26 de maio de 2026

TRABALHO NUM MUNDO DISTÓPICO


A discussão da jornada de trabalho, é um dos temas mais complexos e urgentes do nosso tempo, um debate que envolve economia, sociologia e tecnologia. A preocupação de que a redução da jornada de trabalho (como a transição da escala 6x1 para modelos como 5x2 ou 4x3) possa acelerar a automação é legítima e compartilhada por muitos economistas.

Para uma empresa, um robô ou uma Inteligência Artificial representa um custo fixo previsível. Eles operam em escala de 24/7 (24 horas, 7 dias por semana), não demandam encargos sociais, não sofrem de Burnout, não tiram férias, não adoecem, não fazem greves e não entram em litígios trabalhistas.

Quando o governo ou os sindicatos propõem reduzir a jornada de trabalho mantendo o mesmo salário, o custo da hora trabalhada do humano aumenta. Para o empresário, isso altera a equação de custo-benefício: investir em automação passa a ser financeiramente mais vantajoso mais cedo do que o esperado. Nesse cenário, focar apenas em reduzir dias de trabalho sem discutir a transição tecnológica pode, sim, acelerar a demissão de funções repetitivas.

Como bem destacada na obra de Yuval Harari (21 Lições Para Século 21 e Nexus), o perigo do século XXI não é o trabalhador ser explorado, mas ele se tornar economicamente irrelevante. Se no século XX a força de trabalho humana era o motor do capitalismo (o que dava poder de barganha aos trabalhadores por meio de greves), no século XXI, se as máquinas controlarem o cognitivo e o físico, o trabalhador perde o poder de negociar, porque ele simplesmente pode ser desligado sem que o sistema pare.

Trocar direitos por escalas? A sugestão de “negociar direitos trabalhistas em troca da mudança de escala” entra no campo das reformas flexibilizadoras. Se olharmos pelo prisma de Yuval Harari, a verdadeira solução não é apenas mexer na escala (6x1, 5x2 ou 4x3) ou cortar direitos, mas sim preparar a sociedade para o “choque da irrelevância”. Isso envolve políticas públicas que ainda engatinham no mundo todo:

Renda Básica Universal: Se os robôs gerarem toda a riqueza e os humanos não tiverem emprego, o Estado precisará taxar a automação (o famoso “imposto sobre robôs”) e distribuir uma renda mínima para que a população continue consumindo e sobrevivendo.

Requalificação em Massa: O foco dos governos deveria ser financiar a transição de carreira dos trabalhadores de funções repetitivas para funções que exigem empatia, criatividade e cuidado humano – áreas onde a IA ainda patina.

Em resumo: a mudança de escala pode, sim, ser um catalisador de demissões se feita de forma isolada e abrupta. Contudo, manter o trabalhador exausto em escalas severas apenas para “competir” com o custo de um robô é uma corrida que o ser humano inevitavelmente perderá. 

O desafio dos governos não é frear a máquina ou prender o trabalhador ao passado, mas redesenhar o contrato social para um futuro onde o trabalho, como o conhecemos, deixará de existir.

JC COUTINHO

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