27 de março de 2026

O ELIXIR DE PEDRA E LUZ




As catedrais e seus templos religiosos não servem apenas à oração. Independentemente de nossas crenças ou descrenças, são espaços terapêuticos e exemplos de arquitetura sagrada que elevam o espírito humano, oferecendo consolo e uma sensação de nobreza. Com seus padrões de verticalidade e luz filtrada, induzem a um estado de serenidade e introspecção, agindo como um bálsamo para as angústias da vida moderna. Tais monumentos nos fazem sentir “pequenos” de forma positiva, lembrando-nos de que há algo maior do que o cotidiano.

Não gostaria de viver num mundo sem catedrais. Preciso da sua beleza e grandiosidade em contraposição às cores sujas do embate diário. Preciso da força da sua poesia, em contraste com a decadência da língua e com a tirania dos slogans inúteis. Não gostaria de viver num mundo sem catedrais... Necessito do brilho dos seus vitrais, da sua frescura serena e do seu imperioso silêncio. Preciso da santidade das palavras e da estatura da grande poesia.

As catedrais restabelecem o vínculo sagrado com a totalidade do universo e promovem o retorno a uma síntese primeira, anterior à cisão da autoconsciência e à dor das formas repartidas. A dádiva, muitas vezes, reside apenas em lembrar que esse espaço-tempo do sagrado existe; ou seja, que ele está lá, ao nosso alcance, como um elixir que nos permite escapar do circuito profano das miudezas do mundo — uma realidade em que vozes e buzinas se confundem — para ingressar por inteiro no universo paralelo da espiritualidade atemporal.

Nelas, pode-se simplesmente abstrair-se de tudo o que existe e mergulhar no universo da completa transcendência. A alma, embalada pela autoconsciência e desligada do corpo e dos demais sentidos, refaz o mundo à sua maneira — é criadora e criação de si mesma. Para onde vai o tempo enquanto estamos mergulhados em estado de absorta concentração?

JC COUTINHO

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