1 de setembro de 2010

POR QUE A VIDA SURGIU NO UNIVERSO?

Acaso puro ou seleção natural cósmica? As idéias capazes de explicar por que estamos aqui ainda são chutes quase completos
por Texto Salvador Nogueira

Hoje em dia, a ciência se vangloria de saber, pelo menos em grandes pinceladas, como viemos parar aqui. Resumindo uma longa história, tudo começou com uma grande explosão que, 13,7 bilhões de anos atrás, deu origem ao Cosmos. Desse big-bang nasceram os elementos hidrogênio e hélio, que formaram as primeiras estrelas. Essas, por sua vez, produziram outros elementos, como carbono e oxigênio, indispensáveis para a formação de planetas como a Terra e pessoas como nós.
Em locais adequados (até agora só conhecemos com certeza um, o nosso próprio planeta), as moléculas formadas com os novos elementos foram adquirindo grau cada vez mais elevado de organização, gerando os primeiros seres vivos. Por seleção natural (a famosa “lei do mais apto”), essas criaturas foram evoluindo e, pelo menos em um lugar do Universo (possivelmente, em mais de um), desembocaram em seres inteligentes e capazes de deduzir toda essa história. Foi o que aconteceu aqui, nos últimos 4 bilhões de anos.
Bonito, né? Pena que essa historinha ainda esteja longe de realmente explicar a coisa toda. Isso porque todo mundo entende o que aconteceu para que o Universo acabasse produzindo vida, mas ninguém entende por que o Universo nasceu “configurado” para permitir todas essas maravilhas. Parece uma sorte tremendamente grande.
Aparentemente, nós só estamos aqui porque algumas regulagens específicas das leis da física – a intensidade da gravidade, ou o nível de atração entre elétrons e prótons, partículas que compõem os átomos – vieram “certinhas” para permitir a nossa existência. Quer exemplos? Se a gravidade fosse um pouco mais forte, as estrelas teriam vida muito curta e nunca haveria tempo hábil para a evolução das espécies; se fosse um pouco mais fraca, não seria capaz de agregar a massa em estrelas. E a atração mútua entre elétrons e prótons? Se fosse diferente do que é, não existiriam átomos estáveis.
CERTINHO DEMAIS: São parâmetros que, devidamente ajustados, tornaram o Universo um lugar habitável. A pergunta que não quer calar: quem ou o que fez essa “tunagem”, ou “regulagem” do Cosmos, lá no começo de todas as coisas?
Nem é preciso mencionar quem os religiosos acham que fez isso, certo? Acontece que os cientistas não seguem a mesma cartilha e, por isso, passam um aperto para explicar o mistério. A coisa anda tão feia que boa parte deles, incluindo Martin Rees e Stephen Hawking, responde à pergunta descartando-a. É o princípio antrópico.
Para os defensores do princípio antrópico, o suposto mistério não passa de mera conseqüência de estarmos aqui. Quando alguém pergunta por que o Universo é tão bom para nós, eles respondem que essa pergunta só pode existir em universos que são bons para nós. Se o Cosmos fosse diferente, e a vida inteligente fosse impossível pelas leis da física, ninguém faria essa pergunta. Ou seja, o grande enigma é apenas um sintoma de um Universo como o nosso, mas nada que exija grandes explicações. E eles seguem a vida.
Há quem se sinta intelectualmente desonesto com uma explicação mequetrefe dessas e prefira sofisticar um pouco o argumento. Em apoio ao princípio antrópico, esses cientistas defendem que é possível que existam infinitos universos, cada um com sua afinação diferente. O nosso não teria nada de especial, seria apenas mais um de uma gama de universos totalmente desligados uns dos outros, componentes de um Multiverso.
Se, de um lado, essa hipótese elimina por completo o caráter especial do Cosmos em que vivemos, de outro ela é completamente metafísica – um outro tipo de roubalheira intelectual, em que se usa de hipóteses não verificáveis para solucionar (entre aspas) um problema apresentado pela configuração do Universo. A única forma de dar legitimidade à hipótese do Multiverso é criar uma teoria que seja verificável em nosso Universo e explique como todos esses cosmos separados poderiam surgir. Foi o que o físico americano Lee Smolin acredita ter obtido. Sua inspiração, acredite se quiser, é o naturalista britânico Charles Darwin. Imagine por um momento que o nosso Universo, aparentemente tão sintonizado para produzir criaturas como nós, na verdade esteja sintonizado para produzir o maior número possível de buracos negros. Sim, buracos negros.
REPRODUÇÃO CÓSMICA: Smolin aponta, em seu livro A Vida do Cosmos, que existe grande coincidência entre as “necessidades” que tem um Universo para produzir muitos buracos negros (ou seja, estrelas muito grandes, que implodem de forma tão violenta que nada consegue escapar de seu interior, nem mesmo a luz) e as “necessidades” ligadas a produzir pessoas – como o surgimento de elementos químicos mais pesados, por exemplo.Agora vá um pouco mais longe e imagine que cada buraco negro (definido, pela Teoria da Relatividade Geral, como um literal rombo no tecido do espaço-tempo) pode dar origem a um outro Universo, independente do que o gerou. E o toque final: imagine que esses universos-bebês, de alguma maneira, carregam o “DNA” (ou seja, a regulagem) dos universos que os geraram, apenas um pouco modificados.
Pronto, está armado o circo para o surgimento de um Multiverso governado pela seleção natural – ou melhor, pela “seleção cosmológica natural”, como coloca Lee Smolin.
Assim como seres vivos que se reproduzem com mais eficiência conservam suas características ao longo dos tempos, universos mais capazes de se multiplicar teriam o mesmo efeito. Logo, em pouco tempo, os universos com o potencial para criar mais buracos negros – e, coincidentemente, pessoas – estariam em número muito maior que os que têm poucos “filhos”. Resultado: torna-se, de súbito, muito mais provável que estejamos em um Universo como o nosso, em vez de em qualquer outro menos prolífico, digamos.
E como testar a idéia? Smolin dá uma série de sugestões, tanto teóricas quanto práticas. Na teoria, é possível simplesmente manipular a “tunagem” do Universo nas equações e tentar produzir um Cosmos hipotético mais propenso a formar buracos negros que o nosso. Se conseguíssemos, a hipótese de Smolin sairia enfraquecida. Mas ninguém conseguiu fazer isso ainda.
Na prática, é possível investir em detectores de ondas gravitacionais capazes de estudar os ecos do próprio big-bang, na esperança de encontrar neles sinais do que pode ter existido antes (quiçá um buraco negro em outro universo?) e de como o suposto “DNA” de universos pode ter sido transmitido, com poucas alterações, de um universo a outro durante trilhões de anos.
Fácil falar, mas difícil fazer. Até hoje, a despeito das tentativas, ninguém conseguiu detectar uma onda gravitacional, por mais que tentasse. Mas detectores têm sido construídos no mundo todo – inclusive no Brasil. O que faz crer que talvez a resposta ao maior dos enigmas da ciência possa ser encontrada algum dia. Ou não.
FÓRMULA VITAL: Temos uma idéia razoavelmente boa da receita para o surgimento de seres vivos como os terrestres Universo afora. O carbono (C) é importante por sua versatilidade química, assim como o nitrogênio (N). O oxigênio (O) produz energia de forma insuperável, e a água é o meio ideal para o metabolismo celular.
Desde os primórdios até hoje em dia
Confira os principais passos da evolução cósmica que culminou com a vida por aqui
Big-bang: As teorias atuais falam do big-bang como um ponto de singularidade – ou seja, um momento em que as leis da física são tão violentadas pelo calor e pressão que deixam de valer. Por isso, é dificílimo estudar a grande explosão.
Primeiras estrelas: Cerca de 400 milhões de anos após o big-bang, a ação da gravidade começa a juntar grandes massas do elemento químico hidrogênio para formar estrelas. A fusão nuclear no interior desses astros produz novos elementos.
Primeiras galáxias: Não se sabe ao certo como as estrelas primordiais se juntaram em estruturas de maior escala, as galáxias. Esses conjuntos, contudo, dão início a uma espécie de ambiente estelar, no qual energia e matéria circulam sem parar.
Vida na Terra: Os primeiros indícios de seres vivos por aqui são minerais modificados pela ação de micróbios há uns 4 bilhões de anos. A vida complexa tem só um quarto dessa idade, tendo aparecido entre 1 bilhão e 600 milhões de anos atrás.
FONTE: Superinteressante nº 253a, junho/2008

