27 de março de 2026

O ELIXIR DE PEDRA E LUZ




As catedrais e seus templos religiosos não servem apenas à oração. Independentemente de nossas crenças ou descrenças, são espaços terapêuticos e exemplos de arquitetura sagrada que elevam o espírito humano, oferecendo consolo e uma sensação de nobreza. Com seus padrões de verticalidade e luz filtrada, induzem a um estado de serenidade e introspecção, agindo como um bálsamo para as angústias da vida moderna. Tais monumentos nos fazem sentir “pequenos” de forma positiva, lembrando-nos de que há algo maior do que o cotidiano.

Não gostaria de viver num mundo sem catedrais. Preciso da sua beleza e grandiosidade em contraposição às cores sujas do embate diário. Preciso da força da sua poesia, em contraste com a decadência da língua e com a tirania dos slogans inúteis. Não gostaria de viver num mundo sem catedrais... Necessito do brilho dos seus vitrais, da sua frescura serena e do seu imperioso silêncio. Preciso da santidade das palavras e da estatura da grande poesia.

As catedrais restabelecem o vínculo sagrado com a totalidade do universo e promovem o retorno a uma síntese primeira, anterior à cisão da autoconsciência e à dor das formas repartidas. A dádiva, muitas vezes, reside apenas em lembrar que esse espaço-tempo do sagrado existe; ou seja, que ele está lá, ao nosso alcance, como um elixir que nos permite escapar do circuito profano das miudezas do mundo — uma realidade em que vozes e buzinas se confundem — para ingressar por inteiro no universo paralelo da espiritualidade atemporal.

Nelas, pode-se simplesmente abstrair-se de tudo o que existe e mergulhar no universo da completa transcendência. A alma, embalada pela autoconsciência e desligada do corpo e dos demais sentidos, refaz o mundo à sua maneira — é criadora e criação de si mesma. Para onde vai o tempo enquanto estamos mergulhados em estado de absorta concentração?

JC COUTINHO

23 de março de 2026

O LARGO DA IGREJA




É lamentável, mas há males que vêm para o bem. Pelo que se observa, os comerciantes já estão se realocando, e provavelmente terão grande sucesso em seus novos destinos. É a vida que segue.

Na minha visão, o Cassino hoje se resume a um balneário de uma rua só, concentrado quase exclusivamente no entorno da Igreja. Enquanto isso, as demais vias parecem abandonadas (ao turismo), carecendo de comércio e eventos que atraiam o público.

Precisamos incentivar a migração e a expansão dos comerciantes para além do largo da Igreja, criando novos polos com infraestrutura de quiosques.

A Avenida Atlântica, por exemplo, é subutilizada e tem um potencial imenso. O mesmo vale para o calçadão da Beira-Mar: um espaço pavimentado e iluminado que, ironicamente, não recebe '‘uma viva alma’' no inverno quanto no verão por falta de atrativos. Com a implantação de quiosques e serviços, aquela área poderia ser revitalizada e atrair o público.

Quanto às intervenções no Largo da Igreja: Agora é possível visualizar a lateral da edificação. Do ponto de vista urbanístico e religioso, não é ideal que existam comércios adjacentes. Para alcançarmos um padrão de excelência similar ao de outras belas igrejas de cidades turísticas, precisamos superar essa questão.

A ausência de comércios anexos (colados às paredes da estrutura) cria o que arquitetos chamam de “vazio qualificado”. Sem placas, vitrines ou movimento de carga e descarga, a volumetria e os detalhes dos arquitetônicos (como vitrais, arcos, pedras) tornam-se os protagonistas.

O silêncio visual contribui para o propósito da edificação, separando o “sagrado” do “profano” (o comércio cotidiano). Isso permite que a igreja seja fotografada de qualquer ângulo sem poluição visual.

O nível de excelência turística e religiosa de uma cidade está diretamente ligado à capacidade de preservar seus cartões-postais de interferências mundanas.

JC COUTINHO