A obra de C.S. Lewis, publicada
em 1942, permanece atemporal. Na Carta XII de Cartas de um Diabo a
seu Aprendiz, o demônio experiente (Cofuso) expõe sua maior
obra-prima ao sobrinho, Vermelindo: o poder do nada e a anestesia
gradual da alma. Ele explica que não é preciso empurrar o ser
humano para crimes bárbaros para condená-lo; o plano mais eficaz é
fazê-lo desperdiçar a vida em trivialidades.
O autor ilustra essa anestesia mostrando que o objetivo é fazer o homem ler livros ruins, ouvir músicas vazias ou simplesmente jogar o tempo fora olhando para o teto. De forma irônica, o diabo afirma que o ideal é fazê-lo gastar horas em algo que ele nem gosta, apenas para preencher o vazio. Os demônios preferem uma noite inteira perdida em um jogo chato ou em uma revista fútil a um bom livro.
O objetivo da estratégia infernal é criar o “Hábito do nada”, mantendo o indivíduo anestesiado no fluxo da boiada até que seja tarde demais. Como escreve Cofuso: “O assassinato não será melhor que o carteado se este der conta do recado.” Ele ainda cita o caso de um homem que chegou ao inferno horrorizado ao perceber que passou a vida inteira sem fazer o que devia e sem desfrutar do que realmente gostava.
No cenário atual, onde governos e o sistema cultural utilizam distrações massivas e pautas hiperfragmentadas –, a conexão com a Carta XII é cirúrgica. É a manifestação do Pão e Circo Digital. Hoje, esse conceito vai além de estádios de futebol ou do uso eleitoreiro de auxílios governamentais; ele se estende à anestesia digital. O algoritmo das redes sociais, o entretenimento de baixa qualidade (como conteúdos eróticos e rasos que sufocam a arte complexa) e os modismos por pertencimento tribal (tatuagens, cortes de cabelo, piercings ou vestimentas específicas) funcionam como esse “nada”, afastando o homem da própria transcendência.
Essa dinâmica também opera na polarização política. As pautas fragmentadas conectam-se a outro princípio de Lewis: a substituição do real pelo abstrato. Quando a cultura força antagonismos ferrenhos, cria uma cortina de fumaça. O demônio orienta que o ser humano deve direcionar sua malícia para as pessoas reais ao seu redor (família e vizinhos) e sua "benevolência" para causas abstratas (o "planeta" ou a "humanidade").
Grandes pautas globais, instrumentalizadas ideologicamente, geram uma falsa sensação de virtude: o indivíduo se sente “salvador do mundo” por uma hashtag, mas continua intolerante e espiritualmente vazio no dia a dia.
A decadência cultural, a perda do apreço pela alta cultura e a dependência do assistencialismo estatal ocorrem de forma gradual. O debate público torna-se raso e a população aceita a mediocridade dócil e confortavelmente.
Em suma,
o zeitgeist (espírito da nossa época) opera exatamente como o velho
diabo da Carta XII: oferecendo uma ladeira suave, pavimentada com
entretenimento estupidificante e brigas ideológicas triviais, para
que ninguém perceba para onde a sociedade está caminhando.
JC COUTINHO

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