Vivemos num mundo líquido e decadente – um ecossistema em acelerada erosão ética e moral onde a profundidade foi trocada pelo espetáculo do efêmero. A teoria da sociedade do espetáculo fundiu-se perfeitamente com a visão da modernidade líquida: a imagem da virtude vale mais do que a própria essência, e a aceleração dos feeds e vídeos curtos atrofia a capacidade de sustentar o pensamento complexo.
De um lado, temos uma juventude anestesiada que gasta sua energia vital “farmando aura” nas redes sociais e gravando dancinhas para obter validação do algoritmo; do outro, adultos infantilizados transbordando nostalgia vazia e emocionados com ícones perniciosos, enquanto ignoram mestres edificantes. A cultura transformou-se em um circo alienante.
É tentador enxergar apenas ruínas, embora parte dessa erosão represente a queda de estruturas antigas e preconceitos sufocantes. Contudo, o problema reside no vácuo gerado: destruímos o antigo antes de construir o novo, criando um ambiente hiperindividualista onde cada um inventa sua própria ética pautada pelo consumo.
Como resume uma frase amplamente difundida: “Eu vi gerações tentando derrubar o sistema e agora o que vejo é só gente implorando para fazer parte dele. O problema não é o mundo ter enlouquecido. A desgraça é que agora ele começou a aplaudir a própria decadência.”
A grande tragédia da nossa época não é apenas o colapso dos valores sociais, mas a celebração ufanista dessa ruína. O inconformismo virou marketing, a revolução, uma trend de quinze segundos e a mediocridade foi promovida à virtude. Ninguém mais quer construir pontes ou derrubar muros; todos querem apenas um contrato de patrocínio.
Se o ecossistema macro, parece degradado, a resposta não é o niilismo. Em tempos líquidos, ser profundo, leal e ético passa a ser um ato de revolta: cultivar a atenção, construir laços sólidos e assumir uma responsabilidade genuína – fazendo o bem não pelo espetáculo, mas por coerência interna.
A sensatez virou uma anomalia; a sobriedade, um ato de rebeldia. Sejam bem-vindos ao Abismo Contemporâneo.
JC COUTINHO
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