A obra de C.S. Lewis, publicada
em 1942, permanece atemporal. Na Carta XII de Cartas de um Diabo a
seu Aprendiz, o demônio experiente expõe sua maior obra-prima ao
sobrinho: o poder do nada e a anestesia gradual da alma. Ele explica
que não é preciso empurrar o ser humano para crimes bárbaros para
condená-lo; o plano mais eficaz é fazê-lo desperdiçar a vida em
trivialidades.
A
ESTRATÉGIA INFERNAL: O HÁBITO DO NADA: O autor ilustra essa
anestesia mostrando que o objetivo é fazer o homem ler livros ruins,
ouvir músicas vazias ou simplesmente jogar o tempo fora olhando para
o teto. De forma irônica, o diabo afirma que o ideal é fazê-lo
gastar horas em algo que ele sequer gosta, apenas para preencher o
vazio. Os demônios preferem uma noite inteira perdida em um jogo
chato ou em uma revista fútil a um bom livro. O objetivo da
estratégia infernal é criar o “hábito do nada”, mantendo o
indivíduo anestesiado no fluxo da massa até que seja tarde demais.
Como
escreve o demônio: “O assassinato não será melhor que o carteado
se este der conta do recado.” Ele ainda cita o caso de um homem que
chegou ao inferno horrorizado ao perceber que passou a vida inteira
sem fazer o que devia e sem desfrutar do que realmente gostava.
O
MEDO DE SER DIFERENTE E A DITADURA DO GRUPO: O livro também destaca:
“Fui informado, a partir de fontes seguras, de que os jovens de
hoje muitas vezes suprimem um gosto incipiente por música clássica
ou boa literatura porque isso os impediria de serem iguais a todo
mundo, e que as pessoas que realmente desejam ser e recebem a graça
que os capacita para ser honestas, castas ou temperantes, a recusam,
pois aceitá-la poderia torná-las diferentes e ofender novamente a
normalidade das coisas, tirá-las do círculo da irmandade,
prejudicar sua integração com o grupo. Elas poderiam tornar-se
indivíduos.”
“Nesse
meio tempo, como um efeito colateral bem-vindo, os poucos – cada
vez menos – que não se encaixam na normalidade, em vez de se
tornarem como todo mundo de forma regular, homogênea e integrada,
tendem cada vez mais a se tornar os verdadeiros pedantes e
excêntricos que todo mundo, de qualquer forma, já achava que eles
eram. Pois a suspeita muitas vezes gera a coisa suspeita. Já que,
independente do que eu faça, os vizinhos vão me achar uma bruxa ou
um agente comunista, aquilo de que me rotularem acabarei me tornando.
Em consequência disso, temos agora uma inteligência que, embora
seja muito pequena, é muito útil à causa do inferno.”
A
DEMOCRACIA INVERTIDA: O NIVELAMENTO POR BAIXO: “E não é lindo ver
como a democracia, no sentido mágico, está agora fazendo para nós
todo o trabalho outrora feito pelas ditaduras mais antigas e pelos
mesmos métodos? Vocês se lembram da história de como um dos
ditadores gregos – eles o chamavam de tiranos na época – enviou
um mensageiro a outro ditador para solicitar o seu conselho sobre os
princípios do governo? O segundo ditador conduziu o mensageiro a um
milharal e lá cortou com sua foice todas as hastes que estivessem um
centímetro acima do nível das outras.”
“A
moral da história é simples: não admita que ninguém entre os seus
súditos se destaque, não deixe sobreviver ninguém que seja mais
sábio, melhor, mais famoso ou até mesmo mais bonito que a massa.
Passe a régua em todos para ficarem no mesmo nível: todos escravos,
todos números, todos são ninguém, todos iguais. Assim, os tiranos
podem, em certo sentido, praticar a democracia, mas a democracia é
capaz de fazer o mesmo trabalho sem qualquer outra tirania que não
seja a sua própria. Ninguém agora necessita passar pelo campo com
uma foice. As hastes menores vão agora passar a cortar fora as
pontas mais altas; as grandes começarão a cortar as suas próprias
pontas pelo desejo de serem como todo mundo.”
