A discussão da jornada de
trabalho, é um dos temas mais complexos e urgentes do nosso tempo,
um debate que envolve economia, sociologia e tecnologia. A
preocupação de que a redução da jornada de trabalho (como a
transição da escala 6x1 para modelos como 5x2 ou 4x3) possa
acelerar a automação é legítima e compartilhada por muitos
economistas.
Para uma empresa, um robô ou
uma Inteligência Artificial representa um custo fixo previsível.
Eles operam em escala de 24/7 (24 horas, 7 dias por semana), não
demandam encargos sociais, não sofrem de Burnout, não tiram férias,
não adoecem, não fazem greves e não entram em litígios
trabalhistas.
Quando o governo ou os
sindicatos propõem reduzir a jornada de trabalho mantendo o mesmo
salário, o custo da hora trabalhada do humano aumenta. Para o
empresário, isso altera a equação de custo-benefício: investir em
automação passa a ser financeiramente mais vantajoso mais cedo do
que o esperado. Nesse cenário, focar apenas em reduzir dias de
trabalho sem discutir a transição tecnológica pode, sim, acelerar
a demissão de funções repetitivas.
Como bem destacada na obra de
Yuval Harari (21 Lições Para Século 21 e Nexus), o perigo do
século XXI não é o trabalhador ser explorado, mas ele se tornar
economicamente irrelevante. Se no século XX a força de trabalho
humana era o motor do capitalismo (o que dava poder de barganha aos
trabalhadores por meio de greves), no século XXI, se as máquinas
controlarem o cognitivo e o físico, o trabalhador perde o poder de
negociar, porque ele simplesmente pode ser desligado sem que o
sistema pare.
Trocar direitos por escalas? A
sugestão de “negociar direitos trabalhistas em troca da mudança
de escala” entra no campo das reformas flexibilizadoras. Se
olharmos pelo prisma de Yuval Harari, a verdadeira solução não é
apenas mexer na escala (6x1, 5x2 ou 4x3) ou cortar direitos, mas sim
preparar a sociedade para o “choque da irrelevância”. Isso
envolve políticas públicas que ainda engatinham no mundo todo:
Renda Básica Universal: Se os
robôs gerarem toda a riqueza e os humanos não tiverem emprego, o
Estado precisará taxar a automação (o famoso “imposto sobre
robôs”) e distribuir uma renda mínima para que a população
continue consumindo e sobrevivendo.
Requalificação em Massa: O
foco dos governos deveria ser financiar a transição de carreira dos
trabalhadores de funções repetitivas para funções que exigem
empatia, criatividade e cuidado humano – áreas onde a IA ainda
patina.
Em resumo: a mudança de escala
pode, sim, ser um catalisador de demissões se feita de forma isolada
e abrupta. Contudo, manter o trabalhador exausto em escalas severas
apenas para “competir” com o custo de um robô é uma corrida que
o ser humano inevitavelmente perderá.
O desafio dos governos não é
frear a máquina ou prender o trabalhador ao passado, mas redesenhar
o contrato social para um futuro onde o trabalho, como o conhecemos,
deixará de existir.
JC COUTINHO

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