A vida, como observava Schopenhauer, pode ser compreendida como um constante processo de desilusão. Quanto mais inteligente o indivíduo se torna, mais exposto ele fica ao sofrimento, pois aquele que multiplica o conhecimento, inevitavelmente, multiplica a dor. Esse mesmo eco profundo e milenar ressoa nas páginas de Eclesiastes (1:18), onde a sabedoria ancestral já sentenciava: “Porque na muita sabedoria há muito desgosto; e quem aumenta o conhecimento, aumenta a tristeza.”
Conhecer
profundamente é despir as ilusões que outrora tornavam a existência
mais leve. A criança vê magia onde há apenas truques; o ingênuo
encontra esperança onde existe manipulação. Contudo, aquele que
enxerga demais, sofre — não porque o mundo tenha se tornado pior,
mas porque ele perdeu a capacidade de fingir que não vê. A
consciência, portanto, converte-se em um fardo. Olhar para a
realidade nua e crua exige uma coragem silenciosa, e apenas os fortes
conseguem suportar o peso da lucidez sem se deixarem corromper pelo
cinismo.
Reconhecer
essa crueza desmonta a ilusão de que outros caminhos trariam apenas
alegrias. Qualquer trajetória escolhida carregará suas próprias
tristezas, pois a vida é inerentemente complexa e imprevisível. A
dor e a decepção não são erros de percurso, mas partes
fundamentais da condição humana, o que torna ingênuas e
insuficientes as fórmulas prontas de felicidade em poucos passos.
Aceitar
essa verdade evita falsas expectativas e nos prepara para lidar com
as inevitáveis adversidades sem depender de promessas irrealistas.
Ao esperar menos do mundo, passamos a valorizar e a desfrutar
genuinamente dos pequenos momentos de alegria que surgem.
Nesse
processo, o sábio não se desespera ao compreender a natureza
efêmera de todas as coisas: ele se liberta. Quando se percebe que
tudo é impermanente, o apego se revela um veneno; quando se descobre
que quase tudo é máscara, o silêncio se torna um abrigo seguro.
É
nesse ponto de maturação que o conceito de Amor-fati (o amor ao
destino), inspirado em Nietzsche e Espinosa, ganha força. Ele surge
como um convite definitivo para abandonar idealismos, dogmas e
promessas abstratas de um futuro perfeito, abraçando inteiramente a
realidade presente. Trata-se de rejeitar a negação dos corpos, do
mundo real e das sensações em nome de valores absolutos, resgatando
e valorizando as nossas próprias energias vitais.
Amar
o destino não significa submissão passiva nem resignação covarde,
mas sim uma afirmação ativa e corajosa da vida. Substitui-se a
busca por estados permanentes e estáticos pela aceitação
consciente dos fluxos afetivos e dos encontros singulares. Por fim,
reconciliar-se com o necessário é celebrar a própria potência de
agir — transformando o peso do conhecimento em libertação e
dizendo um “Sim” pleno e definitivo à existência tal como ela
é.
JC
COUTINHO
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