A INVERSÃO EPISTÊMICA E A CULTURA DA FANTASIA: No cenário contemporâneo, a evidência factual transformou-se em mero detalhe burocrático diante da força da narrativa. Fenômenos artificiais, como falsos OVNIs editados em celulares, bastam para atrair multidões dispostas a crer. O extraordinário foi privatizado pela economia da atenção, onde a fraude deixou de se esconder por vergonha e passou a ser performática, monetizando lives, caixinhas de perguntas e biografias que misturam teologia improvisada, autoajuda e física quântica de WhatsApp.
O
QUE DIZ A CIÊNCIA: Para cientistas como Marcelo Gleiser, apesar de o
fascínio popular e dos inúmeros
relatos de óvnis e abduções, não existe absolutamente nenhuma
prova concreta da presença de entidades extraterrestres que seja
aceita pela comunidade científica. O ceticismo da ciência se deve
ao rigor metodológico e a fatores lógicos, já que não faz sentido
que civilizações superavançadas cruzassem o universo apenas para
piscar luzes ou assustar pessoas em áreas rurais. Além disso,
embora a vida simples possa existir em outros planetas, o surgimento
de vida inteligente e tecnológica exige uma combinação tão rara
de fatores geológicos e evolutivos que a humanidade pode ser um
fenômeno único no universo observável.
O
MECANISMO DA BLINDAGEM PSICOLÓGICA E FINANCEIRA: Esse modelo
prosperar porque a sociedade, embora exija rigor da realidade
concreta, aceita qualquer absurdo emocionalmente confortável. O
público abdica do senso crítico e realiza transferências
voluntárias de recursos para financiar missões fictícias, movido
por crenças milenares de submissão a seres superiores. Quando
contestada, a fraude se protege sob o manto da identidade: os fatos
viram “meras opiniões”, os críticos tornam-se haters e o
charlatão assume o papel de mártir perseguido, garantindo que o
golpe sobreviva à própria desmistificação.
O
SER, O NÃO-SER E O MÉTODO CIENTÍFICO: Esta dinâmica expõe um
profundo paradoxo filosófico e científico ligado ao Ônus Probandi
(o ônus da prova). Frequentemente, depara-se com a tentativa
equivocada de nos obrigar a provar que o inexistente não existe.
Diante disso, surge a provocação: como demonstrar a ausência do
que não é? Exigir a prova de que o inexistente carece de realidade
é um desvio metodológico e conceitual que remete às discussões
clássicas de Parmênides. O caminho correto reside no oposto: o que
existe deve provar sua existência. A realidade concreta carrega o
ônus empírico; o que é real deve ser provado, medido e replicado.
O
ESPETÁCULO DA MENTIRA RENTÁVEL: A revogação dessa lógica
estende-se além da ufologia, replicando-se na política com
salvadores da pátria e nas redes com gurus de enriquecimento rápido.
O Brasil rejeita a realidade por ser lenta e complexa, preferindo o
entretenimento da mentira rentável. No fim, as cordas do espetáculo
aparecem, mas a plateia continua aplaudindo. O mistério não é
encontrar vida inteligente fora da Terra, mas decifrar em que momento
a sociedade passou a tratar o absurdo como normal, a fraude como
entretenimento, a mentira como estratégia e a credulidade como
virtude.
O
QUE OS OVNIS REVELAM SOBRE A PSIQUE HUMANA: : Os alienígenas estão,
primordialmente, na cabeça de alguns. Só pensam nisso. Para uns,
eles vêm do espaço, para outros, do centro da Terra – verdadeiras
estórias da carochinha. No entanto, o que parece apenas imaginação
revela algo muito mais profundo: essas crenças são milenares e
permanecem no imaginário dos crentes até hoje. Isso movimenta
milhares de seguidores ávidos por esse assunto, por um contato
imediato e por serem subjugados por esses presumidos seres.
CARL
JUNG E O MITO MODERNO DO DISCO VOADOR: Para compreender esse
fenômeno, recorre-se ao psiquiatra Carl Jung, que em 1958 analisou
os discos voadores como um "mito moderno". Jung explicava
que o formato circular atribuído aos OVNIs é o arquétipo da
mândala: um símbolo de totalidade e ordem que o inconsciente
coletivo projeta no céu quando o mundo exterior está em crise. A
ânsia por um “contato imediato” e a prontidão para ser
“subjugado” por inteligências cósmicas nada mais é do que a
transposição de um desejo religioso milenar. Com o declínio das
religiões tradicionais, a humanidade transformou o “Deus Salvador”
no “Alienígena Tecnológico”, um pai cósmico que viria nos
salvar de nós mesmos.
O
SEQUESTRO DO MITO PELO ALGORITMO: Contudo, na era digital, essa
projeção psicológica legítima foi sequestrada. As fake news estão
tomando conta da discussão. O que vale hoje são os seguidores;
seguidores é o que interessa. O que antes era uma busca espiritual
por sentido transformou-se em uma “epidemia psíquica”
industrializada pelo algoritmo, onde o mito foi esvaziado para virar
mercadoria e gerar cliques.
A
SOMBRA COLETIVA E A CRISE DO INTERIOR: A resposta de Jung para esse
enigma seria clara: vivemos uma dissociação psíquica coletiva,
onde a nossa "sombra" – os nossos piores defeitos – é
projetada para fora. Os OVNIs e o misticismo tecnológico tornaram-se
o espelho de uma humanidade que prefere olhar para o céu em busca de
salvação externa a encarar a dura realidade de sua crise interior.
.jpg)
Nenhum comentário:
Postar um comentário