POR QUE TEMOS FÉ?

Para sobreviver, precisamos obter informações realistas e confiáveis sobre o mundo e não aceitar nada sem provas. Então, de que serve crer?
por Reinaldo José Lopes

Nosso cérebro e nossos órgãos dos sentidos estão maravilhosamente adaptados para extrair informações do mundo, mas há ocasiões em que esses dados objetivos são simplesmente ignorados. Por alguma razão, estamos dispostos a acreditar em seres sobrenaturais que não podemos ver ou tocar; sentimos que a morte não é o fim e que, de certo modo, as pessoas amadas que passaram por ela ainda pensam em nós. É o mistério que deu origem à fé em geral e a todas as reli-giões do mundo. Sozinha, a ciência não tem como provar ou desmentir essa intuição. O que ela pode fazer é tentar entender por que a fé humana surgiu. Hoje, existem duas grandes propostas para explicar o fenômeno. Entenda abaixo os pontos fortes e fracos de cada uma delas.
VANTAGEM ADAPTATIVA: Biólogos como o americano David Sloan Wilson apostam que a fé religiosa pode trazer benefícios diretos a quem a tem. O principal benefício seria aumentar as chances de sobrevivência e reprodução dos indivíduos com fé em detrimento dos indivíduos sem fé. Ou seja, quem é capaz de acreditar sairia ganhando na seleção natural, de forma que, ao longo de milhares de anos, a capacidade para a crença no sobrenatural se espalharia por boa parte da população.
As vantagens potenciais são muitas. Do ponto de vista do indivíduo, a fé poderia ser um recurso interessante diante de uma doença ou um ferimento grave, digamos. Afinal, acreditar que a cura é possível ajuda um bocado na recuperação em quase todos os problemas de saúde. Práticas como a adivinhação feita por sacerdotes, após consulta aos deuses, ajudaria o grupo a não ficar paralisado e indeciso diante de uma crise muito complicada. Além disso, não é à toa que, ao longo da história, quase todos os exércitos partiam para a guerra depois de pedir a proteção divina. Acreditar que forças sobrenaturais estão do seu lado deu coragem e coesão a guerreiros em todas as culturas e em todos os tempos. Quem não tivesse esse poderoso reforço moral combatendo junto corria um risco maior de ser derrotado ou de desistir da batalha antes mesmo de ela começar.
O problema com essa visão é que ela é controversa para os próprios biólogos. Ela pressupõe que, de alguma forma, a seleção natural age sobre grupos inteiros de pessoas, embora o consenso a-tual seja que tal mecanismo promove apenas indivíduos, que sempre estão competindo com outros indivíduos – mesmo que eles sejam seus aliados.
EFEITO COLATERAL: Também pode ser que acreditar no invisível seja só um subproduto relativamente inútil da própria organização da nossa mente. Um dos principais defensores da idéia é Justin Barrett, psicólogo da Universidade de Oxford que propôs o conceito de HADD (sigla inglesa de “aparelho hiperativo de detecção de agente”). A idéia básica por trás do termo é que nossa cabeça está adaptada para detectar “agentes” – outros seres do mundo lá fora que, como nós, têm interesses e desejos.
Essa capacidade é essencial para encontrar entidades que todos desejamos, como presas ou parceiros, ou para fugir de seres que nos põem em risco, como predadores e competidores. E também é importantíssima para a vida social: sem ela, não conseguiríamos imaginar o que uma pessoa está pensando e, se for o caso, antecipar as ações dela. O problema é que, para não deixar passar sinais potencialmente importantes de “agentes” externos, esse detector precisaria ser regulado no máximo – daí a qualificação de “hiperativo” dada a ele.
Dessa forma, estaríamos fadados a enxergar pensamentos, desejos e vontades em coisas como um computador, um carro – ou a chuva, ou o Sol. Não é difícil imaginar como isso poderia levar à crença em entidades sobrenaturais por trás desses fenômenos, ou na sobrevivência do espírito de uma pessoa após a morte. Outro elemento, nesse caso, seria a incapacidade de conceber a nossa própria não-existência – logo, algo “teria” de sobrar depois da morte. Desse ponto de vista, nosso cérebro dificilmente funcionaria direito sem a presença desse efeito colateral quase fantasmagórico.
15% da população mundial se declarou “não religiosa” numa pesquisa recente. Mais de 50% diz acreditar num só Deus.
FONTE: Superinteressante nº 253a, junho/2008

30 de julho de 2010

O CALCANHAR DE AQUILES


De todas os problemas enfrentados pela Prefeitura de Rio Grande, o trânsito parece ser “o calcanhar de aquiles”. No entanto, é um obstáculo que ela não pode se esquivar. Se na Saúde, Educação e Segurança, ela diz que a responsabilidade é, igualmente, do Governo Federal e/ou Estadual, no trânsito não tem desculpas. O trânsito em Rio Grande, combinado com as precárias vias de tráfego do município, tem gerado descontentamento à população. Passado o período do “milagre rio-grandino” – do asfaltamento e ajardinamento das ruas, parece que se esqueceram do bem-estar da população. Apesar de termos um Superporto, um Pólo Naval, um Dique Seco, um dos maiores PIBs do estado, um dos maiores Orçamentos do estado, um dos maiores ICMS do estado e uma das maiores arrecadações federais, de nada adianta tudo isso, se não melhorarmos a qualidade de vida da população, com mais empregos, mais habitações, melhores escolas, mais hospitais, melhores salários e mais inclusão social

O que vemos são reclamações a todo o momento (o povo está insatisfeito): do estacionamento rotativo, do transporte integrado, dos ônibus, dos acidentes de trânsito, dos esgotos a céu aberto, do atendimento na saúde, da violência, da falta de moradias, do calçamento precário e do recolhimento de lixo. Uma atenção especial merece os bairros e vilas da cidade, que com suas ruas intransitáveis, quando chove, é um verdadeiro lamaçal. O Cassino, lembrado e enaltecido no verão, tem convivido ininterruptamente com esse caos. As ruas esburacadas, sem pavimentação, com a chuva, viram uma verdadeira “estrada do inferno”. Recentemente um Vereador desafiou as Autoridades Municipais a transitarem por meia hora nas ruas esburacadas do Cassino, com uma velocidade constante de 30 a 40 Km/hora, e chegarem ao destino com o automóvel inteiro. É um absurdo, porque não calçam mais umas 10 (dez) ruas (de ponta a ponta), em ambas as direções? 


