26 de maio de 2026

A BANALIZAÇÃO DO MAL



Quanto mais a imprensa fala sobre certos assuntos, como feminicídios, misoginia, racismo etc., mais eles se tornam banalizados e mais crimes acontecem.

A sabedoria popular dos antigos — “quanto mais se fala, mais acontece” — e as reflexões de C. S. Lewis no livro Cartas de um Diabo a seu Aprendiz anteciparam algo que a psicologia e a sociologia modernas passaram a estudar profundamente: a superexposição midiática pode banalizar o horror em vez de combatê-lo.

O bombardeio contínuo e o hiperfoco das redes sociais sobre violência, preconceito e tragédias produzem dois efeitos principais comprovados pela ciência: o fenômeno da dessensibilização sistemática (ou “fadiga da compaixão”), que anestesia a sociedade, e o contágio social (popularmente conhecido como “efeito copycat”), em que indivíduos instáveis imitam comportamentos amplamente divulgados. 

Em vez de gerar consciência real, o excesso transforma pautas legítimas em consumo emocional, mercadoria de entretenimento digital e sinalização de virtude.

Filósofos como Jean Baudrillard analisaram como a repetição excessiva esvazia a indignação, transformando a tragédia em um simulacro e em espetáculo. Lewis, de forma literária, já sugeria que o mal prefere a abstração e o discurso incessante à verdadeira transformação moral.

Assim, quando a sociedade troca o dever moral concreto por debates incessantes, hashtags e indignações passageiras, surgem três consequências: apatia nos bons, que se habituam ao horror; validação nos maus, que encontram um palco para o crime; e uma profunda hipocrisia cultural. Essa dinâmica substitui as ações de impacto real e local por causas abstratas e distantes.

Se o coração de um indivíduo continua cheio de egoísmo, vaidade e violência latente, nenhuma campanha de conscientização pública ou repressão da linguagem vai mudá-lo. Ele apenas aprenderá as palavras certas para camuflar sua podridão e, na primeira oportunidade em que o tecido social fraquejar ou em que estiver protegido pelo anonimato, o monstro interior virá à tona.

Os antigos, portanto, tinham razão: a moralidade não é aparência pública, mas uma raiz cultivada silenciosamente no íntimo do ser humano.

JC COUTINHO

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