13 de julho de 2026

MITOLOGIA UFOLÓGICA

A INVERSÃO EPISTÊMICA E A CULTURA DA FANTASIA: No cenário contemporâneo, a evidência factual transformou-se em mero detalhe burocrático diante da força da narrativa. Fenômenos artificiais, como falsos OVNIs editados em celulares, bastam para atrair multidões dispostas a crer. O extraordinário foi privatizado pela economia da atenção, onde a fraude deixou de se esconder por vergonha e passou a ser performática, monetizando lives, caixinhas de perguntas e biografias que misturam teologia improvisada, autoajuda e física quântica de WhatsApp.

O QUE DIZ A CIÊNCIA: Para cientistas como Marcelo Gleiser, apesar de o fascínio popular e dos inúmeros relatos de óvnis e abduções, não existe absolutamente nenhuma prova concreta da presença de entidades extraterrestres que seja aceita pela comunidade científica. O ceticismo da ciência se deve ao rigor metodológico e a fatores lógicos, já que não faz sentido que civilizações superavançadas cruzassem o universo apenas para piscar luzes ou assustar pessoas em áreas rurais. Além disso, embora a vida simples possa existir em outros planetas, o surgimento de vida inteligente e tecnológica exige uma combinação tão rara de fatores geológicos e evolutivos que a humanidade pode ser um fenômeno único no universo observável.

O MECANISMO DA BLINDAGEM PSICOLÓGICA E FINANCEIRA: Esse modelo prosperar porque a sociedade, embora exija rigor da realidade concreta, aceita qualquer absurdo emocionalmente confortável. O público abdica do senso crítico e realiza transferências voluntárias de recursos para financiar missões fictícias, movido por crenças milenares de submissão a seres superiores. Quando contestada, a fraude se protege sob o manto da identidade: os fatos viram “meras opiniões”, os críticos tornam-se haters e o charlatão assume o papel de mártir perseguido, garantindo que o golpe sobreviva à própria desmistificação.

O SER, O NÃO-SER E O MÉTODO CIENTÍFICO: Esta dinâmica expõe um profundo paradoxo filosófico e científico ligado ao Ônus Probandi (o ônus da prova). Frequentemente, depara-se com a tentativa equivocada de nos obrigar a provar que o inexistente não existe. Diante disso, surge a provocação: como demonstrar a ausência do que não é? Exigir a prova de que o inexistente carece de realidade é um desvio metodológico e conceitual que remete às discussões clássicas de Parmênides. O caminho correto reside no oposto: o que existe deve provar sua existência. A realidade concreta carrega o ônus empírico; o que é real deve ser provado, medido e replicado.

O ESPETÁCULO DA MENTIRA RENTÁVEL: A revogação dessa lógica estende-se além da ufologia, replicando-se na política com salvadores da pátria e nas redes com gurus de enriquecimento rápido. O Brasil rejeita a realidade por ser lenta e complexa, preferindo o entretenimento da mentira rentável. No fim, as cordas do espetáculo aparecem, mas a plateia continua aplaudindo. O mistério não é encontrar vida inteligente fora da Terra, mas decifrar em que momento a sociedade passou a tratar o absurdo como normal, a fraude como entretenimento, a mentira como estratégia e a credulidade como virtude.

O QUE OS OVNIS REVELAM SOBRE A PSIQUE HUMANA: : Os alienígenas estão, primordialmente, na cabeça de alguns. Só pensam nisso. Para uns, eles vêm do espaço, para outros, do centro da Terra – verdadeiras estórias da carochinha. No entanto, o que parece apenas imaginação revela algo muito mais profundo: essas crenças são milenares e permanecem no imaginário dos crentes até hoje. Isso movimenta milhares de seguidores ávidos por esse assunto, por um contato imediato e por serem subjugados por esses presumidos seres.

CARL JUNG E O MITO MODERNO DO DISCO VOADOR: Para compreender esse fenômeno, recorre-se ao psiquiatra Carl Jung, que em 1958 analisou os discos voadores como um "mito moderno". Jung explicava que o formato circular atribuído aos OVNIs é o arquétipo da mândala: um símbolo de totalidade e ordem que o inconsciente coletivo projeta no céu quando o mundo exterior está em crise. A ânsia por um “contato imediato” e a prontidão para ser “subjugado” por inteligências cósmicas nada mais é do que a transposição de um desejo religioso milenar. Com o declínio das religiões tradicionais, a humanidade transformou o “Deus Salvador” no “Alienígena Tecnológico”, um pai cósmico que viria nos salvar de nós mesmos.

O SEQUESTRO DO MITO PELO ALGORITMO: Contudo, na era digital, essa projeção psicológica legítima foi sequestrada. As fake news estão tomando conta da discussão. O que vale hoje são os seguidores; seguidores é o que interessa. O que antes era uma busca espiritual por sentido transformou-se em uma “epidemia psíquica” industrializada pelo algoritmo, onde o mito foi esvaziado para virar mercadoria e gerar cliques.

A SOMBRA COLETIVA E A CRISE DO INTERIOR: A resposta de Jung para esse enigma seria clara: vivemos uma dissociação psíquica coletiva, onde a nossa "sombra" – os nossos piores defeitos – é projetada para fora. Os OVNIs e o misticismo tecnológico tornaram-se o espelho de uma humanidade que prefere olhar para o céu em busca de salvação externa a encarar a dura realidade de sua crise interior.