Apesar de muitas coisas boas já terem sido efetuadas, são sempre acanhadas e singelas para o potencial do município. São sempre soluções paliativas, na base do “quebra galho”. E olha que não temos, a exemplo de muitas cidades da serra, com bem menos recursos, grandes obras urbanas, passarelas, túneis, pontes, viadutos, calçamento/esfaltamento e saneamento em toda a cidade. A solução definitiva, a longo prazo, a exemplo do que outras cidades fizeram, é a construção de um novo centro da cidade (novo bairro), arquitetado com projetos urbanos que levem em consideração o futuro crescimento da região. Um novo centro da cidade, com menos poluição, com projetos socioeconômicos, urbanísticos, culturais e ambientais, que tragam mobilidade urbana e conforto para a população. Para isso, precisamos de um Prefeito visionário, que pense no presente e no futuro. Que deixe um legado de transformações às futuras gerações.

5 de julho de 2010

FUTILIDADES (NÃO TÃO FÚTEIS)

SEXO DO BEBÊ: Num estudo empírico, que ainda não se obteve uma explicação racional, constata-se que toda a vez que um casal possuir as duas primeiras crianças do mesmo sexo, a terceira, quase com certeza, nascerá com o mesmo sexo. Assim, para os mesmos pais, se o primeiro e o segundo nascerem meninas (ou meninos), a terceira criança provavelmente nascerá menina (ou menino). Não existe uma explicação lógica. A única anotação que se pode fazer é de um provérbio árabe que diz: “Tudo o que acontece uma vez pode nunca mais acontecer, mas tudo o que acontece duas vezes, acontecerá certamente uma terceira”
MAIOR PAIXÃO: Entre as paixões humanas, o futebol é seguramente a maior de todas. É mais vigorosa que a paixão erótica, religiosa, política ou matrimonial. É uma força capaz de superar limitações biológicas e, até mesmo, de suplantar as barreiras da conduta humana. Há pessoas que mudam de religião; de partidos políticos; de parceiros ou de casamento. Há até alguns que mudam de sexo ou opção sexual. Mas praticamente inexistem os que trocam de clube de futebol. Um gremista jamais se converterá em colorado. Um colorado jamais se tornará gremista. A idolatria ao futebol é a mais irracional de todas as paixões. Enquanto as religiões prometem a vida eterna e os políticos o bem-estar da população, o futebol promete, como numa guerra, a vitória sobre os adversários. E o prazer não é simplesmente vencer, é também poder ver os adversários sofrerem.
QUANDO TROCAR DE CARRO: Carro não é investimento (é custo). Em decorrência da depreciação/desvalorização, pode valer a pena usar o carro por quatro, cinco ou mesmo seis anos. Como a perda de ano para ano é cada vez menor, manter o automóvel usado significa um gasto a menos que facilitará em muito a próxima troca. Em geral, o carro sofre maior desvalorização, entre 20% e 30%, no primeiro ano. Um fator que influencia essa queda abrupta é o lançamento de modelos novos, com preços mais altos. A desvalorização se reduz e praticamente se estabiliza a partir do quarto ano, com um índice anual inferior a 10%. Outro fator importante é que a cada troca o revendedor valoriza o carro que ele está vendendo e deprecia o que está comprando de você (ganha na venda e na compra). Assim, quanto mais trocas, maior o prejuízo.
EXEMPLO 1 - GOL CITY (TREND) 1.0 MI (base tabela FIPE)
a) gastos com a troca no 6º ano = R$ 59.865,00
b) gastos com troca de ano em ano = R$ 90.675,00
EXEMPLO 2 - MEGANE EXPRESSION HI-FLEX 1.6 (base tabela FIPE)
a) gastos com a troca no 6º ano = R$ 112.361,00
b) gastos com a troca de ano em ano = R$ 170.925,00
*foram considerados: taxas, seguros, manutenção, desvalorização, licenciamentos e IPVAs.

