A
medicina é uma prática fundamentada na ciência (biologia, química,
física, etc.), mas não é uma ciência pura em si. A ciência busca
o conhecimento puro e as leis universais, o foco é o fenômeno. Já
a medicina busca a cura ou o alívio, baseada em evidências, que é
seu objetivo prático.
A
MBE (Medicina Baseada em Evidências) é o “vínculo” que
une a ciência à prática clínica. Ela garante que as decisões do
médico não sejam baseadas apenas em intuição ou no “eu sempre
fiz assim”, mas em dados estatísticos sólidos vindos de estudos
científicos (ensaios clínicos, metanálises, etc.).
O
Dr. Victor Sorrentino afirma que a prática clínica atual é uma
medicina baseada em baixas evidências, pois valida apenas estudos
“padrão ouro” financiados pela indústria. Ele argumenta que a
medicina não é ciência, mas sim uma arte que aplica conhecimentos
científicos, muitas vezes limitados pelo que é patenteável e
lucrativo. Como vitaminas e hábitos naturais não geram patentes, a
indústria não investe nos estudos caros exigidos pelo sistema.
Assim, descarta-se o que funciona por simples falta de interesse
financeiro, confundindo ausência de prova com ausência de eficácia.
Sobre
Evidências: “Nós temos hoje uma dita Medicina Baseada em
Evidências. Só que, infelizmente, é uma medicina baseada em
evidências, na grande maioria das vezes, ela é uma medicina baseada
em baixas evidências. Por quê? Porque o nível de evidência que se
cobra para que algo possa ser realizado é um nível de evidência
que exige muito dinheiro. Para você fazer um trabalho padrão ouro,
que é um trabalho duplo cego, randomizado, placebo controlado e
multicêntrico, você precisa de milhões de dólares. E quem é que
tem milhões de dólares para investir em um trabalho científico? A
indústria.”
Sobre
Conflito de Interesses: “A indústria farmacêutica não vai
investir em algo que não seja passível de patente. Ela não vai
investir em uma vitamina, ela não vai investir em um mineral, ela
não vai investir em uma mudança de estilo de vida ou em uma planta
que não pode ser patenteada. Por quê? Porque ela é uma empresa,
ela visa o lucro e precisa de retorno para os seus acionistas. Isso é
o capitalismo, e não há crime nisso. O problema é quando a
medicina passa a ignorar tudo aquilo que não tem esse nível de
evidência '‘padrão ouro’', tratando como se não existisse ou
como se fosse '‘charlatanismo’'.”
Medicina
Além do Ouro: “Existem milhares de estudos epidemiológicos,
estudos observacionais, estudos de coorte, estudos in vitro e em
animais que mostram benefícios absurdos de diversas substâncias
naturais e mudanças de hábito. Mas, como não são '‘duplo cego
randomizados’', muitos médicos dizem: '‘não há evidência
científica’'. Na verdade, existe evidência, o que não existe é
o interesse financeiro em transformar essa evidência em um protocolo
padrão de tratamento.”
“Precisamos
entender que a ausência de prova não é prova de ausência. Só
porque não houve um investimento de 50 milhões de dólares para
provar algo, não significa que aquilo não funcione ou que não
tenha embasamento fisiológico e bioquímico para ser utilizado em
benefício do paciente.”
Para
ilustrar como essa visão se aplica na prática, vamos usar o exemplo
clássico da Vitamina D e dos Fitoterápicos (plantas medicinais).
Eles são os alvos principais da crítica de que a “medicina
baseada em evidências” é, na verdade, baseada em interesses
financeiros.
1)
O Caso da Vitamina D e Nutrientes: A ciência básica (bioquímica)
prova que a Vitamina D atua em mais de 2.000 genes. No entanto, por
ser uma substância natural que não pode ser patenteada, nenhuma
farmacêutica investirá 100 milhões de dólares para fazer um
estudo “padrão ouro” para tratar uma doença específica com
ela.
O
resultado: Muitos conselhos médicos dizem que “não há evidências
fortes” para doses maiores, ignorando a fisiologia óbvia em favor
da ausência de um papel carimbado pela indústria.
2)
Fitoterápicos vs. Fármacos Isolados: A indústria prefere isolar um
princípio ativo de uma planta, alterá-lo levemente em laboratório
para torná-lo único e, então, patenteá-lo.
O
abismo: O chá ou o extrato da planta inteira pode ter efeitos
colaterais menores e benefícios combinados, mas como a planta “é
de todo mundo”, ela é rotulada como “medicina alternativa” ou
“sem comprovação”, enquanto a pílula patenteada vira o
“tratamento oficial”.
O
MÉDICO COMO “INTÉRPRETE”: O bom médico não é aquele que
segue a ciência como um dogma (isso seria “cientificismo”), mas
aquele que atua como um tradutor:
Ele
olha o que a ciência demonstrou ser mais eficaz para a maioria.
Ele
olha para o paciente e entende suas particularidades.
Ele
usa sua experiência não para negar a evidência, mas para
ajustá-la.
JC
COUTINHO