A
SABOTAGEM DO TALENTO NAS ESCOLAS: “Assim, o aluno mais inteligente
permanecerá democraticamente acorrentado a seus colegas da mesma
idade por toda a sua carreira escolar. E um menino capaz de
compreender Ésquilo ou Dante será obrigado a ficar sentado ouvindo
seus contemporâneos tentando soletrar 'vovô viu a uva'. É o bom e
velho nivelar por baixo. Os poucos que possam querer aprender serão
pervertidos. Afinal, quem são eles para querer se destacar de seus
colegas? De qualquer forma, os professores – ou devo dizer as babás
– ficarão muito ocupados dando assistência aos ignorantes e
tapinhas nas costas para gastar o seu tempo com o ensino de verdade.
Não temos mais que planejar e trabalhar duro para espalhar
prepotência imperturbável e ignorância incurável entre os jovens.
Os pequenos vermes mesmos farão isso por nós.”
O
RESULTADO: UMA NAÇÃO DE SERES MALEÁVEIS: “A democracia, ou o
espírito democrático no sentido diabólico, produz uma nação
desprovida de grandes homens, já que todo mundo é igual; uma nação
composta essencialmente de analfabetos, seres moralmente frouxos pela
falta de disciplina na juventude, cheios de autoconfiança que as
bajulações criaram em cima da ignorância e molengas em virtude de
toda uma vida de mimos. E é nisso que o inferno deseja que todas as
pessoas democráticas se tornem, pois quando uma nação assim entra
em conflito com uma nação em que os filhos foram postos para
estudar, onde o talento é colocado em um alto patamar e onde a massa
ignorante não é autorizada a ter nenhuma voz em assuntos públicos,
apenas um resultado é possível.”
O
CENÁRIO ATUAL: O “PÃO E CIRCO DIGITAL”: No cenário atual –
onde governos e o sistema cultural utilizam distrações massivas e
pautas hiperfragmentadas –, a conexão com a Carta XII é
cirúrgica. É a manifestação do “Pão e Circo Digital”. Hoje,
esse conceito vai além de estádios de futebol ou do uso eleitoreiro
de auxílios governamentais; ele se estende à anestesia digital. O
algoritmo das redes sociais, o entretenimento de baixa qualidade
(como conteúdos eróticos e rasos que sufocam a arte complexa) e os
modismos por pertencimento tribal (tatuagens, cortes de cabelo,
piercings ou vestimentas específicas) funcionam como esse “nada”,
afastando o homem da própria transcendência.
A
POLARIZAÇÃO E A VIRTUDE ABSTRATA: Essa dinâmica também opera na
polarização política. As pautas fragmentadas conectam-se a outro
princípio de Lewis: a substituição do real pelo abstrato. Quando a
cultura força antagonismos ferrenhos, cria uma cortina de fumaça.
O
demônio orienta que o ser humano deve direcionar sua malícia para
as pessoas reais ao seu redor (família e vizinhos) e sua
"benevolência" para causas abstratas (o "planeta"
ou a "humanidade"). Grandes pautas globais,
instrumentalizadas ideologicamente, geram uma falsa sensação de
virtude: o indivíduo se sente “salvador do mundo” por uma
hashtag, mas continua intolerante e espiritualmente vazio no dia a
dia.
O
TRIUNFO DO ZEITGEIST: A decadência cultural, a perda do apreço pela
alta cultura e a dependência do assistencialismo estatal ocorrem de
forma gradual. O debate público torna-se raso e a população aceita
a mediocridade dócil e confortavelmente.
Em suma, o zeitgeist
(espírito da nossa época) opera exatamente como o velho diabo da
Carta XII: oferecendo uma ladeira suave, pavimentada com
entretenimento estupidificante e brigas ideológicas triviais, para
que ninguém perceba para onde a sociedade está caminhando.
JC
COUTINHO

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