17 de junho de 2010

POR DENTRO DAS VIDAS PASSADAS

A terapia de vidas passadas foi utilizada inicialmente para descobrir, por meio da hipnose, os possíveis traumas psíquicos sofridos no passado, tanto na infância como em pressupostas vidas passadas. O objetivo de tal terapia era levar o paciente a reviver esses traumas. Devemos esclarecer que a psicoterapia clinica atual não aceita mais esse método de trabalho. Essa é a razão pela qual a terapia de vidas passadas está sendo rejeitada pelos representantes da psicoterapia científica.
As afirmações são em grande parte apriorísticas, baseadas num tipo de crença totalmente superficial em relação a fenômenos claramente fora do quadro daquilo que podemos considerar verdadeiro. São provas circulares que supõem aquilo que querer provar.
Os adeptos da reencarnação, no entanto, insistem na eficiência de seus métodos. Constatamos, além disso, que cada vez o grande público está assimilando esse método como aquele que é, por excelência, capaz de investigar e fazer descobertas sobre suas vidas anteriores. A conseqüência de tudo isso é que hoje há milhares de pessoas que se querem submeter a uma “regressão”, não por razões terapêuticas, mas por curiosidade. Todos esses candidatos querem no fundo confirmar por meio de suas experiências aquilo em que já acreditam em maior ou menor escala: a reencarnação.
A fé na doutrina age de modo como uma forte predisposição a receber sugestões do terapeuta. Tais sugestões podem ser feitas por métodos tanto hipnóticos como não-hipnóticos – o resultado é o mesmo. O paciente deixa-se conduzir pelas orientações do terapeuta de tal maneira que começa a fazer associações livres. Essas associações são dirigidas cada vez mais na direção de uma regressão antes do nascimento. Passo a passo, o terapeuta pede ou exige recordações pré-natais, e o paciente, em estado de transe ou pré-transe, deixa-se conduzir pelas sugestões e, de fato, chega a tais recordações, descobrindo lembranças até então esquecidas, bem como experiências feitas em outras vidas. Por meio dessas associações finalmente o paciente descreve experiências vividas. Com isso teríamos a prova da existência de vidas passadas e conseqüentemente a prova de que a reencarnação existe. A terapia de vidas passadas torna-se assim, para muitos, o argumento mais convincente para provar a reencarnação.
O pesquisador Ian Stevenson, adepto a priori da reencarnação, reconhece, depois da análise minuciosa de muitos casos de regressão, que a maioria das recordações apresentadas em tais processos não são reais, mas produto da fantasia. 
As recordações extraordinárias não passam do resultado da situação específica vivenciada pela pessoa sob efeito de sugestão, o que faz entrar em transe ou pré-transe. Por meio de técnicas específicas, o terapeuta a conduz pelos caminhos da sugestão e do reforço sugestivo. Ele determina as regras e dirige as associações, exercendo um domínio que se torna tão mais decisivo quanto mais o paciente se sentir inseguro. E, por se sentir inseguro, busca segurança no terapeuta. A aceitação daquilo que lhe está sendo sugerido não passa mais por um processo crítico de reflexão. Trata-se muito mais da expressão de algo resultante de um laço emocional dentro do qual o terapeuta é aceito como guru e mestre.
Quando o paciente se sente seguro, entra numa espécie de conflito por não ser sugestionado pelo terapeuta. Ainda que ele queira responder ao que o mestre dele deseja, não pode, porque não há recordação nenhuma de vida passada. O mestre, porém, insiste em que ele busque tal recordação. È nessa situação que o paciente desenvolve aquele tipo de atitude que na psicologia conhecemos sob o nome de confabulação ou fabulação. 
O manual de psiquiatria de Antoine Porot define o termo fabulação da seguinte maneira: Nome dado a fatos imaginários que se apresentam na forma de relato mais ou menos coordenados em torno de um tema principal, resultante de uma “compensação imaginativa” de complexos de inferioridade ou fracassos afetivos, seguidos de rejeição. Constrói-se um enredo que, mais tarde, conforme a complexidade espiritual e as tendências da pessoa, pode produzir estados delirantes ou imaginários.
Mediante tal fabulação, o paciente, sob sugestão de que está regredindo a vidas passadas, substitui a sua falta de experiência real de vidas passadas pelo produto de sua imaginação. Faz parte do fenômeno da fabulação que a pessoa que o produz comece a acreditar naquilo que fantasiou, defendendo suas convicções de maneira tão convincente que em outras situações chegam a levar a erros judiciários. 
No fundo, porém, é a correlação entre o paciente e o seu “terapeuta” que determina a construção da fabulação. Baseada em alguns elementos típicos da situação, o terapeuta induz o paciente a fazer associações, sugerindo que tais elementos têm um significado especial. O paciente aceita a sugestão, reforçada e recompensada pelo terapeuta, de modo que se desenvolve todo um esquema de sugestão e auto-sugestão capaz de convencer o paciente, o terapeuta e todos os que acreditam na teoria a aceitá-la como verdade inquestionável.
Hansjörg Hemminger, depois de analisar os mecanismos de transe e sugestão aplicados nas terapias de regressão, assim como os seus resultados, chega à seguinte conclusão sobre a veracidade dos relatos sobre vidas passadas: Em geral faltam casos documentados de maneira convincente. Muitos dos detalhes (em geral históricos) são impressionantes e até coerentes, mas não é possível prová-los. Muitos são claramente improváveis; outros, embora pareçam prováveis, são falsos. O leitor e observador sem preconceitos chegará à conclusão de que as supostas recordações de reencarnações refletem em geral todo o imaginário que povoa a mente do cidadão comum. 
Wisendanger, psicólogo que pesquisou de maneira profunda e científica a terapia da reencarnação, resume a questão da seguinte maneira: Disparidades e contradições evidentes, erros fáceis de serem demonstrados representam a regra, e não a exceção, até mesmo em regressões aparentemente bem-sucedidas. Ocorre que vários clientes se vêem identificados com a mesma figura histórica; também ocorreu de um regredido descobrir em sessões distintas várias vidas distintas, vividas na mesma época; outras vezes ocorre de alguém identificar o seu eu com uma pessoa ainda viva; são relatados fatos sobre descobertas técnicas que ainda não existiam na época que o acontecimento se situa. Há pessoas regredidas que contradizem fatos históricos conhecidos, mencionam lugares, países e pessoas fictícias e produzem de maneira convincente dados históricos falsos. Entre dúzias de volumosos relatos editados por terapeutas reencarnacionistas há três décadas, não conheço nenhum que admitiria tais problemas nem numa nota ao pé de página.
Não há dúvida de que, por meio das propaladas terapias de vidas passadas, é também possível descobrir fatos verdadeiros sobre os quais a pessoa hipnotizada não podia saber.
Harald Wiesendanger menciona que numa regressão em vidas passadas com centenas de crianças e adultos, 40% dessas, apresentavam lembranças reencarnacionistas de vidas passadas. Pesquisando essas lembranças de maneira crítica com a ajuda da hipnose, ele descobriu o seguinte: Com habilidade, muitos dos “regredidos” tinham reunido fragmentos de informações procedentes de livros, filmes e acontecimentos de sua vida atual.
Baseado no livro “A morte em questão” de Renold J. Blank.

21 de maio de 2010

MENSAGEM DO CRIADOR

Quem pensa que me conhece, não conhece nada de mim. Conhece o que idealizaram de mim, as imagens que construíram, ao longo do tempo, através de suas dúvidas e anseios. Criaram fábulas, mitos e religiões; administradores de consciências e de almas. Criaram deuses. São esses sagazes que formam os conceitos do bem e do mal, são eles que impõem seus anseios, suas idéias e seus pensamentos. São eles que articulam que existe uma alma que reencarna usando corpos distintos até chegar a uma vida perfeita. Quanta farsa, quanta hipocrisia. E vós que vos deixais enganar tão facilmente, talvez tenhais interesse em crer naquilo que vos dizem, não importando se é verdadeiro ou falso, não importando se é incoerente. Só vos importais em ser únicos, especiais e semelhantes a um criador. Só vos preocupais em alcançar a vida eterna, em ser um espírito de luz. 

Talvez a idéia de um ser superior vos agrade porque vos dá a sensação de que existe alguém controlando vosso mundo inconsciente e irracional, o que vos acalma e vos faz acreditar que existe uma finalidade mesmo que não entendais qual é. 

Muitos de vós imaginais que sou alguém, outros imaginam que sou algo. Muitos de vós imaginais que sou tudo, outros que sou nada. Quem está correto? Se não vos entendeis, não podereis achar respostas. O nada é tão incompreensível quanto o tudo. Se assumirdes que algo criou tudo, caireis em uma regressão infinita: quem criou o algo que criou o tudo? 

Como podereis entender o que existia antes de tudo existir? Se disserdes que nada existia antes de tudo, estareis assumindo a existência de nada, o que implicitamente assume a existência de um tudo que lhe é contrário. O Universo, admitindo que o criei, a questão que se levanta é, de que o criei? Certamente ele não foi feito do nada. Nada sendo considerado matéria prima é muito falho. Conclui-se que construí o Universo de mim mesmo, sendo eu a única existência. Ora, o Universo é material e, se ele foi feito por mim, eu tinha de ser material e, se ele foi feito de mim, eu tinha também de ser material. Um de vossos aforismos diz: o que fazia o criador antes de criar o Universo? Eu não sei, mas acho que a resposta pode ser dada por quem me criou. Todos me concebem como eterno, imutável, imaterial, único, onipotente, justo e bom. Estão incorretos, apesar disso, sei que é difícil provar a existência ou inexistência de algo que inexiste, algo que só existe em vossas mentes, que foi imaginado, criado, de acordo com vossos anseios e descontentamentos. 

