "circo" é pago com o seu próprio esforço não remunerado.

Não saber e ser feliz: É a “felicidade das flores”. Elas desabrocham sem saber que o inverno está chegando. Para quem vive na superfície, a vida é composta apenas pelo agora e pelas relações imediatas. É uma existência mais leve, porém mais vulnerável.

PERSPECTIVA BÍBLICA E FILOSÓFICA: Em Eclesiastes, o Rei Salomão, em sua busca por entender tudo debaixo do sol, concluiu: “Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em ciência, aumenta em dor.” (Eclesiastes 1:18)

Essa “atribulação” mencionada na Bíblia não é apenas sobre ter muitos dados, mas sobre a perda da inocência ao notar que o pão oferecido tem um custo de liberdade. A sabedoria remove o véu que torna o mundo palatável. Ela nos mostra as injustiças que não podemos corrigir e a finitude que não podemos evitar.

O EQUILÍBRIO É POSSÍVEL? Viver na ignorância total nos torna massa de manobra. Viver mergulhado no caos do mundo nos adoece. O desafio humano atual não é apenas “saber”, mas selecionar o que vale a pena saber e o que podemos, de fato, transformar.

Para enfrentar esse sofrimento decorrente da lucidez, o estoicismo surge como uma ferramenta de sobrevivência. Os estoicos nos ensinam a separar o que depende de nós (nossas opiniões e ações) do que não depende (o curso do mundo e as grandes crises globais). Sem essa disciplina mental, o sábio sucumbe à “atribulação” mencionada em Eclesiastes, pois entender o mundo sem aceitar seus limites leva ao desespero. O sofrimento, portanto, nasce da tentativa de segurar a “liquidez” de Bauman com as mãos, tentando controlar um sistema que é inerentemente caótico e vasto.

A realidade, então, ecoa as reflexões bíblicas de que o aumento do conhecimento é o aumento da dor, pois a lucidez remove os filtros que tornam a vida palatável. Enquanto a massa vive na fluidez de uma felicidade desatenta, o indivíduo consciente precisa equilibrar o fardo de enxergar o abismo com a resistência estoica de não se deixar destruir por ele.

No fim, a sabedoria deixa de ser apenas o acúmulo de dados sobre o mundo líquido e passa a ser a capacidade de encontrar um ponto firme de virtude dentro de si, aceitando que, embora a verdade traga dor, é apenas através dela que deixamos de ser meros náufragos da história para nos tornarmos observadores conscientes da nossa própria travessia.

JC COUTINHO

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