Dizeis que sou infinitamente inteligente. Se sou, então não penso. Pensamento é um processo pelo qual atingimos uma conclusão. Aquele que já sabe todas as conclusões, não pensa. Quando o conhecimento é perfeito não pode haver paixão, nem emoção. Dizeis que sou um infinitamente bondoso. No mundo há muito sofrimento; se eu, que poderia tirá-lo, não o tiro, onde fica minha bondade? Logo, eu não sou onipotente ou não sou bom. De qualquer modo, fico desacreditado. 

Dizeis que sou um ser pessoal. Um ser pessoal, de acordo com vossa crença, tem o livre-arbítrio, ou seja, o exercício livre e consciente da capacidade de discernir, escolher e julgar. Isso significa que antes de fazer uma escolha, deve haver um estado de incerteza durante o período de possibilidades: não pode saber o futuro. Se eu, como infinitamente inteligente, sei tudo, não pode existir um estado de incerteza. Isso significa que não tenho a liberdade de evitar as escolhas, portanto não possuo o livrearbítrio. Já que um ser que não possui o livre-arbítrio não é um ser pessoal, um ser pessoal que sabe tudo não pode existir. Com esses e tantos outros axiomas existentes, podeis perceber que não há saída para mim. Nem eu sei que sou! Se não tomo decisões, pois não penso, como fica minha justiça? Se não tenho sentimentos, pois sou perfeito, como fica a minha bondade? Se posso evitar injustiças, crueldades, calamidades, sofrimento e não evito, como fica a minha reputação. Assim, se não penso, se não tomo decisões, se sou indiferente ao amor ou ódio, se sou indiferente à justiça ou injustiça. Se sou essencialmente neutro, para que existo? 

Deus, dizia Albert Einstein, é a Lei. A Lei funciona automaticamente. Não tem nada a ver com um deus pessoal ou com um deus emocional, que se possa irritar. Na Lei não há amor nem ódio. Justiça ou injustiça. A Lei é essencialmente neutra. Quem se harmoniza com a Lei, goza, que se opõe à Lei, sofre. 

JC Coutinho

MISTICISMO

Se existe algo em mim que pode ser chamado de místico, esse algo é a admiração ilimitada pela estrutura do mundo tão longínqua quanto a nossa ciência pode revelar. O mistério da vida me causa a mais forte emoção. É o sentimento que suscita a beleza e a verdade, cria a arte e a ciência”. (Albert Einstein)  

Existem na internet milhares de sites e e-mails com crendices, boatos e lendas urbanas que sempre encontram alguém crédulo o bastante para acreditar nelas e as espalhá-las aos quatro ventos. Nesse mundo imaginário de fantasmas, anjos, bruxas, demônios, duendes, fadas, gnomos, videntes, curandeiros, auras, encostos, mandingas e discos voadores, nosso desejo em crer no extraordinário é alimentado. As paixões humanas que mais contribuem para este caminho são o medo e a esperança. A morte, a doença e a paixão abalam profundamente as pessoas, chegando a ponto de perderem a razão e o juízo. 

No princípio seus seguidores tentam vincular suas idéias à ciência. São as pseudociências (falsas ciências). Depois que não são acobertados por ela, passam a odiar a idéia de conviver com suas explicações sobrenaturais sem a validação da ciência. Então passam a dizer que ela pouco se importa com esses acontecimentos; que é conspiratória; que é fria; que não tem uma visão holística do Universo. Eles abominam a idéia de que a ciência pouco se importa com os fenômenos místicos. E para comprovar suas “teorias”, como “prova”, passam a se utilizar de relatos ou testemunhos. Entretanto, suas alegações são impossíveis de serem testadas, porque se baseiam em experimentos que só podem ser observados ou sentidos por aqueles que neles acreditam – “se já é difícil provar a existência de algo que existe, imagine provar a inexistência de algo que inexiste”. 

Nesse imaginário, aproveitando-se das circunstâncias, entram em ação os videntes, hábeis manipuladores que jogam com o medo e a esperança das vítimas, as quais raramente percebem quão habilmente são iludidas e manipuladas. De um lado, um “cliente” fragilizado e sincero, que perdeu a fé na sua fé. Do outro lado, um “profissional” com um vasto conhecimento de uma tradição milenar, ardiloso, que usa a “leitura fria” como método. 

Leitura Fria é uma estratégia usada por manipuladores para fazer com que uma pessoa se comporte de uma certa forma, ou a pensar que os que fazem a leitura têm algum tipo de capacidade especial que “misteriosamente” permite que saibam coisas sobre um acontecimento. O manipulador faz uma meticulosa observação da vítima e utiliza também conhecimentos estatísticos e gerais da natureza humana.  Começa a interagir com a vítima, fala o óbvio de um modo enigmático ou interrogativo e observa cuidadosamente a reação da pessoa (“joga verde”): você está deprimida! alguém a deixa muito infeliz... E a vítima prontamente responde: é meu filho! Começa falando sobre generalidades e em pouco tempo já está adivinhando detalhes íntimos da vítima. Na verdade é a vítima quem está revelando tudo, o vidente apenas traduz a linguagem em um português nem sempre bem claro. Fazendo perguntas vagas e obtendo respostas sinceras, conseguirá ao final dar um veredicto do caso.

VEREDICTO: Conforme sua formação espiritual dirá que é: o carma; um feitiço; o demônio; um encosto, etc.  

TRATAMENTO: Conforme sua formação espiritual recomendará: um trabalho espiritual; um desmancha feitiço; um exorcismo; uma unção; muita reza; um desencosto.   

OBSERVAÇÃO: Seja qual for o tratamento a ser seguido, o vidente solicitará que prossiga com o tratamento médico prescrito (é indispensável). Assim, se o paciente tiver o sucesso desejado, ficará em dúvida se foi a medicina ou a quiromancia quem o curou. Se o tratamento for de difícil solução, solicitará mais “trabalhos” e mais rezas. Se não tiver a solução esperada, dirá que é ou foi o karma; um feitiço bem feito; que a vida assim quer ou quis; que é ou era seu destino; e assim por diante. 

POR QUE OS “TRATAMENTOS” PARECEM FUNCIONAR: Muitos métodos dúbios permanecem no mercado principalmente porque satisfazem consumidores que oferecem testemunhos de seu valor. A seguir algumas razões pelas quais as pessoas podem erroneamente concluir que um tratamento ineficaz funciona:  

1) A doença pode ter seguido seu curso natural; 
2) Muitas doenças são cíclicas; 
3) O efeito placebo pode ser o responsável; 
4)  O diagnóstico ou prognóstico original pode ter sido incorreto; 
5) Melhora temporária do humor pode ser confundida com cura.   

Nunca acredite em testemunhos, não são prova! Se alguém alega ver, ouvir ou sentir entidades irreais, creia: está tendo devaneios. O antídoto para essas crenças místicas é aquilo que todas elas no fundo combatem: a razão. No dizer de Sêneca:  “Se queres submeter tudo a ti mesmo, submete-te primeiro à razão”. 

Além do mais, para que procurar um intermediário (quiromante) se Deus é onisciência, onipotência, onipresença e benevolência? 

JC Coutinho

28 de abril de 2010

JULGAMENTO MORAL X REPULSA EMOCIONAL

Quando se fala em aborto, sempre recorremos a argumentos morais, religiosos e do direito à vida do feto ou embrião. Nesse assunto, como em muitos outros, as discussões não têm fim. Por sermos produtos do meio social, de seus costumes e de sua cultura - um misto de herança genética, de bagagem psicológica adquirida ao longo da vida, de experiências e de formação, possuímos cada um, nossas crenças e convicções.

Mesmo quando o assunto é levado para o âmbito da ciência “bio” (o que é vida?), os profissionais, cientistas, também estão parasitados por preconceitos, plantados ao longo do tempo, por processos educacionais ou ideológicos viciantes. Eles também têm bandeiras a defender, ideologias pelas quais lutar, e crenças.

Deste modo, como ininterruptamente vai haver argumentos “pelo aborto” e “contra o aborto”, bem elaborados e convincentes, acho que um assunto dessa dimensão deveria ser decidido por PLEBISCITO.

Para ilustrar, anexo o texto de Mario Barbatti - IQ-UFRJ (doutor em física): “As pessoas normalmente não fazem julgamentos morais baseados em princípios filosóficos abstratos como “o feto tem direito à vida”, mas baseados em percepções muito mais básicas e intuitivas de responsabilidade, intencionalidade e risco associadas ao ato de abortar. A repulsa emocional (ou a ausência dela) é desenvolvida num segundo estágio do julgamento moral e pode eventualmente ser legitimada com princípios filosóficos abstratos.

Considere os dois cenários a seguir:

1. Uma mulher, grávida de poucas semanas, está descendo as escadas de sua casa, quando acidentalmente tropeça e cai. Ela não se machuca seriamente, mas o feto é abortado devido à queda.

2. Uma mulher, levando seu filho recém-nascido no colo, está descendo as escadas de suas casa, quando acidentalmente tropeça e cai. Ela não se machuca seriamente, mas a criança morre devido à queda.

Os dois cenários são trágicos e despertam compaixão. Mas o segundo, com a morte do recém-nascido, desperta emoções muito mais fortes. Os dois cenários contém os mesmos sujeitos (mãe e filho), com os mesmos fatos (queda acidental), e mesmas conseqüências (morte do filho), mas mesmo assim são percebidos de forma diferente. O segundo cenário é percebido como terrível, não importando a idade da criança, dois meses ou dois anos. Isto significa que existe uma diferença qualitativa na percepção emocional que as pessoas têm do feto e da criança.

Estes dois cenários não implicaram em julgamento moral, porque o fato determinante (queda) foi acidental. Se eles fossem modificados de forma que no lugar de “quando acidentalmente tropeça e cai” para “quando propositalmente se joga escada abaixo”, imediatamente começaríamos a julgá-lo moralmente. Neste caso, provavelmente a maioria das pessoas elevaria o status do feto para algo próximo do da criança.

Cerca da metade dos óvulos fecundados são abortados espontaneamente nas primeiras semanas da gravidez. Se o feto fosse constantemente percebido como uma criança, seria natural que todos estes casos que hoje ou passam despercebidos ou são motivo de um modesto pesar, tivessem o peso da morte de uma criança real, com choro, luto, funeral, missa de sétimo dia e registro policial. Mas nem os mais enfáticos pró-vida chegam a tal ponto. O fato de ser espontâneo livra a mulher da acusação de intenção, tal como na distinção entre culpa e dolo. Mas toda a ritualização que segue à terrível situação da morte de uma criança deveria ser seguida, independentemente da intenção da mãe. Se o feto é uma criança, ele mereceria isto. Por que não se adotam tais práticas?

Porque, de novo, nestes casos o que está realmente em julgamento moral não é se o feto é ou não um ser com direito a vida. O que está sendo julgado é a intencionalidade do ato de abortar. Novamente deve existir um deslocamento psicológico na percepção que as pessoas têm do feto, mas agora dependendo da intencionalidade do ato do aborto. Se o aborto é intencional, o feto pode ser percebido como criança. Num aborto espontâneo, provavelmente não.

O principal aspecto que espero ter chamado a atenção neste texto é que julgamentos morais se dão numa base muito diferente das clássicas discussões da filosofia moral, que tratam o julgamento moral como abstrato, racional e imaterial. Julgamentos morais são sempre realizados por seres humanos em contextos culturais específicos e condicionados por uma longa história evolutiva.”

ABORTOS LEGAIS: Aproximadamente 44 milhões ao ano, praticados principalmente nos EUA, Canadá, quase toda a Europa e boa parte da Ásia.

ABORTOS CLANDESTINOS: Aproximadamente 15 milhões ao ano, com cerca de 4 milhões na América Latina, onde eles são responsáveis por 30% dos óbitos maternos.

MORTALIDADE MATERNA: Aproximadamente 500.000 mil mortes maternas anuais, com cerca de 99% nos países em desenvolvimento.

LEGALIZAÇÃO: A legalidade do procedimento tem grande repercussão sobre o índice de mortalidade materna. Na Romênia, por exemplo, onde o aborto foi proibido em 1966, a mortalidade materna subiu de 22 para 128 mortes por 100.000 nascidos vivos.

NO BRASIL: Morrem entre 400 a 1.095 mulheres por dia, vítimas de complicações decorrentes de um aborto clandestino malfeito. São a cada hora entre 17 a 46 mortes, que correspondem a 10% dos abortos praticados. Metade são adolescentes.

CUSTO DO PROCEDIMENTO: Entre R$ 400,00 a R$ 5.000,00 nas clínicas clandestinas bem equipadas e com assepsias.

RENTABILIDADE: É um negócio ilícito que só perde para o tráfico de drogas e o jogo do bicho, movimenta em torno de U$ 100.000.000,00, só no Rio de Janeiro.

LEGAL X ILEGAL: Em proporção à população de mulheres em idade fértil, se realizam no Brasil sete vezes mais abortos que na Holanda, três vezes mais que no Canadá, duas vezes e meia mais que na Inglaterra e uma vez e meia mais que nos EUA, todos países em que o aborto é legal.

PAÍSES QUE PERMITEM ABORTO PRECOCE (12 SEMANAS) A PEDIDO: Canadá, EUA, Suécia, Áustria, França Itália, Holanda, Bélgica, Grécia, Romênia, Dinamarca, China, Cuba, quase toda a ex-URSS.

PAÍSES QUE PERMITEM ABORTO POR RAZÕES SÓCIO-MÉDICAS OU SÓCIO-ECONÔMICAS (BAIXO PODER AQUISITIVO, CRISE PESSOAL, POUCA OU DEMASIA IDADE, OU PROBLEMAS DE SAÚDE): Grã-Bretanha, Finlândia, Áustria, Japão, Coréia do Norte, Índia, Zâmbia.

PAISES QUE PERMITEM O ABORTO POR RISCOS A SAÚDE DA MULHER, DEFEITOS NO FETO OU EM CASOS DE ESTUPRO OU INCESTO: Argentina, Bolívia, Costa Rica, Equador, Peru, Alemanha, Espanha, Polônia, Portugal, Suíça, Egito.

PAÍSES QUE PERMITEM O ABORTO EM CASOS DE ESTUPRO, OU PARA SALVAR A VIDA DA MULHER: Brasil, México, Sudão.

PAÍSES QUE PERMITEM O ABORTO SÓ PARA SALVAR A VIDA DA MULHER: Irlanda, Colômbia, Chile, Paraguai, Uruguai, Venezuela.

FONTES: Internet, Wikipédia, Fundo de Populações, da Organização das Nações Unidas (ONU), do norte‑americano Guttmacher Institute (AGI) e da OMS.

CONCLUSÃO (ABORTO LEGAL): A decisão deve ser da mãe que, juntamente com seus familiares e amigos, decidirá de acordo com suas crenças e/ou convicções.

MULTAS NO ESTACIONAMENTO ROTATIVO

Nesses poucos meses de estacionamento rotativo temos visto o que já era esperado. Centro da cidade vazio (vagas ociosas) e migração do problema para a zona residencial nas proximidades do Centro. De acordo com a empresa responsável pela implantação do estacionamento rotativo na cidade, ocorreram 628 notificações entre os dias 8 e 13 de fevereiro (cerca de 110 notificações por dia). Foi explicado que o proprietário do veículo notificado tem até 48 horas para efetuar o pagamento. Caso contrário, configura-se em infração de trânsito. Ocorre que pesquisando na internet, podemos ver uma série de liminares contra a cobrança dessas multas de trânsito, senão vejamos:

1) As notificações denominadas “Aviso de Irregularidade” elaboradas pelos monitores do estacionamento rotativo e encaminhadas para a lavratura do auto de infração pela autoridade ou agente de trânsito estão suspensas por liminar concedida, em ação civil pública proposta pelo Ministério Público de Santa Catarina. “Considerando como válido o auto de infração de trânsito fundamentado em informação levada pelo monitor do estacionamento rotativo ao órgão de trânsito, estar-se-á delegando, por via reflexa, a esses monitores a atividade privativa dos agentes de trânsito, o que é ilegal”, afirmaram na ação as Promotoras de Justiça, lembrando ainda que o Código de Trânsito determina que o agente ou autoridade de trânsito - que não é o caso do monitor da Zona Azul - tenham que flagrar a infração. Ao conceder a liminar, em seu despacho o Juiz de Direito afirmou que, conforme demonstrado pelo MPSC, “os monitores da empresa concessionária do serviço de implantação, manutenção e operação do sistema de estacionamento rotativo praticam tarefas que extrapolam os limites do seu âmbito de atuação”. (ACP n° 075.10.000900-4)

2) Monitores da Zona Azul na Capital de Santa Catarina não podem encaminhar notificações por uso irregular do estacionamento rotativo para autoridades ou agentes de trânsito, para aplicação de multa. A determinação está em liminar concedida no dia 13 de agosto de 2009 em ação civil pública ajuizada pelo Promotor de Justiça Alexandre Herculano Abreu. A liminar foi concedida pelo Juiz de Direito Luiz Antonio Zanini Fornerolli e, no seu despacho, o magistrado afirma que a aplicação de multa depende de comprovação declarada pela autoridade ou por agente da autoridade de trânsito. “Há manifesta ilegalidade na conduta aplicada, já que a atuação do monitor da Zona Azul se limita apenas à implantação, manutenção e operação do sistema de estacionamento, mas não à fiscalização dos ditames esculpidos na legislação brasileira de trânsito”. (ACP nº 023.09.056052-6)

Aliás, cabe destacar o posicionamento unânime do CETRAN/SP contra essa prática. Através da Ata da 40ª Sessão Extraordinária, realizada em 20/09/2006, diz: “Diante do exposto, não é exagero reconhecer que tal prática denota a existência até mesmo de indícios dos crimes de Concussão e Prevaricação, previstos, respectivamente, nos artigos 316 e 319 do Código Penal, a serem apurados pela competente polícia judiciária”.

A propósito, destacamos posicionamento unânime do CETRAN/SP contra essa prática, através da Ata da 40ª Sessão Extraordinária, realizada em 20/09/2006, que diz: “Diante do exposto, não é exagero reconhecer que tal prática denota a existência até mesmo de indícios dos crimes de Concussão e Prevaricação, previstos, respectivamente, nos artigos 316 e 319 do Código Penal, a serem apurados pela competente polícia judiciária”.

Finalizando, nunca é demais lembrar: “O preço da liberdade é a eterna vigilância”.

7 de abril de 2010

PROJEÇÃO ASTRAL

“Se me pedirem para provar que Zeus, Poseidon, Hera e o resto do Olimpo não existem, estaria perdido até achar argumentos convincentes”. E diria mais, “se já é difícil provar a existência de algo que existe, imagine provar a inexistência de algo que inexiste”. (Bertrand Russell)

Você está sonhando ou em meditação profunda. De repente, sente-se flutuando acima de seu corpo. Viaja por vários lugares, encontra pessoas (vivas e falecidas!) e depois volta sem problemas para o seu corpo. Esta é a descrição do que muito chamam de “projeção astral”. É a separação da consciência de uma pessoa do seu corpo, permitindo à pessoa viajar sem levar o corpo. A projeção astral exige que acreditemos que:

1) a consciência é uma entidade separada do corpo e que pode existir sem o corpo, pelo menos em durante curtos períodos de tempo;

2) que a consciência sem corpo consiga “ver”, “ouvir”, “sentir” e “cheirar”.

A crença de que a mente e o corpo podem ser entidades separadas e possam existir separadas do corpo é a base da visão ocidental tradicional da imortalidade da alma. Na visão tradicional, temos que morrer para a alma poder viajar, e mesmo assim os destinos estão limitados ao céu ou ao inferno. Na visão mística da Nova Era (do inglês New Age) podemos levá-la onde quisermos e não temos que morrer para isso. Que fantástico!

Se a viagem astral existisse, como seria a viagem de um psicopata? De um pedófilo? De um tarado sexual? De um perverso? Existiriam barreiras morais? Limites? Quem estabeleceria essas barreiras ou limites? Espíritos superiores? O homem? A religião? 

Como seria a viagem de um selvagem que não teve contato algum com a civilização? Poderia em sua viagem astral conhecer Paris ou Rio de Janeiro? Poderia em sua viagem astral conhecer os artefatos da civilização ou ficaria restrito ao seu elementar conhecimento acumulado em sua mente?

A neurologia tem demonstrado que todas as nossas capacidades cognitivas estão no cérebro. Não existem evidências científicas de que se possa sair do corpo, voando por aí, por mais que a idéia seja apaixonante. Nossa consciência ao que tudo indica está em milhões de células de nosso cérebro, sem a possibilidade dela se desligar de nosso corpo e se religar novamente.

A consciência é fruto da evolução do sistema nervoso. Percepções, individualidade, linguagem, idéias, significado, cultura, escolha (ou livre arbítrio), moral e ética, todos existem em decorrência do funcionamento cerebral. Nós só podemos pensar com o nosso corpo e nossas emoções. A percepção das emoções é a base daquilo que os seres humanos chamam, depois de milênios, de alma e de espírito.

O neurologista português Antonio Damásio propõe uma base biológica para alegria, tristeza e religião. Sentimentos nada mais são do que representações altamente elaboradas do estado de equilíbrio do organismo. Alegria, tristeza, empatia, orgulho, são todos, em maior ou menor medida, derivados de uma idéia que o cérebro faz do funcionamento do corpo. Existem áreas definidas no sistema nervoso onde essas representações são geradas. A proposta está delineada em “Looking for Spinoza: Joy, Sorrow and the Feeling Brain” (Procurando Spinoza: alegria, tristeza e o cérebro que sente), mais recente e mais ousado livro do neurologista da Universidade de Iowa, lançado neste ano nos EUA.

Há, por vezes, receio de que a investigação científica possa levar a uma “desmistificação” da consciência humana. De fato, são inúmeras, e não triviais, as consequências da conceituação da consciência como fenômeno natural. Uma delas, talvez a mais importante, refere-se à percepção que o ser humano tem de si próprio e de seus semelhantes: teme-se que a concepção da consciência como resultado de um processo biológico corresponda a uma “profanação do espírito humano”, com consequente abandono do comportamento moral e ético.

O fato do Eu acontecer no corpo tem implicações imensas sobre várias das crenças comuns de nossa cultura. Qualquer permanência ou existência do Eu sem o seu corpo não tem sentido, inclua-se aí, pelo menos numa acepção mais primária, o conceito de “vida após a morte”.    

Parte substancial desse viés dualista deve-se a dogmas que estabelecem uma separação entre o espírito e o corpo. Em seu livro “O erro de Descartes”, Antonio Damásio questiona-se: ao afirmar “penso, logo existo”, Descartes não estaria reconhecendo a superioridade da razão e do sentimento consciente, sem compromissos no que se refere à sua origem, substância ou permanência? Isto é, não estaria Descartes afirmando que pensar e ter consciência de pensar é que constituem os verdadeiros substratos da existência? Damásio pergunta-se, ainda, se essa famosa frase de Descartes não se constituiu numa estratégia de redação para evitar as fortes pressões religiosas da época. E finaliza referindo-se à inscrição escolhida por Descartes para sua lápide: “Aquele que se esconde bem viveu bem”, como uma possível indicação de contestação discreta ao dualismo.

Seria simples provar a viagem astral, se essa realmente existisse. Existe método científico para isso. Uma tentativa de se provar a “hipótese do corpo objetivo”, que fundamenta toda a Projeciologia, assim como a Parapsicologia, é através da realização de inúmeros experimentos projetivos conjuntos, onde dois ou mais projetores saem fora do corpo, se encontram e, depois, relatam as mesmas experiências quando a ele retornam. Tais experimentos não podem ser explicados por nenhuma teoria médica ou psicológica, restando portanto a “hipótese do corpo objetivo” como a única plausível. No entanto, tudo o que temos são apenas testemunhos.

Método científico é uma forma de investigação da natureza. Para isso, não leva em consideração superstições ou sentimentos religiosos, mas a lógica e a observação sistemática dos fenômenos estudados. Teorias científicas não são meros palpites ou especulações. Uma teoria deve se prestar a explicar as observações e deve poder fazer predições, tendo como conseqüência de sua legitimidade a sua aplicação e aceitação.

Portanto, por mais que esta crença seja atraente, ela não possui fundamento científico. Portanto, desconfie de qualquer pessoa que se apresente como “especialista em viagem astral”, “especialista em projeciologia” ou , que tente lhe ensinar como “viajar para o astral”. Qualquer suposto ensinamento de tais técnicas é pseudocientífico, sem embasamento em fatos reais. Muitas pessoas adquirem estes ensinamentos e, como têm um forte desejo de “viajarem no astral”, acabam tendo sonhos aonde se sentem como se estivessem viajando fora do corpo.

Recentemente, Francis Crick, Cientista, um dos descobridores da hélice dupla do DNA, publicou uma pesquisa atribuindo a consciência humana a um grupo de neurônios. A comprovação também representaria a conclusão de anos de pesquisas sobre a consciência. Numa pesquisa anterior, ele dissera: “A crença da ciência é que nossas mentes - o comportamento de nossos cérebros - podem ser explicadas inteiramente pelas interações das células nervosas.” A nova pesquisa de Crick indica que ele provou sua teoria. O ensaio baseia-se em anos de experiências, incluindo estudos de pacientes com danos cerebrais, testes com animais e pesquisa psicológica. Alguns dos dados mais relevantes vêm do uso terapêutico de minúsculas sondas no cérebro de epilépticos para avaliar seus ataques. O estudo descreve como partes distintas do cérebro interagem para gerar a consciência. “Pela primeira vez, temos um esquema coerente para as combinações neurais da consciência em termos filosóficos, psicológicos e neurais”, diz o ensaio.

“A verdadeira consciência pode ser expressa meramente por um pequeno grupo de neurônios, em particular aqueles que se estendem da parte de trás do córtex para partes do córtex frontal.” Christof Koch, professor de neurociência no Instituto de Tecnologia da Califórnia e co-autor da última pesquisa de Crick, afirmou: “Está claro que a consciência surge de reações bioquímicas dentro do cérebro.”

Assim, todos os fenômenos que geram a mente, o pensamento, a consciência e o Eu tem base material e são conseqüências de complexos processos físico-químicos, que têm lugar em nossos corpos. O Eu é parte indissociável do corpo. Existe e acontece nele. A própria sensação de dissociação tão comum a todos nós - a sensação de que “eu habito meu corpo”, como se o corpo fosse um lugar no qual o Eu está e eventualmente pode sair - é parte dos processos materiais que devem ser explicados por uma teoria da mente.

FONTES:
A Alma não Existe (por Darlene Menconi)
As Células da Alma (por Jonathan Leake - The Sunday Times)
A Razão dos Sentimentos (por Cláudio Ângelo - Folha de SP)
Consciência (por Alexandre de Campos, Andréa M. G. dos Santos e Gilberto F. Xavier)
Método Científico (por Francisco Saiz)
Quem Sonha com Ovelhas Elétricas? (por Mario Barbatti)
Viagem Astral (por Aurélio Moraes)
Projeção da consciência, Wikipedia